Tuesday, March 30, 2010

MARÇO, DESCENTRALIZAÇÃO E FUNJE NA CACHUPA

“Eu acredito demais na sorte. E tenho constatado que, quanto mais duro eu trabalho, mais sorte eu tenho.”
THOMAS JEFFERSON
Em Luanda, na Praia e em Sanvicente, no passado e no presente, na alma e no coração, no funje e na cachupa, temos a amizade na dose necessária para enfrentar os desafios deste milénio e do futuro que há-de vir depois disso. É assim que a intérprete e enterteiner ARI cantou a amizade Angola/Cabo Verde,em espectáculo na ilha de Luanda, no mês de Março que acaba de nos dizer goodbye, para gáudio dos cotas presentes.
E no último Domingo desse mesmo Março - que nos conduziu a Luanda – comemorámos, em S. Jorge, os 80 anos de dona Lídia (minha mãe durona), os 89 de Ludgero (meu pai, amantíssimo), os 52 (só?!) do Pina (amigo do peito). Na mesma data comemorou-se, na Assomada, o dobrar do cabo das Tormentas da Maria José e do José Maria. Longa vida a todos estes marcianos (de Março, não haja confusões!). E aos demais, também, é claro.

Mas nem só de comemorações viveu o mês findo. Apresentou-se o projecto da Lei-Quadro da Descentralização e fiquei sabendo da traição que a vida (ou terá sido a morte?) pregou a Veiga na segunda volta da eleição presidencial de 2001. Ele há cada estória rolando nas festinhas de amigos… Comecemos pelo fim:

1. Nas comemorações do 80º aniversário de Dª Lídia, em São Jorge, narrou-se, na maior «discontra», a estória de um amigo comum, falecido na véspera da Segunda Volta da eleição presidencial de 2001, a tal (e única) em que estiveram frente-a-frente Pedro Rodrigues Pires e Carlos Wahnon Veiga. Esse amigo, adepto ferrenho do MpD e fã de Carlos Veiga, apostava, dobrado contra singelo, em como Veiga ganharia a Pires, tranquilamente. E tinha um argumento de peso: «só em minha casa, são 12 (doze) votos garantidíssimos» - garantia. Quis o destino que o nosso amigo falecesse exactamente na véspera da ida às urnas, inviabilizando assim tanto o seu voto como o dos demais onze membros do clã que chefiava. E por ironia desse mesmo destino (malandro ele, né?) Veiga viria a perder por… 12 (doze) votos. Um dos convivas (um desses espirituosos que sacam piada ao acontecimento mais sério) saiu-se com esta: «e quem terá passado o atestado de óbito do homem?» Ninguém disse nada, mas ficaram no ar algumas questões: «conhecerá Veiga este episódio?»; «e se, por uma dessas partidas que o destino nos prega, tiver sido o Dr. Sidónio a atestar o óbito do Agosto?» Ao menos compreendia-se melhor os engulhos de Veiga quando o tema é Sidónio Fontes Monteiro.
2. Mudando de assunto. Não vi ainda o projecto da Lei-Quadro da Descentralização (a versão final do Governo), mas saúdo a opção pelas autarquias supra e infra municipais. Em outra oportunidade enumerara já as vantagens, para uma ilha como Santiago, de ter uma autarquia supra-municipal no que concerne ao planeamento do desenvolvimento, gestão de sinergias, implantação de infra-estruturas, etc. A asfaltagem da estrada de montanha Praia/Santa Catarina/Tarrafal jamais teria se iniciado em… São Domingos. No que a autarquias infra-municipais diz respeito, só direi que a opção chega com um grande atraso. Tivesse acontecido antes, não teríamos já todas as freguesias (circunscrições religiosas) - excepção feita a São Lourenço (Fogo) e a uma ou outra freguesia de Santo Antão - erigidas em municípios/concelhos (circunscrições administrativas). Não seria agora uma boa oportunidade para se repensar a divisão administrativa do país? Esta não seria a ocasião para a consagração das regiões (administrativas), coincidindo, cada uma delas; com o ente ILHA, e superiormente administradas pelos órgãos da autarquia supra-municipal? Aliás, a questão põe-se apenas em relação às ilhas com mais de um município. As demais, afinal a maioria - Sanvicente, Sal(?), Boavista, Maio e Ilha Brava – constituem-se, naturalmente, em regiões. E já agora, porque não rever a decisão da cisão da ilha de Santiago em dois círculos eleitorais? Ilha, Região Administrativa, Região Plano, Círculo Eleitoral, coincidindo no mesmo espaço físico, congregando as mesmas pessoas… seria, sem sombras para dúvidas, um grande passo. E, convenhamos, resolveria, por antecipação, alguns constrangimentos (Já estão a imaginar, por exemplo, o que vai acontecer nas eleições legislativas de 2011 no círculo eleitoral de Santiago-Sul? O mais certo é o primeiro responsável da região política ter de ceder o lugar de cabeça-de-lista ao Presidente do Partido (o qual pode até ser natural de outro círculo) ao contrário do que acontecerá nas demais regiões políticas. E alguém acredita que em alguma outra Região se aceitaria como cabeça de lista um candidato que fosse (natural ou residente) da região política Santiago-Sul? Digam ao Felisberto, ao Agostinho ou ao José Filomeno, que sugiram aparecer como cabeça-de-lista em Santiago Norte (ou outro círculo qualquer), alegando que são «obrigados» a ceder a primazia, na lista de Santiago-Sul, ao Presidente do Partido e candidato a Primeiro-ministro, para verem a resposta que receberiam. Se Santiago, à semelhança das demais ilhas, se constituísse em um único círculo eleitoral, obviar-se-ia tal constrangimento. Para além do facto de se poder evitar alguma fragmentação de vontades, nesta ilha que se esforça ainda por consolidar a sua unidade interna.

3. Março permitiu-nos, ainda e a par das sessões de trabalho, revisitar Luanda. Talvez seja mais próprio falar de Luandas (não confundir com Lundas): a Luanda antiga, transformada em urbe de torres e trânsito enervante; e a nova Luanda - a Luanda Sul - que se estrutura como cidade moderna, construída de raiz, e não acessível a todas as bolsas. Rever Luanda, ajuizar as possibilidades de uma forte intervenção em engenharia do tráfego, inventariar os nichos do magnífico mercado que é a capital da RPA, é um exercício estimulante. Tivesse menos 20 anos, e ousaria requerer ao Governo Provincial de Luanda a concessão da exploração dos estacionamentos da Capital angolana. Depois, seria montar a necessária engenharia financeira e participar da reorganização de uma das mais promissoras metrópoles da África Austral: construindo estacionamentos particulares, organizando os espaços públicos da cidade e contribuindo para uma maior ordem na utilização dos logradouros da urbe. Com a EPEL – Empresa Provincial de Estacionamentos de Luanda – em pouco tempo, estaria todo mundo ganhando: os promotores do negócio, os automobilistas, os peões, os poderes, os turistas, a cidade, que sei eu…

4. Fruto de uma relação com passado e presente; resultante de uma amizade de alma e coração; um futuro com bué de FUNJE e muita CACHUPA, para TODO MUNDO (de Sanvicente, da Praia, de Luanda), o abraço Angola/Cabo Verde é um trunfo que deve ser jogado no momento certo.
É isso mesmo, ARI. FUNJE NA CACHUPA, sim senhora. Para todos.

