Tuesday, February 23, 2010

FOLCLORE E… ELEFANTES BRANCOS

“Conquiste o inglês para tornar a China mais forte.” LI YANG
“Aprender um idioma global é vital para qualquer nação, não apenas para a China.”
DAVID CRYSTAL

Um leitor fidelizado perguntava-me outro dia se não pensava intervir a propósito das eleições presidenciais do próximo ano. Se não considerava a questão importante, se não tinha ainda opinião formada sobre o assunto ou se estava satisfeito com as colocações feitas na comunicação social. Respondi-lhe que a questão não era prioritária, que há tantas e tão importantes questões que clamam pela atenção do cabo-verdiano, e que, por isso, a questão presidencial pode e deve esperar. Mas não deixei de acalmar o leitor, informando-o da existência de um grupo de reflexão que definiu já cenários de intervenção e participação democrática em relação às presidenciais de 2011 – daqui a, mais ou menos, 18 meses.
O grupo de reflexão, deitando mão dos princípios do PES – Planeamento Estratégico Situacional – de Carlos Matus, definiu os cenários seguintes:
- Cenário 01 : O MpD e o PAI, em processos democráticos, definem apoiar o melhor candidato de cada um dos campos (Jorge Carlos Fonseca e Aristides Raimundo Lima, por exemplo) e estes, e só estes, entram em campo. Aí, o pessoal fecha o dossier presidencial e vai votar no dia marcado, cada um escolhendo o candidato que lhe parecer melhor para o país;
- Cenário 02: Carlos Veiga impõe um candidato aos militantes do MpD, numa demonstração de força (por exemplo, Amílcar Spencer Lopes), e o PAI apoia um candidato escolhido em processo democrático próprio (por exemplo, Aristides Lima) e estes, e só estes, entram em campo. Aí, o pessoal, em defesa da democracia que deve reger os processos políticos de escolha, escolhe votar, e promover a votação, em Aristides Lima;
- Cenário 03: O MpD escolhe, em processo democrático próprio, apoiar um candidato (por exemplo, Jorge Fonseca) e José Maria Neves decide impor aos militantes do PAI o «seu» candidato (por exemplo, Manuel Inocêncio de Sousa) e estes, e só estes, entram em campo. Aí, o grupo, sempre em defesa da democracia nos processos de escolha, ainda que internos, escolhe votar, e promover a votação, em Jorge Carlos Fonseca;
- Cenário 04: Veiga e Neves impõem candidatos aos militantes dos respectivos partidos, em demonstração de força (não se acham, ambos, mais populares que os partidos que lideram?), por exemplo Spencer Lopes e Inocêncio Sousa. Aí o grupo sai à rua, buscando um candidato da cidadania (o Rev. Adérito Ferreira, jornalista Filomena Silva, o escritor Germano Almeida, o historiador António Leão Correia e Silva, a professora Ondina Rodrigues, o empresário Jacinto Santos, o cientista político Onésimo Silveira ou outro cidadão elegível), construindo, à volta deste, os consensos necessários, montando uma boa plataforma, definindo um bom discurso, fazendo a necessária engenharia financeira, desafiando os «bodonas» nacionais, tudo fazendo para que nas eleições presidenciais de 2011 haja um candidato escolhido segundo cânones democráticos, e de lá saia um Chefe de Estado amplamente consensual.
O discurso seria muito simples. Antes de mais sublinhar-se-ia a necessidade de desmontagem da fraude dos líderes mais populares do que os partidos que lhe dão o «empowerment»; depois, sublinhava-se a necessidade dos militantes do PAI e do MpD se realizarem na escolha, PESSOAL, de um candidato (não se submetendo à imposição dos respectivos líderes); finalmente, sublinhava-se a necessidade de cidadão nenhum ficar em casa no dia das eleições (chova ou faça sol), fazendo uma clara demonstração de força (aí, SIM) da cidadania. O bom e o bonito será ver os «bodonas» e seus afilhados retirarem-se da cena, com o rabinho entre as pernas. Não há, portanto, razão para estar afoito a 18 meses das eleições. E se pensarmos que se as Legislativas forem em Março, as Presidenciais em Setembro, a posse do Chefe de Estado em Outubro, nem valeria a pena nos desgastarmos. Afinal, o Mundo não acaba em 2012? Tanto leva e traz para eleger um Presidente que talvez venha a ter um mandato de um par de meses…
O meu leitor sorriu, balançou a cabeça e quis saber o que era então prioritário, para mim. Respondi-lhe, de pronto, que a prioridade era aprender a criar oportunidades, aprender a aproveitar estas e outras que nos baterem à porta e, sobretudo, aprender que basta de investimentos em elefantes brancos. Perguntei-lhe se sabia quantos elefantes brancos já temos enjaulados em Cabo Verde, onde se encontram as jaulas, quem eram os responsáveis, quem os tinha industriado a tomar tais decisões, enfim as questões da praxe, nesses casos. Identificou com exactidão todos os bicharocos nacionais, onde estão localizados, só falhando na resposta acerca das eminências pardas por detrás de tais decisões. Ah! E quis saber que importava isso, sendo certo que o Mundo acabará em 2012.