Tuesday, March 2, 2010

CULTURA

Continuo acreditando que
- se o GOVERNO (E SUAS AGÊNCIAS ESPECIALIZADAS), as AUTARQUIAS LOCAIS e os AGENTES CULTURAIS CIVIS, juntos, mergulharem nas nossas TRADIÇÕES, USOS E COSTUMES, VALORES E PRINCÍPIOS, CRENÇAS E DEMAIS PATRIMÓNIO CULTURAL, na definição do PROGRAMA DE GOVERNO;
- se, mais tarde, se juntarem, de novo, para a definição das POLÍTICAS PÚBLICAS;
- e se aceitarem a delimitação de áreas de intervenção na operacionalização das POLÍTICAS PÚBLICAS
- INTERVENÇÕES ESTRATÉGICAS a cargo do Governo da República, e conduzidas pelos INSTITUTOS e outras AGÊNCIAS PÚBLICAS;
- INTERVENÇÕES TÁCTICAS a cargo das AUTARQUIAS LOCAIS, em parceria e concertação com os AGENTES CULTURAIS CIVIS (cidadãos, associações, ONGs, etc.);
- INTERVENÇÕES OPERACIONAIS a cargo dos cidadãos, das associações, fundações, escolas, ONGs e empresas,
as coisas podem correr bem, ainda que não haja um Ministério que se dedique exclusivamente à Cultura.
Fundamental é que os AGENTES CULTURAIS CIVIS entrem já na fase de definição do PROGRAMA DE GOVERNO para a Legislatura; participem da formatação das POLÍTICAS PÚBLICAS; entrem no planeamento das INTERVENÇÕES CULTURAIS centrais; sejam tidos e achados nas intervenções de cariz nacional; e assumam o planeamento e a operacionalização das INTERVENÇÕES LOCAIS.
A bola está do lado dos SUJEITOS CULTURAIS nacionais, a quem compete, AGORA, fazer o pressing necessário. Afinal, são SUJEITOS da CULTURA e não OBJECTOS da CULTURA.

Monday, March 1, 2010

DESENCONTRO OFERTA/PROCURA

“O segredo do verdadeiro poder radica no seguinte: aprender, através da prática constante, a administrar os nossos recursos e a concentrá-los, num dado momento, sobre um determinado ponto.”
JAMES ALLEN
A oferta e a procura cruzam-se no espaço e no tempo, dando corpo ao que convencionámos chamar de mercado. Quer se fale de marcado de bens e serviços, quer se fale de mercado de trabalho, estaremos sempre falando de gente que tem algo que quer vender (bens, serviços ou força de trabalho) e gente que quer comprar (o consumidor, o empregador, etc.). Mas há um mercado onde, via de regra, a oferta e a procura têm uma relação em tudo parecida com a que existe entre duas rectas paralelas entre si – nunca se encontram. Estou pensando no «mercado» político. Sentindo necessidade de relativizar um pouco mais, coloco a questão a nível do «mercado» político cabo-verdiano (espaço), nos momentos de ajustes e/ou remodelações do Governo, em ano pré-eleitoral (tempo).
As remodelações em final de mandato (a menos de 12 meses das eleições gerais) são momentos em que há muita disponibilidade, (GRANDE OFERTA) de candidatos aos lugares a vagar e um amplo movimento de procura (GRANDE PROCURA), pelo Chefe do Governo, de gente para ocupar as cadeiras ocupadas pelos elos fracos da cadeia (remodeláveis). Havendo OFERTA e PROCURA, a questão que se impõe é: PORQUE É QUE DESSAS REMODELAÇÕES NÃO SAI GRANDE COISA? O fenómeno pode ter mais do que uma interpretação.
A primeira, ou a principal, é a de que a intersecção dos dois conjuntos (o da oferta e o da procura) resulta em um conjunto vazio. Quer isto dizer que os dois conjuntos não têm nenhum elemento em comum: o que o Primeiro-ministro PROCURA não existe no universo dos DISPONÍVEIS.
Mas significará isso que, no país, a bolsa dos ministeriáveis está tão rarefeita quanto sublinhara Tony Pascoal na década de 90? Pode ser… pode não ser. Pascoal considerou lógica a sua chamada para o Governo, diante do facto de os ministeriáveis serem tão poucos; Zona e Marilene registaram, em momentos diferentes, quão poucos são os quadros nacionais capazes de discorrerem, com coerência e algum nível, sobre questões da actualidade; José Maria Neves, na remodelação de 2008, dissera que aquela tinha sido a “remodelação possível”, numa clara alusão à indisponibilidade de soluções, ao menos no seu universo de recrutamento.
Hoje, passados 35 anos sobre a independência nacional, qual a verdade? O deficit de ministeriáveis regista-se a nível nacional ou apenas a nível do restrito universo de recrutamento dos chefes de Governo? Por outras palavras, a remodelação falhada de Pires, em 1990, o frágil Governo de Gualberto do Rosário, do ano 2000, e as duas últimas remodelações de José Maria Neves (2008 e 2010), traduzem a falta de alternativas no universo nacional de Recursos Humanos, a carência da necessária qualidade no restrito universo dos militantes dos respectivos partidos, ou simplesmente a indisponibilidade dos poucos ministeriáveis para abraçarem a aventura de ser Ministro por uns (poucos) meses? O que responderiam Pires, Do Rosário e Neves?
Em relação à última remodelação JMN diz que montou uma boa equipa, um elenco voltado para o futuro, mas que conta com leituras diferentes, uma vez que cada um lê e compreende em função do background pessoal; já Carlos Veiga achou que se tratou de mera operação de cosmética, que tudo ficou na mesma, e que as soluções esperadas ficaram adiadas, mais uma vez. As questões que essas declarações me suscitaram foram estas: JMN APRESENTOU O SEU «DREAM TEAM»? NÃO TERÁ LEVADO “NEGAS” DE GENTE COM QUEM ACHAVA QUE PODIA CONTAR? NÃO ESTIVÉSSEMOS A MESES DAS ELEIÇÕES GERAIS, NÃO EXPERIMENTARIA ALARGAR O SEU UNIVERSO DE RECRUTAMENTO?
Existe, em qualquer latitude, uma grande diferença entre montar um Governo (no início da Legislatura) e fazer uma remodelação a meses do termo da Legislatura. No primeiro caso, chovem os candidatos disponíveis para o Governo, para as Embaixadas e para os Institutos Públicos. A OFERTA é grande e o Primeiro-ministro vê-se grego para encaixar todos os militantes e amigos DISPONÍVEIS. Só muito dificilmente consegue abrir espaço para um ou outro «independente», ainda que inequivocamente detentor das desejadas qualificações. Já na remodelação em final de mandato, os ministeriáveis, os bons quadros, sejam eles militantes (ou amigos) do partido do Governo, sejam «independentes» não se disponibilizam para integrar o Governo e o Primeiro-ministro vê-se, de novo, grego para apresentar um elenco convincente. Precisando passar a imagem de um Governo forte o suficiente para dar resposta aos problemas prementes (no caso presente – 2010 – soluções para os operadores económicos e segurança para os cidadãos em geral) e necessitando impressionar o eleitorado para ganhar vantagem no ciclo eleitoral que se avizinha, o primeiro grande dilema do Chefe do Governo é: opto por militantes e amigos, ainda que medíocres, ou ganho coragem e aposto em alguns independentes, dos bons? O dilema seguinte tem a ver com a remodelação em si, diante do grande grupo de gente, sem a necessária qualificação, que se põe em bicos dos pés, se oferecendo para entrar no Governo, e do restrito ou deserto universo de gente com qualificações que respondem com um «SIM» ao convite do Chefe do Governo: FAÇO OU NÃO FAÇO A REMODELAÇÃO?
Tendo decidido pela remodelação, e não contando com grandes capacidades disponíveis, nem querendo injectar mediocridade ao governo proveniente da dita «remodelação possível» de 2008, resultam naturais não só a indecisão de JMN (FAÇO OU NÃO FAÇO?), como as parcas soluções encontradas. Afinal, nada muito difícil de decifrar.
A dificuldade de leitura que o Premier vaticinou deve ter a ver com o facto de alguém poder questionar porque não fez qualquer mexida no sector da Segurança e Ordem Pública ou porque não foi até ao fim na remodelação da Equipa Económica do Governo. De facto, fica difícil compreender porque o Chefe do Governo, em matéria de Segurança e Ordem, havendo alternativas, «deixou tudo como está, para ver como fica». Em relação à segunda questão, resulta também difícil entender porque não deu o golpe de misericórdia à Ministra Cristina Duarte: de, claramente, líder da equipa económica do Governo - pelo menos de 2008 a esta parte - a Ministra já foi obrigada a engolir o slogan do Chefe “SALÁRIO MÍNIMO ainda este ano”, sendo ela contra a medida, neste momento; a sofrer, calada, perante o novo cavalo de batalha do Chefe “13º SALÁRIO já na próxima Legislatura”, sendo ela “alérgica” ao princípio, neste momento); e agora ficou praticamente confinada ao “DEVE/HAVER”e limitada a assinar em baixo, nos compromissos da nova liderança da equipa económica do Governo, deslocada que foi esta para a Chefia política do Executivo. Tendo decidido ceder à pressão dos organismos representativos da classe empresarial, não lhe teria sido mais misericordioso remodelar a senhora? Impossível, portanto, não fazer a leitura, mais do que óbvia: o Premier não encontrou ninguém que quisesse assumir a batata quente em que se deixou transformar o Ministério da Administração Interna (nem militante, nem amigo, mormente independente), e terá levado uma desconcertante «nega», à última hora, para a pasta das finanças.
Seja qual for a verdade, numa coisa todos estaremos de acordo: é preciso, EM PROCESSO DE URGÊNCIA, trabalhar no sentido da MELHORIA DA QUALIDADE DA OFERTA, rompendo, ao mesmo tempo, com determinados complexos, a modos de se AMPLIAR O UNIVERSO onde os partidos políticos vão recrutar mulheres e homens para formar os Governos de que o país vai precisando, a cada momento, em seu percurso.

Tuesday, February 23, 2010

FOLCLORE E… ELEFANTES BRANCOS

“Conquiste o inglês para tornar a China mais forte.” LI YANG
“Aprender um idioma global é vital para qualquer nação, não apenas para a China.”
DAVID CRYSTAL

Um leitor fidelizado perguntava-me outro dia se não pensava intervir a propósito das eleições presidenciais do próximo ano. Se não considerava a questão importante, se não tinha ainda opinião formada sobre o assunto ou se estava satisfeito com as colocações feitas na comunicação social. Respondi-lhe que a questão não era prioritária, que há tantas e tão importantes questões que clamam pela atenção do cabo-verdiano, e que, por isso, a questão presidencial pode e deve esperar. Mas não deixei de acalmar o leitor, informando-o da existência de um grupo de reflexão que definiu já cenários de intervenção e participação democrática em relação às presidenciais de 2011 – daqui a, mais ou menos, 18 meses.
O grupo de reflexão, deitando mão dos princípios do PES – Planeamento Estratégico Situacional – de Carlos Matus, definiu os cenários seguintes:
- Cenário 01 : O MpD e o PAI, em processos democráticos, definem apoiar o melhor candidato de cada um dos campos (Jorge Carlos Fonseca e Aristides Raimundo Lima, por exemplo) e estes, e só estes, entram em campo. Aí, o pessoal fecha o dossier presidencial e vai votar no dia marcado, cada um escolhendo o candidato que lhe parecer melhor para o país;
- Cenário 02: Carlos Veiga impõe um candidato aos militantes do MpD, numa demonstração de força (por exemplo, Amílcar Spencer Lopes), e o PAI apoia um candidato escolhido em processo democrático próprio (por exemplo, Aristides Lima) e estes, e só estes, entram em campo. Aí, o pessoal, em defesa da democracia que deve reger os processos políticos de escolha, escolhe votar, e promover a votação, em Aristides Lima;
- Cenário 03: O MpD escolhe, em processo democrático próprio, apoiar um candidato (por exemplo, Jorge Fonseca) e José Maria Neves decide impor aos militantes do PAI o «seu» candidato (por exemplo, Manuel Inocêncio de Sousa) e estes, e só estes, entram em campo. Aí, o grupo, sempre em defesa da democracia nos processos de escolha, ainda que internos, escolhe votar, e promover a votação, em Jorge Carlos Fonseca;
- Cenário 04: Veiga e Neves impõem candidatos aos militantes dos respectivos partidos, em demonstração de força (não se acham, ambos, mais populares que os partidos que lideram?), por exemplo Spencer Lopes e Inocêncio Sousa. Aí o grupo sai à rua, buscando um candidato da cidadania (o Rev. Adérito Ferreira, jornalista Filomena Silva, o escritor Germano Almeida, o historiador António Leão Correia e Silva, a professora Ondina Rodrigues, o empresário Jacinto Santos, o cientista político Onésimo Silveira ou outro cidadão elegível), construindo, à volta deste, os consensos necessários, montando uma boa plataforma, definindo um bom discurso, fazendo a necessária engenharia financeira, desafiando os «bodonas» nacionais, tudo fazendo para que nas eleições presidenciais de 2011 haja um candidato escolhido segundo cânones democráticos, e de lá saia um Chefe de Estado amplamente consensual.
O discurso seria muito simples. Antes de mais sublinhar-se-ia a necessidade de desmontagem da fraude dos líderes mais populares do que os partidos que lhe dão o «empowerment»; depois, sublinhava-se a necessidade dos militantes do PAI e do MpD se realizarem na escolha, PESSOAL, de um candidato (não se submetendo à imposição dos respectivos líderes); finalmente, sublinhava-se a necessidade de cidadão nenhum ficar em casa no dia das eleições (chova ou faça sol), fazendo uma clara demonstração de força (aí, SIM) da cidadania. O bom e o bonito será ver os «bodonas» e seus afilhados retirarem-se da cena, com o rabinho entre as pernas. Não há, portanto, razão para estar afoito a 18 meses das eleições. E se pensarmos que se as Legislativas forem em Março, as Presidenciais em Setembro, a posse do Chefe de Estado em Outubro, nem valeria a pena nos desgastarmos. Afinal, o Mundo não acaba em 2012? Tanto leva e traz para eleger um Presidente que talvez venha a ter um mandato de um par de meses…
O meu leitor sorriu, balançou a cabeça e quis saber o que era então prioritário, para mim. Respondi-lhe, de pronto, que a prioridade era aprender a criar oportunidades, aprender a aproveitar estas e outras que nos baterem à porta e, sobretudo, aprender que basta de investimentos em elefantes brancos. Perguntei-lhe se sabia quantos elefantes brancos já temos enjaulados em Cabo Verde, onde se encontram as jaulas, quem eram os responsáveis, quem os tinha industriado a tomar tais decisões, enfim as questões da praxe, nesses casos. Identificou com exactidão todos os bicharocos nacionais, onde estão localizados, só falhando na resposta acerca das eminências pardas por detrás de tais decisões. Ah! E quis saber que importava isso, sendo certo que o Mundo acabará em 2012.