Tive que lhe explicar que, antes de mais, não é certo que o Mundo acabará em 2012 e que mesmo aceitando a fatalidade, seria sempre mais honroso não terminar os nossos dias endividados (todos nós) por causa de… elefantes brancos. Deixei claro para o leitor que diante do falhanço da profecia que dizia que o Mundo acabaria no ano 2000, o melhor mesmo era nos prepararmos para a eventualidade de novo falhanço. E aí, seria necessário que tivéssemos tudo funcionando no sentido da realização das nossas opções: CABO VERDE – Centro Financeiro Internacional; INDÚSTRIA LIGEIRA, virada para a exportação, instalada e funcionando a todo o vapor; AGRICULTORES menos pobres e muito próximos de nos garantirem a auto-suficiência alimentar (falhando apenas nos cereais).
Sublinhei o facto de podermos falhar a realização das nossas opções, caso falhemos o acesso efectivo aos fundos do MCC. Diante da sua incredulidade face à eventualidade de não acesso aos fundos, apesar de termos sido seleccionados para um segundo compacto do MCA, expliquei-lhe que com os fundos geridos pelo MCC, as coisas se passam um pouco como com os vistos de entrada nos Estados Unidos da América: o VISTO de entrada emitido pelos Consulados dos USA permite viajar até àquele país, mas a entrada efectiva nos States depende das autoridades fronteiriças das terras de Uncle Sam; se disserem NÃO, não vale apelar pela existência do VISTO. Com o MCA, acontece algo muito parecido: um país é seleccionado, mas, ao contrário da loteria (onde o ganhador se apresenta munido do bilhete premiado para sacar o prémio), só a coerência e a relevância dos projectos submetidos a financiamento ditam o desbloqueio dos fundos. Por isso, corremos riscos sérios que convém, elencar e ultrapassar. Aqui ficam alguns dos riscos expostos ao meu fiel leitor:
1. Negociação final muito próximo do termo da Legislatura, o que pode levar à assumpção de projectos que tenham a ver mais com a premência da reeleição do que propriamente com a realização das opções já consensualizadas;
2. Possibilidade de os projectos a financiar venham a ser apresentados por um um novo Governo, saído das eleições dos primeiros meses de 2011. Havendo alternância, i.e., sendo o MpD a dirigir o executivo da nova Legislatura, a SEZ (Síndrome da Estaca Zero) poderá complicar as coisas, levando a que os projectos sigam na contra-mão dos consensos iniciais, para escapar à acusação (esdrúxula, diga-se em abono da verdade) de estar a operacionalizar projectos deixados pelo Governo anterior;
3. A grande tentação de, seja qual for o partido do Governo, sob pressão, se apresentarem projectos megalómanos, votados a darem à luz novos elefantes brancos.
A filosofia subjacente ao novo figurino de Ajuda dos USA privilegia o apoio a esforços de investimento virados para o crescimento económico e consequente redução da pobreza. Todo e qualquer desvio em relação a tal filosofia pode levar-nos a bater com o nariz nas pesadas portas dos cofres do MCC. Assim, não só não sobra espaço para elefantes brancos, como ainda as soluções devem estar consensualizadas e não se afastarem muito de soluções já testadas com sucesso.
Na última década, a China praticamente dobrou o número de pessoas capazes de se comunicar em inglês e já superou até mesmo a Índia no total de falantes. Em 2008 o governo chinês tornou obrigatório o inglês nas escolas para crianças a partir dos 09 anos de idade e, em cidades maiores, como Pequim e Xangai, a obrigatoriedade começa aos 06 anos. Para receber os visitantes durante a Olimpíada de 2008 e a feira internacional Expo 2010 – que acontece a partir de Maio próximo em Xangai - foram criados programas de treino intensivo para profissionais como taxistas, médicos e pessoal do sector de turismo*. Estará na aposta no inglês a justificação para o milagre chinês? Não será, certamente, o único fautor de tal milagre, mas ninguém nega o peso de tal aposta no sucesso de muitos países. Em um país que se diz, e se sente, vocacionado para sediar um Centro Financeiro Internacional (sério e a sério), e que não se vai conformar em apenas dar prédios de arrendamento para instalação das instituições de crédito, a aposta no Inglês certamente não será negligenciada, nem o MCC negará os necessários fundos para a realização da vocação: Popularização do Inglês, Massificação da Internet, Vulgarização da Informática e Formação de bancários e profissionais da intermediação financeira.
Insisto em propostas já registadas anteriormente (a registada acima; investimentos na infra-estruturação de zonas francas, na produção de água e de energia eléctrica que permita o seu débito a preços mais competitivos, em redes de distribuição de água e energia, na capacitação da nossa mão-de-obra; no desenvolvimento da Agricultura, pela via da modernização dos processos de produção, na mudança das mentalidades, na aposta na preparação, equipamento e motivação de Extensionistas Rurais) mas não tenho a pretensão de ser o dono da verdade. A ideia é tão-somente cimentar um enfoque pragmático na construção das propostas a serem submetidas: NÃO a megalomanias; um NÃO claro a elefantes brancos; preocupação constante com o retorno dos investimentos (promoção de crescimento económico que deverá desembocar na redução dos níveis de pobreza e do número de pobres); banimento absoluto de tentativas de ajuste de contas (essa foi-me sugerida por uma colocação feita por um dirigente do PSD - por ocasião da discussão da Lei das Finanças Regionais - segundo o qual, não faz o mínimo sentido travar a Região Autónoma da Madeira ou a Região de Lisboa, só porque estão acima da média nacional.
A prioridade agora, amigo leitor, é a preparação do país para a eventualidade de não se realizar a profecia segundo a qual o Mundo acabará em 2012. Por isso, não se exclua, nem se deixe excluir, do processo de construção das propostas de projectos a submeter ao MCC. Quanto às presidenciais de 2011… por enquanto, é puro folclore, NADA PORQUE VALHA A PENA PERDER O SONO.
* ver «A nova fronteira do Inglês», publicado na edição 960 da Revista «EXAME».

Tuesday, February 9, 2010

MCA II

"A sociedade é composta por duas grandes classes: aqueles que têm mais jantares que apetite e os que têm mais apetite que jantares.”
SÉBASTIEN-ROCH CHAMFORT
Não faço a mínima ideia acerca das linhas orientadoras das propostas que o Governo de Cabo Verde irá apresentar ao Millenium Challenge Corporation – MCC. Nem faço tenção de pagar para ver.
Como qualquer bom cabo-verdiano, penso o país e tenho esperanças de vê-lo crescer, produzindo e redistribuindo riquezas, esforçando-se por doar a seus filhos uma qualidade de vida aceitável. Por isso, cada oportunidade, cada trampolim, que aparece, me deixa expectante quanto ao modo como vai feita a «chamada», como se vai pisar o trampolim, como se evolui no ar e, principalmente, como se dará a «saída» (a classe, o estilo, da aterragem depois do salto). Daí que, no momento em que se forjam as propostas de projectos a serem financiados pelos fundos geridos pelo MCC, me sinta na obrigação de dizer de minha justiça.
Diante do amplo consenso sobre a transformação de Cabo Verde em Centro Financeiro Internacional; perante a minha convicção de que o país só teria a ganhar se investisse firme na atracção de investimentos para o sector da indústria ligeira; e acreditando na possibilidade dos nossos agricultores, devidamente «trabalhados», se tornarem capazes de nos levar para muito próximo da auto-suficiência em frescos e legumes; aplicaria os fundos do MCA II na consecução de três grandes objectivos, a saber: (i) a instalação de competências nacionais para dar corpo à PRAÇA FINANCEIRA INTERNACIONAL; (ii) a infra-estruturação do país para atrair e suportar unidades industriais (indústria ligeira) viradas para a exportação; e (iii) o investimento na reconversão da agricultura nacional, com uma aposta forte na componente EXTENSÃO RURAL.
Para o primeiro objectivo, não teria dúvidas em sugerir uma forte aposta nos três «is» - INGLÊS, INFORMÁTICA, INTERNET – e na formação de bancários e de agentes de mediação financeira. INTERNET com acesso gratuito, pondo o mundo todo ao alcance de um clique de qualquer cabo-verdiano. Factível? Penso que sim! O INGLÊS, como segunda língua, a ser ensinado já a partir do pré-escolar, tornando-se factor preferencial para a concessão de isenção de propinas, bolsas de estudo, etc, o domínio da língua que foi de Shakespeare e que agora se transformou em língua universal (ultrapassando, largamente, o ESPERANTO). No momento, e com recurso aos fundos do MCA, poder-se-ia abrir um programa, tipo «NOVAS OPORTUNIDADES», de formação em INGLÊS, virado para os adultos, e outro de aprofundamento dos conhecimentos, e destinado àqueles que já tiveram contactos anteriores com a língua.
A INFORMÁTICA, enquanto ferramenta de excelência, nos tempos que correm, deve poder ser dominada pelos profissionais cabo-verdianos, não importa em que ramo operem. Uma vez que os nossos desafios precípuos têm a ver com a excelência e com a qualidade, o domínio da INFORMÁTICA é imprescindível. O MCA II pode (e deve) ajudar.
Queremos um Centro Financeiro Internacional operando com quadros e especialistas nacionais em matéria bancária e de intermediação financeira, ou um Centro que traga gente de fora para dar conta das suas necessidades? Sendo nossa vocação inequívoca a prestação de serviços (que não se cinjam a simples arrendamento de espaços para instalação das instituições financeiras), necessário se torna que formemos uma bolsa de recursos humanos com as valências necessárias para a realização da nossa vocação. O MCA II poderia, também neste particular, fazer um bom investimento.