Tive que lhe explicar que, antes de mais, não é certo que o Mundo acabará em 2012 e que mesmo aceitando a fatalidade, seria sempre mais honroso não terminar os nossos dias endividados (todos nós) por causa de… elefantes brancos. Deixei claro para o leitor que diante do falhanço da profecia que dizia que o Mundo acabaria no ano 2000, o melhor mesmo era nos prepararmos para a eventualidade de novo falhanço. E aí, seria necessário que tivéssemos tudo funcionando no sentido da realização das nossas opções: CABO VERDE – Centro Financeiro Internacional; INDÚSTRIA LIGEIRA, virada para a exportação, instalada e funcionando a todo o vapor; AGRICULTORES menos pobres e muito próximos de nos garantirem a auto-suficiência alimentar (falhando apenas nos cereais).
Sublinhei o facto de podermos falhar a realização das nossas opções, caso falhemos o acesso efectivo aos fundos do MCC. Diante da sua incredulidade face à eventualidade de não acesso aos fundos, apesar de termos sido seleccionados para um segundo compacto do MCA, expliquei-lhe que com os fundos geridos pelo MCC, as coisas se passam um pouco como com os vistos de entrada nos Estados Unidos da América: o VISTO de entrada emitido pelos Consulados dos USA permite viajar até àquele país, mas a entrada efectiva nos States depende das autoridades fronteiriças das terras de Uncle Sam; se disserem NÃO, não vale apelar pela existência do VISTO. Com o MCA, acontece algo muito parecido: um país é seleccionado, mas, ao contrário da loteria (onde o ganhador se apresenta munido do bilhete premiado para sacar o prémio), só a coerência e a relevância dos projectos submetidos a financiamento ditam o desbloqueio dos fundos. Por isso, corremos riscos sérios que convém, elencar e ultrapassar. Aqui ficam alguns dos riscos expostos ao meu fiel leitor:
1. Negociação final muito próximo do termo da Legislatura, o que pode levar à assumpção de projectos que tenham a ver mais com a premência da reeleição do que propriamente com a realização das opções já consensualizadas;
2. Possibilidade de os projectos a financiar venham a ser apresentados por um um novo Governo, saído das eleições dos primeiros meses de 2011. Havendo alternância, i.e., sendo o MpD a dirigir o executivo da nova Legislatura, a SEZ (Síndrome da Estaca Zero) poderá complicar as coisas, levando a que os projectos sigam na contra-mão dos consensos iniciais, para escapar à acusação (esdrúxula, diga-se em abono da verdade) de estar a operacionalizar projectos deixados pelo Governo anterior;
3. A grande tentação de, seja qual for o partido do Governo, sob pressão, se apresentarem projectos megalómanos, votados a darem à luz novos elefantes brancos.
A filosofia subjacente ao novo figurino de Ajuda dos USA privilegia o apoio a esforços de investimento virados para o crescimento económico e consequente redução da pobreza. Todo e qualquer desvio em relação a tal filosofia pode levar-nos a bater com o nariz nas pesadas portas dos cofres do MCC. Assim, não só não sobra espaço para elefantes brancos, como ainda as soluções devem estar consensualizadas e não se afastarem muito de soluções já testadas com sucesso.
Na última década, a China praticamente dobrou o número de pessoas capazes de se comunicar em inglês e já superou até mesmo a Índia no total de falantes. Em 2008 o governo chinês tornou obrigatório o inglês nas escolas para crianças a partir dos 09 anos de idade e, em cidades maiores, como Pequim e Xangai, a obrigatoriedade começa aos 06 anos. Para receber os visitantes durante a Olimpíada de 2008 e a feira internacional Expo 2010 – que acontece a partir de Maio próximo em Xangai - foram criados programas de treino intensivo para profissionais como taxistas, médicos e pessoal do sector de turismo*. Estará na aposta no inglês a justificação para o milagre chinês? Não será, certamente, o único fautor de tal milagre, mas ninguém nega o peso de tal aposta no sucesso de muitos países. Em um país que se diz, e se sente, vocacionado para sediar um Centro Financeiro Internacional (sério e a sério), e que não se vai conformar em apenas dar prédios de arrendamento para instalação das instituições de crédito, a aposta no Inglês certamente não será negligenciada, nem o MCC negará os necessários fundos para a realização da vocação: Popularização do Inglês, Massificação da Internet, Vulgarização da Informática e Formação de bancários e profissionais da intermediação financeira.
Insisto em propostas já registadas anteriormente (a registada acima; investimentos na infra-estruturação de zonas francas, na produção de água e de energia eléctrica que permita o seu débito a preços mais competitivos, em redes de distribuição de água e energia, na capacitação da nossa mão-de-obra; no desenvolvimento da Agricultura, pela via da modernização dos processos de produção, na mudança das mentalidades, na aposta na preparação, equipamento e motivação de Extensionistas Rurais) mas não tenho a pretensão de ser o dono da verdade. A ideia é tão-somente cimentar um enfoque pragmático na construção das propostas a serem submetidas: NÃO a megalomanias; um NÃO claro a elefantes brancos; preocupação constante com o retorno dos investimentos (promoção de crescimento económico que deverá desembocar na redução dos níveis de pobreza e do número de pobres); banimento absoluto de tentativas de ajuste de contas (essa foi-me sugerida por uma colocação feita por um dirigente do PSD - por ocasião da discussão da Lei das Finanças Regionais - segundo o qual, não faz o mínimo sentido travar a Região Autónoma da Madeira ou a Região de Lisboa, só porque estão acima da média nacional.
A prioridade agora, amigo leitor, é a preparação do país para a eventualidade de não se realizar a profecia segundo a qual o Mundo acabará em 2012. Por isso, não se exclua, nem se deixe excluir, do processo de construção das propostas de projectos a submeter ao MCC. Quanto às presidenciais de 2011… por enquanto, é puro folclore, NADA PORQUE VALHA A PENA PERDER O SONO.
* ver «A nova fronteira do Inglês», publicado na edição 960 da Revista «EXAME».