A identificação de espaços para albergarem as futuras ZONAS INDUSTRIAIS do país (Praia, Assomada e Porto Novo, esperam há que tempos); a devida infra-estruturação, dos referidos espaços, para a finalidade (vias, energia, água, telecomunicações, esgotos, estação de tratamento de águas residuais, etc.); e a aprovação de um Código de Incentivos virados para a indústria ligeira; poderiam, TAMBÉM, ser suportadas pelos fundos do MCA, sem qualquer dúvida quanto ao retorno do investimento (redução do desemprego, rendimento das famílias, arrecadação de impostos sobre o consumo, redução do desequilíbrio da balança comercial, entrada de divisas, etc.)
A par da oferta de zonas industriais devidamente infra-estruturadas e de incentivos fiscais, o investimento na formação profissional de alto standing (HS) completaria o quadro de atractivos para o investimento na indústria ligeira em Cabo Verde. Se outras razões não existissem (e existem), só esta já justificaria a aposta. E o MCA II poderia contribuir. Afinal, a ideia não é ajudar o país a crescer e a combater a pobreza? Então…
Mas a questão da industrialização do país não pode ficar pela atracção dos investidores (nacionais e estrangeiros). De que serviriam as zonas industriais infra-estruturadas, os incentivos atraentes e os operários altamente especializados, se se mantivessem os preços proibitivos das telecomunicações, da água e da energia eléctrica? O mais certo seria os investidores torcerem o nariz diante do que considerariam uma armadilha. Será necessário, portanto, ir muito mais fundo: investir na dessalinização das águas que nos cercam por todos os lados; apostar na utilização da natureza para a produção de energia limpa e mais barata; construir novas redes de distribuição de água e de energia eléctrica. Aí sim, teríamos o país preparado para a diversificação do seu papel na economia global (não ficaria na dependência exclusiva de um turismo de réditos mais do que duvidosos). DESSALINIZAÇÃO, ENERGIAS RENOVÁVEIS E NOVAS REDES DE DISTRIBUIÇÃO DE ÁGUA E DE ENERGIA, PODERIAM SER EXCELENTES DESTINOS PARA OS FUNDOS DO MCA.
Mas Centro Financeiro Internacional e o estatuto de país exportador não nos podem fazer esquecer do objectivo maior de qualquer país: a prossecução da AUTOSUFICIÊNCIA ALIMENTAR.
Os impactos do MCA I na qualidade e na quantidade da produção agrícola nacional, com destaque para a disponibilização de frescos e legumes nas principais feiras nacionais (o arco-íris que é o Mercado Municipal da Praia, pintado com frescos de várias cores, provenientes das unidades familiares de produção, catapultadas pelas novas tecnologias de cultivo e irrigação, prova isso mesmo). O MCA II tem o dever e a obrigação de reforçar a aposta na melhoria das condições de produção agrícola do país, investindo recursos nas ilhas de Santo Antão, São Nicolau, Santiago e Fogo, sem dúvida os principais abastecedores do arquipélago. A minha sugestão iria no sentido do reforço da EXTENSÃO RURAL, sem dúvida o artífice das transformações que se vêm registando nos campos de Cabo Verde: uma aposta firme na formação de EXTENSIONISTAS RURAIS e nas suas condições de trabalho. Falava, outro dia, o Presidente da República da necessidade de se recorrer a novas sementes. Tem Sua Excelência toda a razão. Extensionistas Rurais devidamente preparados, equipados e motivados; novas tecnologias de cultivo e de rega; camponeses com mentalidade renovada; é muita coisa. São grandes conquistas. Mas é preciso ir, de facto, mais fundo: aposte-se, TAMBÉM, na selecção de sementes garantidas, certificadas e ADEQUADAS ao nosso clima e à irregularidade das nossas precipitações. Alguém discorda que os recursos do MCA II poderiam, TAMBÉM, servir para este fim? A pobreza, o atraso, a subnutrição e a vontade de trabalhar, em Cabo Verde, habitam o meio rural. Então, de uma única vassourada, empurremos para o escanteio, a pobreza, o atraso e a malnutrição; ao mesmo tempo que abrimos o caminho para a realização do sonho de gente que nunca teve medo de trabalhar, antes pelo contrário. Quem nunca viu a fé do trabalhador das montanhas de Santo Antão e das ladeiras de Santiago, traduzida na mobilização de solo arável (Sto. Antão) e de água (Santiago) caneca a caneca? Merecem ou não serem beneficiados com os fundos do MCA? Eu apostaria, TAMBÉM, neles.
E aqui fica o desafio aos meus compatriotas: não fiquem à espera do que decidir a equipa chefiada pela Ministra das Finanças. Os fundos do MCA não são doados a Governos, mas sim a POVOS. Não é assim Senhora Dona Marianne M. Myles?

Monday, February 1, 2010

OS INFALÍVEIS

“A parte mais importante de um negócio é o sistema que está por trás do produto ou da ideia. Muita gente pode preparar um hambúrguer melhor do que o McDonald’s, mas poucos podem criar um sistema de negócios melhor do que esse.”
ROBERT T. KIYOSAKI
A tese da infalibilidade foi sempre brandida com a finalidade de manter as pessoas em sentido, escutando e dizendo Amén, matando, no ovo, toda e qualquer forma de protesto. Felizmente, a história está recheada de homens que ousaram protestar, reduzindo a pó tais pretensões. Lutero ousou, protestou e fez baquear a infalibilidade papal; e mesmo a infalibilidade de Deus tem sofrido sérios revezes, diante “distracções” imperdoáveis como o Holocausto, os genocídios da África Central e dos Balcãs e, mais recentemente, os sismos no Haiti. Já nem a tese de que Ele escreve direito por linhas tortas está convencendo como dantes.
Mas, apesar dos revezes da tese, estamos agora a braços com a mania de infalibilidade dos políticos. Fazem asneiras de bradar aos céus e se acontecer um cidadão contestar as suas decisões, fazem cair o Carmo e a Trindade. A meu ver, mais ameaçador do que a infalibilidade papal, é o facto de os Governos da República e da Capital, se julgarem, também eles, infalíveis. Configuraria o princípio do fim da alternância política e a morte da democracia, caso os governos fossem reconhecidos como infalíveis. E o risco agiganta-se em época de revisão constitucional e com uma oposição tão distraída.
Estão fazendo furor aqui na Cidade da Praia os casos “INPS” e “Estádio do Côco. Neste último, os infalíveis da Câmara Municipal da Praia não conseguindo engolir a posição assumida por um grupo de cidadãos - representando cinco equipas federadas, vários bairros da Capital e mais de 40% de praticantes do futebol na Praia - que se opõem à decisão do Governo da Cidade de «fechar» o Estádio do Côco, vão de conotar o grupo com a oposição do PAI. Nem o facto de os líderes do movimento serem, na sua maioria, activistas do MpD, parou a intolerância da edilidade: os infalíveis não concebem que as pessoas sejam capazes de pensar com as próprias cabeças e de agir em consequência.
Pior do que se considerar infalível (cada doido tem a sua mania) é encomendar artigos de opinião de outros pretensos infalíveis, com o escopo de fazer calar os protestantes, quando sentem que a balança está a pender para o lado dos cidadãos, esquecendo, ou fingindo não se lembrar, que a crise que segue trespassando o mundo foi provocada pela pretensão e soberba dos FINANCEIROS e potenciada pela miopia e imprevidência dos GOVERNOS – exactamente a dupla infalível do caso INPS.
Mas vamos aos factos. Aconteceu o Governo instruir o patrão do INPS a transferir 525 mil contos para a conta da ELECTRA (uma empresa a braços com dificuldades de tesouraria e com um passivo circulante que inibe os bancos e os fornecedores de lhe darem crédito), a fim de obviar a que o país parasse. Até aí, tudo bem. Outros já haviam feito o mesmo (ir à burra do INPS buscar dinheiro) e com motivações menos nobres.
Passado um tempo, o boss troca o INPS pelos TACV (outra empresa sempre à míngua de crédito e de numerário), e, ao que parece, quis também ser socorrido com os fundos da sua antiga organização, o INPS; ou porque o Governo, mais cauteloso, não quis repetir a dose, ou porque a nova administração do INPS tenha torcido o nariz à ideia, o certo é que a transferência secreta de fundos para a ELECTRA acabou chegando ao domínio público. E é aí que a porca torce o rabo e se dá a patada que se pretende agora branquear: o INPS passou de credor para accionista da ELECTRA, por obra e graça dos infalíveis de serviço. E o pecadilho dos protestantes foi terem achado que, entre ser accionista ou credora da ELECTRA, era preferível a última hipótese. E há de se entender bem porquê: o credor tem sempre hipóteses de receber o seu, ainda que recorrendo à penhora dos bens do devedor; enquanto o accionista não só pode nunca mais voltar a ver a cor do seu rico dinheirinho, como ainda, em caso de échec, ser obrigado a comparticipar no pagamento das dívidas da empresa.
E, perante a opção feita, choveram reacções, na sua maioria na contra-mão desta. E se bem me lembro, a grande maioria deixou claro que a energia e a água são um excelente negócio, mormente quando em regime de monopólio. A questão que se pôs (e ainda se põe) nunca teve a ver com o negócio em si, mas com a empresa detentora do negócio. É que para a decisão de investir numa empresa não conta apenas o negócio a que esta se dedica, mas a empresa em si, como um todo, seu histórico e sua performance* : os activos, o passivo, a rácio activo/passivo e o passivo circulante ou dívida de curto prazo; as receitas, as despesas, a rácio receitas/despesas; a qualidade da gestão; as questões laborais em que se encontra envolvida, as ineficiências em que se encontra enredada, enfim, sua rentabilidade, seu potencial e sua capacidade de sobrevivência.
O potencial da empresa em que se pretende investir é importante, sim senhora; mas, mais do que o potencial, a demonstração financeira tem de nos mostrar que a empresa tem condições de sobrevivência. Um botão de rosa tem tudo (potencial) para se transformar numa linda rosa; contudo, passar do potencial (botão de rosa) à efectividade (a linda rosa) depende muito do jardineiro (o gestor do processo), o qual tem o dever e a obrigação de proteger o botão de rosa das intempéries, irrigar a roseira, mantê-la livre das pragas e das ervas daninhas, garantir-lhe, afinal, condições de sobrevivência. Nem o botão de rosa mais promissor, nem a empresa detentora do melhor negócio do mundo (e a água e a energia estão nesse universo) chegam a lugar nenhum sem uma boa gestão. E a questão que teima é esta: PODE O INPS, COM O NÍVEL DE INVESTIMENTO QUE FEZ, INFLUENCIAR A GESTÃO DA ELECTRA? Parece que não. E assim sendo, a decisão do Governo, de fazer com que o INPS deixasse de ser mais uma credora da empresa, para se transformar em accionista minoritária, constitui um mau passo. Diga-se o que se disser.
Pretenda-se ser fornecedor, credor, parceiro ou accionista de uma empresa, mister se torna analisar a performance financeira da mesma . Cada um dos papéis pondo a tónica no item que mais lhe interessa** (a rentabilidade, o potencial, as hipóteses de sobrevivência, etc.) a verdade é que as decisões passam, inexoravelmente, pela análise da demonstração financeira. A ENACOL, quiçá a fornecedora principal da ELECTRA, analisou, não gostou do que viu e decidiu suspender os fornecimentos; a BANCA, o credor, por excelência, analisou, não gostou do que viu e decidiu pela cessação dos créditos; antes, uns ACCIONISTAS haviam analisado, não gostado do que viram e decidido tirar seu time de campo; mais recentemente, os INVESTIDORES nacionais torceram o nariz às obrigações emitidas pela empresa, só se decidindo a adquiri-las quando obtiveram a garantia de que o Tesouro público cobriria qualquer eventualidade. A questão que resta é esta: QUE CARGAS DE ÁGUA TERIA VISTO O INPS NA ELECTRA, QUE NEM OS FORNECEDORES, NEM A BANCA, NEM OS ANTIGOS ACCIONISTAS, NEM OS INVESTIDORES NACIONAIS VIRAM? Bom… sabe-se hoje que a decisão não foi do C.A., mas do Governo; que não terá sido decisão de gestor, mas de político; que não foi uma decisão baseada em critérios de eficácia e rentabilidade do capital, mas baseada unicamente em critérios políticos, e assumida por políticos, e em vésperas de eleições. E todo mundo sabe o que valem as decisões dos políticos tomadas em tal clima. No entanto, ainda assim, os artistas do negócio insistem que se deva considerar apenas o objecto da empresa.
Curioso é que a encomendinha do Governo traz à liça exemplos prosaicos acerca de decisões de investimento muito elucidativos do que não se deve fazer. Por exemplo, aquela de comprar boi novo e magro surte efeito contrário ao pretendido pelo mago de serviço. Que comprar um boi novo e magro para engorda é muitíssimo diferente de se fazer sócio de um péssimo criador de gado. Que uma coisa é alguém ir à feira de Assomada e comprar um novilho para engorda ou reprodução; e coisa muito diferente seria essa pessoa fazer-se sócio de um mau criador de gato, tipo um amigo meu, de Ribeirão Galinha, que tem imensas dificuldades em manter vivo qualquer rês que se lhe confie: no primeiro caso, o fulano seria DONO e assumiria a “gestão” do novilho que pretende transformar em boi gordo; no segundo caso, seria apenas CO-PROPRIETÁRIO (accionista) do novilho cuja engorda ficaria confiada a um, digamos, azarado criador de gado. Nas mãos do meu amigo Jeová é quase uma certeza que o novilho jamais chegará a boi. Ser accionista minoritário da ELECTRA (portanto, sem qualquer influência na gestão e tendo que se submeter à gestão instalada) é como investir no novilho e deixá-lo à guarda de um criador falhado. O melhor mesmo é comprar um novilho só seu, e dedicar-se, pessoalmente, à sua engorda. Ou confiá-lo a um assalariado que saiba do ofício, que queira exercê-lo e que… não seja tão azarado como o meu amigo de São Jorge.
E quanto aos riscos que se diz que todo mundo corre, a marosca está no que fica por dizer: tanto quem contratou, como quem fez o frete, sabe que os tais riscos de que fala o ditado (QUEM NÃO ARRISCA NÃO PETISCA) não são aleatórios: são RISCOS CALCULADOS e que têm na sua base a recolha e o processamento de informações e a análise e gestão de risco. Há, por exemplo, uma enorme diferença entre entrar para uma sociedade em “andamento” e a montagem de uma empresa, para depois abrir o capital aos investidores. Transformar uma ideia num negócio, começar um negócio (de água e energia, por exemplo) é uma coisa; coisa diferente é pegar a carreta já em andamento, com os pneus já rotos, o motorista desgastado e relaxado, os ajudantes desmotivados; sem reservas, nem crédito, junto da banca; e sem a confiança dos fornecedores de peças de substituição e combustível.
Deus deve estar desiludido tanto com quem encomendou como com quem fez o frete. É que não há justificação para o facto de as coisas terem sido feitas da forma como foram: o INPS, pelo volume de liquidez que detém, pelas responsabilidades que lhe estão confiadas, pela importância que tem na vida, presente e futura, do trabalhador cabo-verdiano, deve aplicar, sim senhora, o excesso de liquidez. Mas, quando toma decisões de investimento, deve fazê-lo, SEMPRE, com as vestes de INVESTIDOR SOFISTICADO.
O que é um Investidor sofisticado?! Segundo Robert. T. Kiyosaki,*** um investidor sofisticado é aquele que entende os dez controlos do investidor. Ele entende e tira partido das vantagens do lado direito do quadrante (que representa a posição relativa do Empregado e do Autónomo, do Investidor e do Empresário, no mundo dos negócios). E aqui deixo registado, com a devida vénia, os tais DEZ CONTROLOS DO INVESTIDOR:

1. Controlo sobre si mesmo;
2. Controlo sobre os quocientes receita/despesa e activo/passivo;
3. Controlo sobre a gestão do investimento;
4. Controlo dos Impostos;
5. Controlo sobre o momento de comprar e o momento de vender;
6. Controlo sobre a corretagem;
7. Controlo sobre o EOC (Estatuto jurídico, Oportunidade e Características);
8. Controlo sobre os termos e condições dos contratos;
9. Controlo sobre o acesso à informação;
10. Controlo sobre o devolver, filantropia, redistribuição da riqueza.