Tuesday, February 9, 2010

MCA II

"A sociedade é composta por duas grandes classes: aqueles que têm mais jantares que apetite e os que têm mais apetite que jantares.”
SÉBASTIEN-ROCH CHAMFORT
Não faço a mínima ideia acerca das linhas orientadoras das propostas que o Governo de Cabo Verde irá apresentar ao Millenium Challenge Corporation – MCC. Nem faço tenção de pagar para ver.
Como qualquer bom cabo-verdiano, penso o país e tenho esperanças de vê-lo crescer, produzindo e redistribuindo riquezas, esforçando-se por doar a seus filhos uma qualidade de vida aceitável. Por isso, cada oportunidade, cada trampolim, que aparece, me deixa expectante quanto ao modo como vai feita a «chamada», como se vai pisar o trampolim, como se evolui no ar e, principalmente, como se dará a «saída» (a classe, o estilo, da aterragem depois do salto). Daí que, no momento em que se forjam as propostas de projectos a serem financiados pelos fundos geridos pelo MCC, me sinta na obrigação de dizer de minha justiça.
Diante do amplo consenso sobre a transformação de Cabo Verde em Centro Financeiro Internacional; perante a minha convicção de que o país só teria a ganhar se investisse firme na atracção de investimentos para o sector da indústria ligeira; e acreditando na possibilidade dos nossos agricultores, devidamente «trabalhados», se tornarem capazes de nos levar para muito próximo da auto-suficiência em frescos e legumes; aplicaria os fundos do MCA II na consecução de três grandes objectivos, a saber: (i) a instalação de competências nacionais para dar corpo à PRAÇA FINANCEIRA INTERNACIONAL; (ii) a infra-estruturação do país para atrair e suportar unidades industriais (indústria ligeira) viradas para a exportação; e (iii) o investimento na reconversão da agricultura nacional, com uma aposta forte na componente EXTENSÃO RURAL.
Para o primeiro objectivo, não teria dúvidas em sugerir uma forte aposta nos três «is» - INGLÊS, INFORMÁTICA, INTERNET – e na formação de bancários e de agentes de mediação financeira. INTERNET com acesso gratuito, pondo o mundo todo ao alcance de um clique de qualquer cabo-verdiano. Factível? Penso que sim! O INGLÊS, como segunda língua, a ser ensinado já a partir do pré-escolar, tornando-se factor preferencial para a concessão de isenção de propinas, bolsas de estudo, etc, o domínio da língua que foi de Shakespeare e que agora se transformou em língua universal (ultrapassando, largamente, o ESPERANTO). No momento, e com recurso aos fundos do MCA, poder-se-ia abrir um programa, tipo «NOVAS OPORTUNIDADES», de formação em INGLÊS, virado para os adultos, e outro de aprofundamento dos conhecimentos, e destinado àqueles que já tiveram contactos anteriores com a língua.
A INFORMÁTICA, enquanto ferramenta de excelência, nos tempos que correm, deve poder ser dominada pelos profissionais cabo-verdianos, não importa em que ramo operem. Uma vez que os nossos desafios precípuos têm a ver com a excelência e com a qualidade, o domínio da INFORMÁTICA é imprescindível. O MCA II pode (e deve) ajudar.
Queremos um Centro Financeiro Internacional operando com quadros e especialistas nacionais em matéria bancária e de intermediação financeira, ou um Centro que traga gente de fora para dar conta das suas necessidades? Sendo nossa vocação inequívoca a prestação de serviços (que não se cinjam a simples arrendamento de espaços para instalação das instituições financeiras), necessário se torna que formemos uma bolsa de recursos humanos com as valências necessárias para a realização da nossa vocação. O MCA II poderia, também neste particular, fazer um bom investimento.

A identificação de espaços para albergarem as futuras ZONAS INDUSTRIAIS do país (Praia, Assomada e Porto Novo, esperam há que tempos); a devida infra-estruturação, dos referidos espaços, para a finalidade (vias, energia, água, telecomunicações, esgotos, estação de tratamento de águas residuais, etc.); e a aprovação de um Código de Incentivos virados para a indústria ligeira; poderiam, TAMBÉM, ser suportadas pelos fundos do MCA, sem qualquer dúvida quanto ao retorno do investimento (redução do desemprego, rendimento das famílias, arrecadação de impostos sobre o consumo, redução do desequilíbrio da balança comercial, entrada de divisas, etc.)
A par da oferta de zonas industriais devidamente infra-estruturadas e de incentivos fiscais, o investimento na formação profissional de alto standing (HS) completaria o quadro de atractivos para o investimento na indústria ligeira em Cabo Verde. Se outras razões não existissem (e existem), só esta já justificaria a aposta. E o MCA II poderia contribuir. Afinal, a ideia não é ajudar o país a crescer e a combater a pobreza? Então…
Mas a questão da industrialização do país não pode ficar pela atracção dos investidores (nacionais e estrangeiros). De que serviriam as zonas industriais infra-estruturadas, os incentivos atraentes e os operários altamente especializados, se se mantivessem os preços proibitivos das telecomunicações, da água e da energia eléctrica? O mais certo seria os investidores torcerem o nariz diante do que considerariam uma armadilha. Será necessário, portanto, ir muito mais fundo: investir na dessalinização das águas que nos cercam por todos os lados; apostar na utilização da natureza para a produção de energia limpa e mais barata; construir novas redes de distribuição de água e de energia eléctrica. Aí sim, teríamos o país preparado para a diversificação do seu papel na economia global (não ficaria na dependência exclusiva de um turismo de réditos mais do que duvidosos). DESSALINIZAÇÃO, ENERGIAS RENOVÁVEIS E NOVAS REDES DE DISTRIBUIÇÃO DE ÁGUA E DE ENERGIA, PODERIAM SER EXCELENTES DESTINOS PARA OS FUNDOS DO MCA.
Mas Centro Financeiro Internacional e o estatuto de país exportador não nos podem fazer esquecer do objectivo maior de qualquer país: a prossecução da AUTOSUFICIÊNCIA ALIMENTAR.
Os impactos do MCA I na qualidade e na quantidade da produção agrícola nacional, com destaque para a disponibilização de frescos e legumes nas principais feiras nacionais (o arco-íris que é o Mercado Municipal da Praia, pintado com frescos de várias cores, provenientes das unidades familiares de produção, catapultadas pelas novas tecnologias de cultivo e irrigação, prova isso mesmo). O MCA II tem o dever e a obrigação de reforçar a aposta na melhoria das condições de produção agrícola do país, investindo recursos nas ilhas de Santo Antão, São Nicolau, Santiago e Fogo, sem dúvida os principais abastecedores do arquipélago. A minha sugestão iria no sentido do reforço da EXTENSÃO RURAL, sem dúvida o artífice das transformações que se vêm registando nos campos de Cabo Verde: uma aposta firme na formação de EXTENSIONISTAS RURAIS e nas suas condições de trabalho. Falava, outro dia, o Presidente da República da necessidade de se recorrer a novas sementes. Tem Sua Excelência toda a razão. Extensionistas Rurais devidamente preparados, equipados e motivados; novas tecnologias de cultivo e de rega; camponeses com mentalidade renovada; é muita coisa. São grandes conquistas. Mas é preciso ir, de facto, mais fundo: aposte-se, TAMBÉM, na selecção de sementes garantidas, certificadas e ADEQUADAS ao nosso clima e à irregularidade das nossas precipitações. Alguém discorda que os recursos do MCA II poderiam, TAMBÉM, servir para este fim? A pobreza, o atraso, a subnutrição e a vontade de trabalhar, em Cabo Verde, habitam o meio rural. Então, de uma única vassourada, empurremos para o escanteio, a pobreza, o atraso e a malnutrição; ao mesmo tempo que abrimos o caminho para a realização do sonho de gente que nunca teve medo de trabalhar, antes pelo contrário. Quem nunca viu a fé do trabalhador das montanhas de Santo Antão e das ladeiras de Santiago, traduzida na mobilização de solo arável (Sto. Antão) e de água (Santiago) caneca a caneca? Merecem ou não serem beneficiados com os fundos do MCA? Eu apostaria, TAMBÉM, neles.
E aqui fica o desafio aos meus compatriotas: não fiquem à espera do que decidir a equipa chefiada pela Ministra das Finanças. Os fundos do MCA não são doados a Governos, mas sim a POVOS. Não é assim Senhora Dona Marianne M. Myles?