Kiyosaki faz ainda questão de sublinhar a importância de um investidor sofisticado poder optar por não ser um investidor completo, à condição de entender, exactamente, os benefícios de cada um dos dez controlos e de ter sempre presente que quanto mais desses controlos possuir, menos riscos terá em seus investimentos. E a questão que queima é esta: O INPS, NO CASO EM APREÇO, AGIU COMO UM INVESTIDOR SOFISTICADO? A resposta é um redondo NÃO.
Errar é humano; persistir no erro é arrogância pura; e reconhecer o erro, e dar a mão à palmatória, é divino. Um mau passo pode acontecer a qualquer um. E reconhecer o mau passo e voltar à primeira forma não tira pedaço. Antes, pelo contrário: gera uma aura de credibilidade que demagogia nenhuma consegue (nem a pretensão besta de infalibilidade, nem a doce embriaguez dos sentidos que provoca). THINK ABOUT.
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* DAMODARAM, Aswath, «DAMODORAN ON VALUATION: Security Analysis for Investment and Corporate Finance» da WILEY & SONS, Inc.
** MATARAZZO, Dante C., «Análise Financeira de Balanços», Atlas Editora, Lda.
*** KIYOSAKI, Robert T., in «Rich Dad's Guide to Investing», da Elsevier Editor, Ltd.

Thursday, January 14, 2010

RESPEITADO OU TEMIDO?

“Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo.”
LEON TOLSTÓI
O que é que satisfaz as pessoas, nos dias que correm? Serem respeitadas ou serem temidas? Acredito que as pessoas até pensam que continuam correndo pelo respeito dos seus semelhantes. Mas, em boa verdade, tudo fazem para parecerem temíveis e, em consequência, serem temidos.
Em tempos que já lá vão, as pessoas orgulhavam-se de serem respeitadas. E a verdade é que era bem mais fácil as pessoas fazerem-se respeitar. Bastava que se dessem ao respeito e respeitassem o semelhante (contemporâneos, mais novos e, principalmente, os mais velhos). Ressalta, de tal visão, o princípio da reciprocidade: OBTINHA-SE O RESPEITO, RESPEITANDO-SE E RESPEITANDO OS OUTROS.
Hoje, as pessoas querem ser respeitadas, sem se darem ao respeito e sem respeitar o próximo. Fala-se que é preciso impor respeito e escuta-se amiúde o dito “RESPEITO É BOM E EU GOSTO”. O problema é que o verbo “impor” não rima com “respeito” e o tal de “RESPEITO É BOM E EU GOSTO” é verbalizado sempre de cara fechada, de forma ríspida e com modos de quem pode impor sanções caso não seja tratado como acha que merece. E acaba-se confundindo temor com respeito e “ser temido” com “ser respeitado”, com todas as consequências que daí podem advir.
Quando se é respeitado, é-se sempre tratado com respeito, estando presente ou ausente; quando se é, simplesmente, temido, recebe-se manifestação de respeito quando se está presente, mas é-se vergastado na ausência. Quer isso dizer que aquele que é temido, para receber manifestações, aparentes, de respeito, deve estar sempre presente – ele ou o instrumento de domínio sobre os outros.
Significa que, nos dias que correm, as pessoas se satisfazem em saberem-se temidas. Sabem que não são respeitadas como, por exemplo, seus progenitores, mas satisfazem-se com a ilusão de serem respeitadas. E têm a consciência do preço alto que são obrigadas a pagar. Há necessidade de renovação permanente da “legitimidade”: o que provoca o temor do vizinho (ou a sua representação mental) e o obriga a prestar vassalagem a um safardana qualquer tem de estar sempre presente. E isso tanto pode ser o poder sobre a manutenção do emprego, como a posse de bíceps poderosos, de arma de fogo, ou de qualquer outro factor que confere poder não sujeito a controlo. O problema é que impor respeito é super complicado.
Por vezes, não basta o potencial de despedir um fulano do seu posto de trabalho: para desencorajar a veleidade dos demais, pode-se sentir a necessidade de despedir um pai de família só para manter os demais em respeito. Pode não ser bastante saber-se que se tem bíceps poderosos: para manter o respeito dos demais, sente-se a necessidade de distribuir uns cascudos por uns tantos. Pode não ser suficiente ter um automóvel potente, último grito: será preciso fazer umas ultrapassagens, onde haja espectadores, para se manter respeitado. Enfim, quando se é simplesmente temido e se tem a presunção de ser respeitado, não basta a ameaça, o potencial, a capacidade latente: são precisas, vez por outra, manifestações de poder que façam com que as pessoas se submetam, finjam respeito. E, um pouco como acontece com a droga, cada vez se tem de usar uma dose maior, para se obter o mesmo efeito. E é por esse caminho, por essa espiral, que se chega à volúpia da violência, à «overdose», ao irreversível.
No fundo, no fundo, os problemas que a nossa sociedade vem enfrentando têm a ver com o PODER e com a forma de sua legitimação. Quando, em vez de se conquistar o respeito do semelhante (se dando ao respeito e respeitando o próximo), se decide impor o respeito, PORQUE É BOM E SE GOSTA, sem contudo respeitar ninguém (nem os mais velhos, nem os colegas, mormente os mais novos e os mais fracos), o jeito é ter o PODER de impor. É por isso que se luta pelo PODER de forma tão desbragada; é por isso que se apega ao PODER de forma tão descarada; é ainda por isso que se aposta no SER e no TER, como formas de PODER, com tanta avidez: porque o PODER permite IMPOR respeito, sem se ter o «desprazer» de se ter de respeitar espécimes tidos como menores.
Um militante bem posicionado no partido do poder ou em um partido com vocação de poder; um bom quadro; um bom gestor; um empresário de sucesso; ou os familiares destes; um estudante aplicado; querendo, podem optar entre SER RESPEITADO e SER TEMIDO. Dependerá de muita coisa (entre as quais o berço e o sinal da influência que a necessidade de reconhecimento exerce sobre o sujeito) a opção por se dar ao respeito e respeitar os outros ou por, simplesmente, impor respeito aos demais, fazer-se temível. Abre-se-lhes a possibilidade de escolha.
As coisas pioram quando não se tem muito por onde escolher; quando não se têm os pergaminhos necessários para aceder ao PODER, digamos, tradicional, e impor respeito aos demais. Um miúdo que é alijado do sistema de ensino e não tem mais para onde se virar; ou que termina o liceu, não tem meios para seguir uma formação superior, nem consegue um emprego; um jovem desempregado, permanentemente bombardeado pela exposição, nas vitrines das boutiques e feiras, de roupas e calçado da moda e perfumes franceses; um jovem que não consegue atrair a atenção de meninas de sua idade porque é preciso dar um «soco na rosto» e ele não tem como; a miúda que não consegue a atenção da pessoa que ama, porque não usa perfumes caros, nem pode ir ao cabeleireiro, à manicure ou à pedicure; o jovem que perde a «pequena», à saída da «boate», para um «tio» barrigudo, mas que tem uma viatura vistosa; um miúdo bem comportado, mas que é, sistematicamente, passado para trás por um traficante que dá «socos na rosto» incríveis; jovens que não conseguem uma audiência com uma autoridade e que vêm estes recebendo traficantes nos seus gabinetes, ou se confraternizando com eles; que caminho lhes resta?
Não são respeitados porque esta nossa sociedade cínica prega uma coisa e faz outra: condena a violência, mas abre os seus salões aos maiores promotores da violência no mundo, que são os traficantes de droga, armas e outras merdas; diz-se cheia de valores, mas não questiona as filhas que chegam à casa tarde e a más horas, a bordo de um bólide pertencente a um desconhecido muito mais velho; fecham os olhos ao material escolar espectacular que não pagaram, ao telemóvel último grito, às roupas de griffe, ao perfume francês, aos sapatos italianos, ao banho de beleza (cabelo, depilação, manicure, pedicure) e às disponibilidades em numerário que a filha ostenta; diz que acredita em amor e uma cabana, mas bloqueia o pretendente honesto, mas pobre, e abre alas para o «tio» barrigudo e para traficantes, ricos. E não podem impor respeito com recurso ao dito PODER tradicional, porque lhes faltam pergaminhos e padrinhos para lá chegarem. Qual a saída para algum respeito, ainda que de mentirinha?
É isso aí. A união faz a força. Mesmo se tratando de marginalizados. Os marginalizados estão se organizando para se fazerem respeitar. Perceberam bem a lição: nesta nossa sociedade, ou se tem algum PODER e se obtém algum «respeito» dos outros, ou se morre pária (capacho para os demais exercitarem orgias do poder que detêm). E vão de se organizar em GANGS.
Os «gangs» vêm a ser, pois, a via de acesso ao poder daqueles que querendo, como os demais, impor respeito, não têm o direito do lado deles. E não há que ficar espantado diante dos integrantes dos «gangs»: não são integrados apenas pelos ditos deserdados da sorte, mas por todos aqueles que querem ser alguém em si. Fazer parte de um «gang» oferece ao integrante, antes de mais, uma relação de pertença, uma âncora, uma referência, que o faz sentir-se «alguém»; depois, sabe-se protegido contra abusos, uma vez que, pertencendo a uma estrutura de poder, quem se atrever a mexer com ele, mexe com toda a estrutura, a qual tem, via de regra, uma boa capacidade de resposta; e ganha o direito a puxar, vez por outra, da «carteirinha»: sabe com quem está se metendo? Sabe quem eu sou?
Perder de vista os circunstancialismos que ditaram o surgimento de pessoas que, organizadas ou não, se predispuseram a exigir que sejam tratadas com respeito, sem se darem ao respeito ou respeitarem aqueles a quem exigem respeito, só fará com que o fenómeno se perpetue. Esta sociedade, se quiser, de facto, combater a violência que a incomoda, precisa realizar uma catarse e, quiçá, uma revisitação ao passado.
O gosto desbragado pelo poder e o uso despudorado desse mesmo poder para satisfação de paixões, aliado a uma dose incrível de intolerância e à postura de complementaridade desta sociedade, constituem o húmus onde fermenta, medra e floresce a violência que nos assusta. E ou se consegue moralizar a vida em sociedade ou continuaremos chafurdando nesta lama podre, onde ninguém se dá ao respeito, ninguém respeita ninguém, mas todos exigem ser respeitados.
RESPEITO É BOM E TODO MUNDO GOSTA? Então, mister se torna que comecemos por nos darmos ao respeito, passarmos a respeitar os outros e, sobretudo, recuperemos os valores cristãos que tão bons resultados deram até um certo tempo. Só assim poderemos almejar uma sociedade onde direitos e deveres andem de mãos dadas, onde as recompensas sejam em função do mérito e a inclusão social não seja uma expressão vã.