Monday, February 1, 2010

OS INFALÍVEIS

“A parte mais importante de um negócio é o sistema que está por trás do produto ou da ideia. Muita gente pode preparar um hambúrguer melhor do que o McDonald’s, mas poucos podem criar um sistema de negócios melhor do que esse.”
ROBERT T. KIYOSAKI
A tese da infalibilidade foi sempre brandida com a finalidade de manter as pessoas em sentido, escutando e dizendo Amén, matando, no ovo, toda e qualquer forma de protesto. Felizmente, a história está recheada de homens que ousaram protestar, reduzindo a pó tais pretensões. Lutero ousou, protestou e fez baquear a infalibilidade papal; e mesmo a infalibilidade de Deus tem sofrido sérios revezes, diante “distracções” imperdoáveis como o Holocausto, os genocídios da África Central e dos Balcãs e, mais recentemente, os sismos no Haiti. Já nem a tese de que Ele escreve direito por linhas tortas está convencendo como dantes.
Mas, apesar dos revezes da tese, estamos agora a braços com a mania de infalibilidade dos políticos. Fazem asneiras de bradar aos céus e se acontecer um cidadão contestar as suas decisões, fazem cair o Carmo e a Trindade. A meu ver, mais ameaçador do que a infalibilidade papal, é o facto de os Governos da República e da Capital, se julgarem, também eles, infalíveis. Configuraria o princípio do fim da alternância política e a morte da democracia, caso os governos fossem reconhecidos como infalíveis. E o risco agiganta-se em época de revisão constitucional e com uma oposição tão distraída.
Estão fazendo furor aqui na Cidade da Praia os casos “INPS” e “Estádio do Côco. Neste último, os infalíveis da Câmara Municipal da Praia não conseguindo engolir a posição assumida por um grupo de cidadãos - representando cinco equipas federadas, vários bairros da Capital e mais de 40% de praticantes do futebol na Praia - que se opõem à decisão do Governo da Cidade de «fechar» o Estádio do Côco, vão de conotar o grupo com a oposição do PAI. Nem o facto de os líderes do movimento serem, na sua maioria, activistas do MpD, parou a intolerância da edilidade: os infalíveis não concebem que as pessoas sejam capazes de pensar com as próprias cabeças e de agir em consequência.
Pior do que se considerar infalível (cada doido tem a sua mania) é encomendar artigos de opinião de outros pretensos infalíveis, com o escopo de fazer calar os protestantes, quando sentem que a balança está a pender para o lado dos cidadãos, esquecendo, ou fingindo não se lembrar, que a crise que segue trespassando o mundo foi provocada pela pretensão e soberba dos FINANCEIROS e potenciada pela miopia e imprevidência dos GOVERNOS – exactamente a dupla infalível do caso INPS.
Mas vamos aos factos. Aconteceu o Governo instruir o patrão do INPS a transferir 525 mil contos para a conta da ELECTRA (uma empresa a braços com dificuldades de tesouraria e com um passivo circulante que inibe os bancos e os fornecedores de lhe darem crédito), a fim de obviar a que o país parasse. Até aí, tudo bem. Outros já haviam feito o mesmo (ir à burra do INPS buscar dinheiro) e com motivações menos nobres.
Passado um tempo, o boss troca o INPS pelos TACV (outra empresa sempre à míngua de crédito e de numerário), e, ao que parece, quis também ser socorrido com os fundos da sua antiga organização, o INPS; ou porque o Governo, mais cauteloso, não quis repetir a dose, ou porque a nova administração do INPS tenha torcido o nariz à ideia, o certo é que a transferência secreta de fundos para a ELECTRA acabou chegando ao domínio público. E é aí que a porca torce o rabo e se dá a patada que se pretende agora branquear: o INPS passou de credor para accionista da ELECTRA, por obra e graça dos infalíveis de serviço. E o pecadilho dos protestantes foi terem achado que, entre ser accionista ou credora da ELECTRA, era preferível a última hipótese. E há de se entender bem porquê: o credor tem sempre hipóteses de receber o seu, ainda que recorrendo à penhora dos bens do devedor; enquanto o accionista não só pode nunca mais voltar a ver a cor do seu rico dinheirinho, como ainda, em caso de échec, ser obrigado a comparticipar no pagamento das dívidas da empresa.
E, perante a opção feita, choveram reacções, na sua maioria na contra-mão desta. E se bem me lembro, a grande maioria deixou claro que a energia e a água são um excelente negócio, mormente quando em regime de monopólio. A questão que se pôs (e ainda se põe) nunca teve a ver com o negócio em si, mas com a empresa detentora do negócio. É que para a decisão de investir numa empresa não conta apenas o negócio a que esta se dedica, mas a empresa em si, como um todo, seu histórico e sua performance* : os activos, o passivo, a rácio activo/passivo e o passivo circulante ou dívida de curto prazo; as receitas, as despesas, a rácio receitas/despesas; a qualidade da gestão; as questões laborais em que se encontra envolvida, as ineficiências em que se encontra enredada, enfim, sua rentabilidade, seu potencial e sua capacidade de sobrevivência.
O potencial da empresa em que se pretende investir é importante, sim senhora; mas, mais do que o potencial, a demonstração financeira tem de nos mostrar que a empresa tem condições de sobrevivência. Um botão de rosa tem tudo (potencial) para se transformar numa linda rosa; contudo, passar do potencial (botão de rosa) à efectividade (a linda rosa) depende muito do jardineiro (o gestor do processo), o qual tem o dever e a obrigação de proteger o botão de rosa das intempéries, irrigar a roseira, mantê-la livre das pragas e das ervas daninhas, garantir-lhe, afinal, condições de sobrevivência. Nem o botão de rosa mais promissor, nem a empresa detentora do melhor negócio do mundo (e a água e a energia estão nesse universo) chegam a lugar nenhum sem uma boa gestão. E a questão que teima é esta: PODE O INPS, COM O NÍVEL DE INVESTIMENTO QUE FEZ, INFLUENCIAR A GESTÃO DA ELECTRA? Parece que não. E assim sendo, a decisão do Governo, de fazer com que o INPS deixasse de ser mais uma credora da empresa, para se transformar em accionista minoritária, constitui um mau passo. Diga-se o que se disser.
Pretenda-se ser fornecedor, credor, parceiro ou accionista de uma empresa, mister se torna analisar a performance financeira da mesma . Cada um dos papéis pondo a tónica no item que mais lhe interessa** (a rentabilidade, o potencial, as hipóteses de sobrevivência, etc.) a verdade é que as decisões passam, inexoravelmente, pela análise da demonstração financeira. A ENACOL, quiçá a fornecedora principal da ELECTRA, analisou, não gostou do que viu e decidiu suspender os fornecimentos; a BANCA, o credor, por excelência, analisou, não gostou do que viu e decidiu pela cessação dos créditos; antes, uns ACCIONISTAS haviam analisado, não gostado do que viram e decidido tirar seu time de campo; mais recentemente, os INVESTIDORES nacionais torceram o nariz às obrigações emitidas pela empresa, só se decidindo a adquiri-las quando obtiveram a garantia de que o Tesouro público cobriria qualquer eventualidade. A questão que resta é esta: QUE CARGAS DE ÁGUA TERIA VISTO O INPS NA ELECTRA, QUE NEM OS FORNECEDORES, NEM A BANCA, NEM OS ANTIGOS ACCIONISTAS, NEM OS INVESTIDORES NACIONAIS VIRAM? Bom… sabe-se hoje que a decisão não foi do C.A., mas do Governo; que não terá sido decisão de gestor, mas de político; que não foi uma decisão baseada em critérios de eficácia e rentabilidade do capital, mas baseada unicamente em critérios políticos, e assumida por políticos, e em vésperas de eleições. E todo mundo sabe o que valem as decisões dos políticos tomadas em tal clima. No entanto, ainda assim, os artistas do negócio insistem que se deva considerar apenas o objecto da empresa.
Curioso é que a encomendinha do Governo traz à liça exemplos prosaicos acerca de decisões de investimento muito elucidativos do que não se deve fazer. Por exemplo, aquela de comprar boi novo e magro surte efeito contrário ao pretendido pelo mago de serviço. Que comprar um boi novo e magro para engorda é muitíssimo diferente de se fazer sócio de um péssimo criador de gado. Que uma coisa é alguém ir à feira de Assomada e comprar um novilho para engorda ou reprodução; e coisa muito diferente seria essa pessoa fazer-se sócio de um mau criador de gato, tipo um amigo meu, de Ribeirão Galinha, que tem imensas dificuldades em manter vivo qualquer rês que se lhe confie: no primeiro caso, o fulano seria DONO e assumiria a “gestão” do novilho que pretende transformar em boi gordo; no segundo caso, seria apenas CO-PROPRIETÁRIO (accionista) do novilho cuja engorda ficaria confiada a um, digamos, azarado criador de gado. Nas mãos do meu amigo Jeová é quase uma certeza que o novilho jamais chegará a boi. Ser accionista minoritário da ELECTRA (portanto, sem qualquer influência na gestão e tendo que se submeter à gestão instalada) é como investir no novilho e deixá-lo à guarda de um criador falhado. O melhor mesmo é comprar um novilho só seu, e dedicar-se, pessoalmente, à sua engorda. Ou confiá-lo a um assalariado que saiba do ofício, que queira exercê-lo e que… não seja tão azarado como o meu amigo de São Jorge.
E quanto aos riscos que se diz que todo mundo corre, a marosca está no que fica por dizer: tanto quem contratou, como quem fez o frete, sabe que os tais riscos de que fala o ditado (QUEM NÃO ARRISCA NÃO PETISCA) não são aleatórios: são RISCOS CALCULADOS e que têm na sua base a recolha e o processamento de informações e a análise e gestão de risco. Há, por exemplo, uma enorme diferença entre entrar para uma sociedade em “andamento” e a montagem de uma empresa, para depois abrir o capital aos investidores. Transformar uma ideia num negócio, começar um negócio (de água e energia, por exemplo) é uma coisa; coisa diferente é pegar a carreta já em andamento, com os pneus já rotos, o motorista desgastado e relaxado, os ajudantes desmotivados; sem reservas, nem crédito, junto da banca; e sem a confiança dos fornecedores de peças de substituição e combustível.
Deus deve estar desiludido tanto com quem encomendou como com quem fez o frete. É que não há justificação para o facto de as coisas terem sido feitas da forma como foram: o INPS, pelo volume de liquidez que detém, pelas responsabilidades que lhe estão confiadas, pela importância que tem na vida, presente e futura, do trabalhador cabo-verdiano, deve aplicar, sim senhora, o excesso de liquidez. Mas, quando toma decisões de investimento, deve fazê-lo, SEMPRE, com as vestes de INVESTIDOR SOFISTICADO.
O que é um Investidor sofisticado?! Segundo Robert. T. Kiyosaki,*** um investidor sofisticado é aquele que entende os dez controlos do investidor. Ele entende e tira partido das vantagens do lado direito do quadrante (que representa a posição relativa do Empregado e do Autónomo, do Investidor e do Empresário, no mundo dos negócios). E aqui deixo registado, com a devida vénia, os tais DEZ CONTROLOS DO INVESTIDOR:

1. Controlo sobre si mesmo;
2. Controlo sobre os quocientes receita/despesa e activo/passivo;
3. Controlo sobre a gestão do investimento;
4. Controlo dos Impostos;
5. Controlo sobre o momento de comprar e o momento de vender;
6. Controlo sobre a corretagem;
7. Controlo sobre o EOC (Estatuto jurídico, Oportunidade e Características);
8. Controlo sobre os termos e condições dos contratos;
9. Controlo sobre o acesso à informação;
10. Controlo sobre o devolver, filantropia, redistribuição da riqueza.

Kiyosaki faz ainda questão de sublinhar a importância de um investidor sofisticado poder optar por não ser um investidor completo, à condição de entender, exactamente, os benefícios de cada um dos dez controlos e de ter sempre presente que quanto mais desses controlos possuir, menos riscos terá em seus investimentos. E a questão que queima é esta: O INPS, NO CASO EM APREÇO, AGIU COMO UM INVESTIDOR SOFISTICADO? A resposta é um redondo NÃO.
Errar é humano; persistir no erro é arrogância pura; e reconhecer o erro, e dar a mão à palmatória, é divino. Um mau passo pode acontecer a qualquer um. E reconhecer o mau passo e voltar à primeira forma não tira pedaço. Antes, pelo contrário: gera uma aura de credibilidade que demagogia nenhuma consegue (nem a pretensão besta de infalibilidade, nem a doce embriaguez dos sentidos que provoca). THINK ABOUT.
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* DAMODARAM, Aswath, «DAMODORAN ON VALUATION: Security Analysis for Investment and Corporate Finance» da WILEY & SONS, Inc.
** MATARAZZO, Dante C., «Análise Financeira de Balanços», Atlas Editora, Lda.
*** KIYOSAKI, Robert T., in «Rich Dad's Guide to Investing», da Elsevier Editor, Ltd.

Thursday, January 14, 2010

RESPEITADO OU TEMIDO?

“Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo.”
LEON TOLSTÓI
O que é que satisfaz as pessoas, nos dias que correm? Serem respeitadas ou serem temidas? Acredito que as pessoas até pensam que continuam correndo pelo respeito dos seus semelhantes. Mas, em boa verdade, tudo fazem para parecerem temíveis e, em consequência, serem temidos.
Em tempos que já lá vão, as pessoas orgulhavam-se de serem respeitadas. E a verdade é que era bem mais fácil as pessoas fazerem-se respeitar. Bastava que se dessem ao respeito e respeitassem o semelhante (contemporâneos, mais novos e, principalmente, os mais velhos). Ressalta, de tal visão, o princípio da reciprocidade: OBTINHA-SE O RESPEITO, RESPEITANDO-SE E RESPEITANDO OS OUTROS.
Hoje, as pessoas querem ser respeitadas, sem se darem ao respeito e sem respeitar o próximo. Fala-se que é preciso impor respeito e escuta-se amiúde o dito “RESPEITO É BOM E EU GOSTO”. O problema é que o verbo “impor” não rima com “respeito” e o tal de “RESPEITO É BOM E EU GOSTO” é verbalizado sempre de cara fechada, de forma ríspida e com modos de quem pode impor sanções caso não seja tratado como acha que merece. E acaba-se confundindo temor com respeito e “ser temido” com “ser respeitado”, com todas as consequências que daí podem advir.
Quando se é respeitado, é-se sempre tratado com respeito, estando presente ou ausente; quando se é, simplesmente, temido, recebe-se manifestação de respeito quando se está presente, mas é-se vergastado na ausência. Quer isso dizer que aquele que é temido, para receber manifestações, aparentes, de respeito, deve estar sempre presente – ele ou o instrumento de domínio sobre os outros.
Significa que, nos dias que correm, as pessoas se satisfazem em saberem-se temidas. Sabem que não são respeitadas como, por exemplo, seus progenitores, mas satisfazem-se com a ilusão de serem respeitadas. E têm a consciência do preço alto que são obrigadas a pagar. Há necessidade de renovação permanente da “legitimidade”: o que provoca o temor do vizinho (ou a sua representação mental) e o obriga a prestar vassalagem a um safardana qualquer tem de estar sempre presente. E isso tanto pode ser o poder sobre a manutenção do emprego, como a posse de bíceps poderosos, de arma de fogo, ou de qualquer outro factor que confere poder não sujeito a controlo. O problema é que impor respeito é super complicado.
Por vezes, não basta o potencial de despedir um fulano do seu posto de trabalho: para desencorajar a veleidade dos demais, pode-se sentir a necessidade de despedir um pai de família só para manter os demais em respeito. Pode não ser bastante saber-se que se tem bíceps poderosos: para manter o respeito dos demais, sente-se a necessidade de distribuir uns cascudos por uns tantos. Pode não ser suficiente ter um automóvel potente, último grito: será preciso fazer umas ultrapassagens, onde haja espectadores, para se manter respeitado. Enfim, quando se é simplesmente temido e se tem a presunção de ser respeitado, não basta a ameaça, o potencial, a capacidade latente: são precisas, vez por outra, manifestações de poder que façam com que as pessoas se submetam, finjam respeito. E, um pouco como acontece com a droga, cada vez se tem de usar uma dose maior, para se obter o mesmo efeito. E é por esse caminho, por essa espiral, que se chega à volúpia da violência, à «overdose», ao irreversível.
No fundo, no fundo, os problemas que a nossa sociedade vem enfrentando têm a ver com o PODER e com a forma de sua legitimação. Quando, em vez de se conquistar o respeito do semelhante (se dando ao respeito e respeitando o próximo), se decide impor o respeito, PORQUE É BOM E SE GOSTA, sem contudo respeitar ninguém (nem os mais velhos, nem os colegas, mormente os mais novos e os mais fracos), o jeito é ter o PODER de impor. É por isso que se luta pelo PODER de forma tão desbragada; é por isso que se apega ao PODER de forma tão descarada; é ainda por isso que se aposta no SER e no TER, como formas de PODER, com tanta avidez: porque o PODER permite IMPOR respeito, sem se ter o «desprazer» de se ter de respeitar espécimes tidos como menores.
Um militante bem posicionado no partido do poder ou em um partido com vocação de poder; um bom quadro; um bom gestor; um empresário de sucesso; ou os familiares destes; um estudante aplicado; querendo, podem optar entre SER RESPEITADO e SER TEMIDO. Dependerá de muita coisa (entre as quais o berço e o sinal da influência que a necessidade de reconhecimento exerce sobre o sujeito) a opção por se dar ao respeito e respeitar os outros ou por, simplesmente, impor respeito aos demais, fazer-se temível. Abre-se-lhes a possibilidade de escolha.
As coisas pioram quando não se tem muito por onde escolher; quando não se têm os pergaminhos necessários para aceder ao PODER, digamos, tradicional, e impor respeito aos demais. Um miúdo que é alijado do sistema de ensino e não tem mais para onde se virar; ou que termina o liceu, não tem meios para seguir uma formação superior, nem consegue um emprego; um jovem desempregado, permanentemente bombardeado pela exposição, nas vitrines das boutiques e feiras, de roupas e calçado da moda e perfumes franceses; um jovem que não consegue atrair a atenção de meninas de sua idade porque é preciso dar um «soco na rosto» e ele não tem como; a miúda que não consegue a atenção da pessoa que ama, porque não usa perfumes caros, nem pode ir ao cabeleireiro, à manicure ou à pedicure; o jovem que perde a «pequena», à saída da «boate», para um «tio» barrigudo, mas que tem uma viatura vistosa; um miúdo bem comportado, mas que é, sistematicamente, passado para trás por um traficante que dá «socos na rosto» incríveis; jovens que não conseguem uma audiência com uma autoridade e que vêm estes recebendo traficantes nos seus gabinetes, ou se confraternizando com eles; que caminho lhes resta?
Não são respeitados porque esta nossa sociedade cínica prega uma coisa e faz outra: condena a violência, mas abre os seus salões aos maiores promotores da violência no mundo, que são os traficantes de droga, armas e outras merdas; diz-se cheia de valores, mas não questiona as filhas que chegam à casa tarde e a más horas, a bordo de um bólide pertencente a um desconhecido muito mais velho; fecham os olhos ao material escolar espectacular que não pagaram, ao telemóvel último grito, às roupas de griffe, ao perfume francês, aos sapatos italianos, ao banho de beleza (cabelo, depilação, manicure, pedicure) e às disponibilidades em numerário que a filha ostenta; diz que acredita em amor e uma cabana, mas bloqueia o pretendente honesto, mas pobre, e abre alas para o «tio» barrigudo e para traficantes, ricos. E não podem impor respeito com recurso ao dito PODER tradicional, porque lhes faltam pergaminhos e padrinhos para lá chegarem. Qual a saída para algum respeito, ainda que de mentirinha?
É isso aí. A união faz a força. Mesmo se tratando de marginalizados. Os marginalizados estão se organizando para se fazerem respeitar. Perceberam bem a lição: nesta nossa sociedade, ou se tem algum PODER e se obtém algum «respeito» dos outros, ou se morre pária (capacho para os demais exercitarem orgias do poder que detêm). E vão de se organizar em GANGS.
Os «gangs» vêm a ser, pois, a via de acesso ao poder daqueles que querendo, como os demais, impor respeito, não têm o direito do lado deles. E não há que ficar espantado diante dos integrantes dos «gangs»: não são integrados apenas pelos ditos deserdados da sorte, mas por todos aqueles que querem ser alguém em si. Fazer parte de um «gang» oferece ao integrante, antes de mais, uma relação de pertença, uma âncora, uma referência, que o faz sentir-se «alguém»; depois, sabe-se protegido contra abusos, uma vez que, pertencendo a uma estrutura de poder, quem se atrever a mexer com ele, mexe com toda a estrutura, a qual tem, via de regra, uma boa capacidade de resposta; e ganha o direito a puxar, vez por outra, da «carteirinha»: sabe com quem está se metendo? Sabe quem eu sou?
Perder de vista os circunstancialismos que ditaram o surgimento de pessoas que, organizadas ou não, se predispuseram a exigir que sejam tratadas com respeito, sem se darem ao respeito ou respeitarem aqueles a quem exigem respeito, só fará com que o fenómeno se perpetue. Esta sociedade, se quiser, de facto, combater a violência que a incomoda, precisa realizar uma catarse e, quiçá, uma revisitação ao passado.
O gosto desbragado pelo poder e o uso despudorado desse mesmo poder para satisfação de paixões, aliado a uma dose incrível de intolerância e à postura de complementaridade desta sociedade, constituem o húmus onde fermenta, medra e floresce a violência que nos assusta. E ou se consegue moralizar a vida em sociedade ou continuaremos chafurdando nesta lama podre, onde ninguém se dá ao respeito, ninguém respeita ninguém, mas todos exigem ser respeitados.
RESPEITO É BOM E TODO MUNDO GOSTA? Então, mister se torna que comecemos por nos darmos ao respeito, passarmos a respeitar os outros e, sobretudo, recuperemos os valores cristãos que tão bons resultados deram até um certo tempo. Só assim poderemos almejar uma sociedade onde direitos e deveres andem de mãos dadas, onde as recompensas sejam em função do mérito e a inclusão social não seja uma expressão vã.