Saturday, January 9, 2010

PLENO EMPREGO E PAZ SOCIAL

“A palavra apoteose significa literalmente transformação divina: o homem se transforma em Deus. Vem do grego antigo apo, que aqui significa tornar-se, e theos, que significa Deus.”
Dan Brown*
Depois de muito se ouvir falar em taxas de desemprego (a um e a dois dígitos), apraz-me hoje aflorar a possibilidade latente de se poder vir a falar não de desemprego, mas de emprego e... a três dígitos.
Onde existe, em que paraíso existirá, o pleno emprego ou o emprego a três dígitos?! – perguntarão, com razão. Não existirá, mas é possível, mormente em uma economia onde o número de desempregados se fica pelos cinco dígitos e o próprio mercado de trabalho se resume a não mais de seis dígitos, sendo que o primeiro deles é, certamente, um algarismo menor do que 4. Em uma economia como a nossa, bastaria haver ocupação para um segundo turno de trabalhadores, para se garantir o pleno emprego.
A questão que me podem pôr é esta: se é assim tão fácil, porque será que ainda não se trilhou tal caminho? Por que economias consolidadas não conseguiram ainda o pleno emprego? Primeiro, porque tal saída não é realizável em relação a economias grandes, com milhões de trabalhadores e onde qualquer taxa de desemprego diz respeito a milhões de indivíduos; depois, porque estas economias já têm dois, três e até quatro turnos de trabalho e um mercado esticado até não poder mais. No caso de Cabo Verde, bastaria investir forte em algumas infra-estruturas; apostar, de forma criteriosa, na formação profissional; e negociar parcerias poderosas que lhe pudessem abrir mercados. Preciso me explicar?
Pessoalmente, acredito que a nossa saída passa pela atracção de investimentos (externos e internos) para a indústria ligeira e para um turismo de qualidade (isso sem pretender abjurar os investimentos no turismo de massas e na imobiliária turística). Nesse pressuposto, apostaria o JOCKER na adequação dos custos da água e da energia; na preparação e implementação de um cuidado plano de formação profissional, capaz de dotar o país de uma bolsa de verdadeiros operários qualificados; em um programa de incentivos especiais ao investimento (externo e interno) na indústria ligeira e no turismo de qualidade; e em parcerias poderosa (pagando o que tiver de ser) para garantir aos nossos produtos acesso preferencial aos mercados de destino.
Daí que a eventual utilização dos fundos do MCA II para investimento na dessalinização das águas do mar das ilhas pareça uma óptima opção. Estou pensando grande: dessalinizadores cercando as ilhas por todos os lados, embaratecendo o custo da operação, e baixando, em consequência, o preço da água para indústria, para a agricultura e para outros consumos humanos. Seria um investimento que permitiria a administração de preços diferenciados para os diversos usos desse bem essencial. E a adopção de um preço especial para as unidades industriais e para as de produção agrícola empresarial pode conduzir à viabilização de investimentos nessas áreas.
Optaria, igualmente, no aproveitamento inteligente de factores que temos em abundância, para garantir a produção de energia limpa e a custos razoáveis. Penso no SOL e no VENTO e na utilização de ambos para a produção de energias renováveis. Seria uma forma de contribuir para a redução das emissões de CO2; de reduzir a nossa dependência dos caprichos dos cartéis do petróleo; de disponibilizar energia a preços bem mais atractivos; de poder fornecer energia eléctrica de forma ininterrupta; e, finalmente, de completar a electrificação do país. Pode parecer fixação, mas seria um bom investimento para os fundos do MCA II e do III (que nos seria, certamente, disponibilizado, logo que a senhora Embaixadora relatasse a H.E. a senhora Secretária de Estado, que em Cabo Verde se está operando o milagre do PLENO EMPREGO).
Virar-me-ia para o Brasil e para os USA em matéria de cooperação para a formação dos operários de que a gente vai precisar para operar o milagre. Estou pensando nas unidades de formação profissional de alto nível dos USA e na SANAE, SEBRAE e outras estruturas de formação operária especializada das Terras de Vera-Cruz. Se estes dois países nos quiserem mesmo ajudar, se quiserem, a prazo, “cortar-nos” das suas listas de ajuda, que nos apoiem, a sério, nesta decisiva batalha pela formação do nosso operariado.
O mais difícil talvez seja conseguir que os nossos parceiros nos ajudem a trazer para Cabo Verde os investidores de que se precisa; incutir nos nossos operários a ideia de qualidade total; e o acesso a mercados consumidores interessantes, i.e., com o necessário poder de aquisição.
Começando pelo fim, diria que o programa AGOA (African Growth and Opportunity Act), ligando os USA à África; o APE (Acordo de Parceria Económica), ligando a UE aos ACP (África, Caraíbas e Pacífico); e o próprio Acordo de Parceria Especial, ligando a União Europeia a Cabo Verde; poderiam ter componentes de ajuda à qualidade total dos bens a exportar, como forma de facilitar, VERDADEIRAMENTE, o acesso aos mercados que contam. É que não basta garantir o acesso preferencial aos seus mercados (que, na prática, se resume à exoneração fiscal das importações feitas a partir de Cabo Verde, o que não significa que não seja um enorme FAVOR): é preciso que os nossos produtos, para além da facilidade fiscal, tenham um selo de qualidade que, em termos comerciais, interessem ao consumidor mais exigente. É disso que precisamos e é isso que devemos pedir aos nossos parceiros – know how. E se nos quiserem ajudar, de facto (e eu acredito, piamente, que sim), é por aí que temos que começar.
E resolvidas que estejam as questões ligadas às infra-estruturas, à qualidade e à formação profissional, e ao mercado, fica mais fácil atrair bons investidores para deslanchar a indústria ligeira no nosso país. Podendo parecer haver a pretensão de explorar os nossos parceiros, a verdade, porém, é que a melhor maneira de rentabilizar as ajudas que nos concedem, é garantir que as respectivas contribuições estejam fadadas para o sucesso. E não haverá melhor resultado do que o PLENO EMPREGO. A introdução deste parágrafo prende-se à necessidade sentida de, mais uma vez, sugerir o engajamento dos parceiros: será preciso negociar com eles o envolvimento de “seus” investidores sérios e detentores do necessário know how. Da nossa parte, necessário se torna oferecer, como contrapartida, uma legislação laboral moderna, uma bolsa de operários qualificados, infra-estruturas de qualidade, meios de produção a preços competitivos e... mercado para os produtos. Fundamentalmente, fornecer elementos aos parceiros capazes de os ajudar a influenciar os investidores. Traduzido por miúdos, será preciso deixar claro que um investimento na indústria ligeira, em Cabo Verde, é um bom negócio. E um bom negócio interessa a todo o mundo.
Com empresas laborando a todo o gás, e incentivadas pela boa recepção dos seus produtos nos mercados, natural se torna a implementação de mais um turno de trabalho. E em uma economia em que a taxa de desemprego se situa abaixo dos 20% (da população activa), em uma realidade em que a Função Pública absorve menos de 10% dos recursos humanos disponíveis, um segundo turno nas unidades industriais reduziria, drasticamente, a taxa de desemprego, não sendo de descartar a hipótese de se atingir o pleno emprego.
Seria a solução de todos os nossos problemas? O PLENO EMPREGO talvez não resolva TODOS os nossos problemas. Pode parecer que seja um fim em si, mas ele é apenas um meio, indispensável é certo, para a nossa realização como Nação. Em o conseguindo, teríamos posto de pé condições, nada negligenciáveis, para a realização de um conjunto grande de sonhos: a REDUÇÃO DO PODER DE SEDUÇÃO DOS GANGS (se não, mesmos, o número deles); a PAZ E A TRANQUILIDADE SOCIAIS; o lançamento, definitivo, de um AMBIENTE PROPÍCIO AO DESENVOLVIMENTO.
Costuma-se dizer que “DEUS FEZ O MUNDO E O HOLANDÊS FEZ A HOLANDA”. E diz-se que os naturais do Brasil são chamados BRASILEIROS (atente-se no sufixo ‘EIRO’, indicador de ofício -v.g. pedreiro, ferreiro, sapateiro, etc.) , porque, ao cabo e ao resto, TRABALHARAM o território que se transformaria no Brasil que hoje se conhece. Nós, se realizarmos o sonho do pleno emprego, estaremos fazendo jus à designação de CABOVERDEIROS – artífices do novo país que iremos deixar às gerações vindouras.
O PLENO EMPREGO seria uma verdadeira apoteose para todo um povo e não apenas para algumas figuras ampliadas pelas luzes da ribalta, como se tentou, no passado, com Cabral, Pires e Veiga; e se continua tentando, hoje, envolvendo o mesmo Veiga (à direita), e JMN (à esquerda).
Afinal, o pleno emprego, em Cabo Verde, é possível ou não? Pessoalmente, acredito que sim! Piamente.
*in “THE LOST SYMBOL”

Thursday, December 24, 2009

QUESITOS PARA A AVALIAÇÃO DA SITUAÇÃO DA ELECTRA

1. PASSIVOS
Qual o seu montante?

2. REDES DE DISTRIBUIÇÃO
Quanto custará o seu update ou substituição?

3. DÍVIDAS DE CURTO PRAZO
Qual o montante?

4. CRÉDITO
Ainda tem crédito junto da banca e das petrolíferas?

5. QUESTÕES LABORAIS
Qual a situação? O contencioso antigo está resolvido?

6. INEFICIÊNCIAS
Há algum plano para sua superação? Existe vontade?

7. GESTÃO
Como é avaliada? Haveria continuidade?

8. CREDIBILIDADE
Qual a credibilidade da empresa? E o rating*?

* O rating é uma opinião sobre a capacidade e a vontade de uma entidade vir a cumprir, de forma atempada e na íntegra, determinadas responsabilidades. (definição da CPR,SA.)

Wednesday, December 16, 2009

BOM NEGÓCIO, PÉSSIMO INVESTIMENTO

“O bom senso é o que há de mais bem distribuído no mundo, pois cada um pensa estar bem provido dele.” RENÉ DESCARTES

O que é um bom negócio nos tempos que correm?
Ter um bom negócio, em qualquer tempo, é ter monopólio exclusivo de produção, importação e distribuição de um bem essencial - ou de um bem de que todo mundo (ou muita gente) precisa ou não pode passar sem - com dispensa de cumprimento das obrigações fiscais.
Por exemplo, ter o monopólio da produção, importação e distribuição de tabaco manipulado em cigarros, mesmo havendo obrigações fiscais a cumprir é um excelente negócio. Outro exemplo elucidativo, seria a detenção de monopólio de importação, produção e distribuição de cigarros + bebidas alcoólicas, ainda que se tenha de pagar impostos sobre os lucros. O monopólio de produção, importação e distribuição de géneros de primeira necessidade (seja o que for que isso signifique) é outro grande exemplo de bom negócio. O monopólio da produção, condução e distribuição de água e energia eléctrica é outro negócio da China, se tivermos presente que ninguém pode passar sem estes bens essencialíssimos e que caso alguém se esqueça de pagar, há um remédio santo para a amnésia selectiva – corte do fornecimento.
No fundo, bom negócio significa ter um produto que todo mundo (ou muita gente) precisa; não ter concorrência de ninguém; poder ditar os preços; ter obrigações fiscais mínimas ou passíveis de ser repercutidas ao consumidor.
Nesta ordem de ideias seriam bons negócios:
1. A EMPA, nos tempos do monopólio de importação e distribuição de bens essenciais;
2. A SCT, enquanto durar a Convenção de estabelecimento que lhe outorga monopólio exclusivo na importação, produção e distribuição de cigarros;
3. A ELECTRA, enquanto perdurar o controlo absoluto sobre o mercado de água a granel e energia eléctrica;
4. A TRANSCOR, dos tempos do monopólio do mercado de transportes colectivos urbanos de passageiros;
5. Os voos domésticos dos TACV, com monopólio absoluto do mercado interno de transporte aéreo e liberdade para praticar preços de mercado;
6. A CVTELECOM, a SITA, blá, blá, blá, etc., etc. .

Haverá mais exemplos? Talvez. Mas creio que estes chegam. A questão é saber onde e como estão agora estes provedores de bens e serviços em condições que até o diabo gostaria de ter.
A EMPA foi liquidada em 2001/2002 – tendo perdido o monopólio, não conseguiu se encaixar no novo quadro concorrencial, perdeu o Norte e aconteceu a derrocada.
A SCT parece estar bem e recomendar-se. Esteve melhor sob a gestão de Jorge Benchimol, mas aguenta-se bem. A curiosidade é ver como se aguentará em regime concorrencial, quando expirar o prazo de validade da Convenção de Estabelecimento assinado com o Estado de Cabo Verde. Garantindo a qualidade dos produtos que fornece e mantendo uma boa gestão, sobreviverá.
A ELECTRA está de rastos, apesar do monopólio e apesar de comercializar bens que todo o mundo precisa e que ninguém pode passar sem. Explicação: para além daquelas que o cidadão comum não consegue imaginar, haverá as clássicas INEFICIÊNCIAS (perdas nas redes de água e de energia para lá do razoável); a MÁ GESTÃO do dossier dívidas dos consumidores; a PÉSSIMA GESTÃO das questões laborais; a inexistência de uma LIDERANÇA efectiva; a manifesta incompetência na gestão do dossier FURTO DE ENERGIA ELÉCTRICA; a EXPLORAÇÃO DA BOA FÉ dos clientes; a tremenda FALTA DE RESPEITO para com os clientes; a cínica AUSÊNCIA DE RESPONSABILIDADE SOCIAL; enfim, uma gestão que não dignifica ninguém.
A TRANSCOR desapareceu ainda antes de surgir a concorrência. Teve que ser encerrada. A qualidade da gestão deve ter deixado muito a desejar.
Os voos domésticos dos TACV não deram o que tinham a dar, mercê dos preços sociais utilizados na comercialização dos bilhetes. Sem uma rede confiável de transportes marítimos de passageiros inter-ilhas, sobrou para os TACV: teve que garantir as ligações com preços subsidiados. Caindo os subsídios e tendo uma gestão irresponsável em matéria de gestão de efectivos, a empresa quase sucumbiu (ou terá já sucumbido?) à superpopulação do seu quadro de pessoal e a decisões questionáveis.
A CVTELECOM parece que está melhor agora que labora em um ambiente concorrencial. Consequência de uma boa gestão, certamente. O mesmo se dirá da SITA.
Os ETCÉTERAS ou estarão bem, como a SITA e a CVTELECOM; ou estão pelas ruas da amargura, como a ELECTRA; ou fecharam já as portas como a TRANSCOR e a EMPA. A SCT ficará bem se continuara a apostar numa boa gestão.
Depois deste pequeno sobrevoo pelos negócios que tinham tudo para ser bons e se confirmaram mesmo bons, empresas que falharam, pura e simplesmente, e negócios que podem melhorar se a gestão for mais ousada, que conclusões tirar? Em meu entender, ficou claro que, para além das condições intrínsecas do negócio, é preciso haver uma BOA GESTÃO. Nem os monopólios resistem à MÁ GESTÃO.
E isso conduz-nos ao segundo termo do paradoxo BOM NEGÓCIO/MAU INVESTIMENTO. A CVTELECOM, a SITA, a SCT, o INPS, a SHELL, a ENAPOR e outros que tais são bons negócios e bons investimentos. Recomendam-se. A ELECTRA, os TACV e outros como esses são bons negócios, mas péssimos investimentos.
O que muda de um grupo para o outro? RESULTADOS. Resultados potenciados por boa gestão. Não hesitaria em investir as minhas poupanças na CVT, na SITA, na SCT ou na SHELL; não investiria um ceitil meu que fosse na ELECTRA ou nos TACV. Pelo menos enquanto as coisas forem geridas como se sabe.
Então, porque cargas de água haveria o INPS, de todos nós, de investir na ELECTRA? O INPS, habitualmente, até investe bem. Vejam-se os investimentos feitos na CVTELECOM e na CAIXA ECONÓMICA. Porque será que, agora, o pessoal resolve dar uma «calaca» tamanho XXXL? Desorientação? Necessidade do Governo socorrer a ELECTRA sem afectar o equilíbrio da contabilidade social? Brio de quem não sabe o que fazer com o dinheiro?
Aceito que alguém que tenha excesso de liquidez, e não saiba o que fazer com o dinheiro, tenha manifestações suicidas de brio. À condição de se tratar de dinheiros próprios. A questão é que os dinheiros do INPS não pertencem aos decisores, sejam eles o Conselho de Administração do Instituto, a Ministra das Finanças, a Ministra da Economia, o Ministro da Saúde, o Primeiro-ministro ou o próprio colectivo do Governo da República. Os dinheiros do INPS pertencem aos trabalhadores cabo-verdianos.
A cada mês, o trabalhador confia ao INPS 8% do seu ordenado bruto e o seu empregador 15%; portanto, a cada ano, o colectivo dos trabalhadores cabo-verdianos confia ao INPS 8% dos ordenados auferidos durante o referido período e os patrões entregam ao mesmo organismo 15% do total dos ordenados pagos no ano de referência.
Cada bom investimento do INPS - na CVT, na CECV, etc. – é o dinheiro dos trabalhadores cabo-verdianos abrindo chances de crescer e, quiçá, multiplicar-se; cada mau investimento do INPS – na ELECTRA, nos TACV, etc. – é uma grande possibilidade do trabalhador ver seu dinheiro se derretendo nas fornalhas dessas empresas, qual consumidôr di nhâ Bedja fiticêra.
De lembrar, ainda, que os salários e demais regalias, percebidos pelos administradores, e demais pessoal, do INPS, são suportados pelo dinheiro dos trabalhadores.
E chega! A decisão de aplicação do dinheiro de todos os trabalhadores de um país não pode ficar por conta de um Conselho de Administração, onde, inexplicavelmente, não pontificam nem os SINDICATOS, nem as CÂMARAS DO COMÉRCIO, INDÚSTRIA, AGRICULTURA E SERVIÇOS, enquanto representantes dos alimentadores dos cofres do Instituto.
Quem cala consente. Ficar calado, quando o investimento é bom e multiplicador, é uma coisa; coisa muito diferente, seria ficar calado diante da iminência de um mau passo: a entrada do INPS (de todos nós) como accionista da ELECTRA.
Diante dos sinais tenebrosos que soam por todo o lado; perante a ameaça de comprometimento da velhice de muito boa gente; ciente aos alertas que vêm de todos os quadrantes; necessário se torna que todos juntemos as nossas vozes à dos demais trabalhadores cabo-verdianos e apelar em uníssono:
- ALTO AÍ. É PRECISO OUVIR OS TRABALHADORES, OS DONOS DO NEGÓCIO, E DECIDIR EM CONFORMIDADE COM O QUE DECIDIREM.
Os Conselhos de Administração não devem, não podem, ter mais força de que os accionistas; toda e qualquer actuação do CA que exorbite do mandato natural ou que não encontre eco nos accionistas configura um golpe de força, que pode, e deve, ser punido com a rescisão dos contratos dos titulares.
É chegada a hora da verdadeira CONCERTAÇÃO SOCIAL: SINDICATOS E PATRONATO DE TODO O CABO VERDE, UNI-VOS. E briguem para que, de agora em diante, tenham representantes vossos nos órgãos sociais do INPS.