Caros concidadãos,
Apresento-me hoje aqui sentindo-me humilde perante a tarefa que nos aguarda, grato pela confiança que depositaram em nós, consciente dos sacrifícios por que passaram os nossos antecessores. Agradeço ao Presidente Bush pelos serviços prestados ao nosso país, bem como pela generosidade e cooperação que deu provas durante este período de transição.
Quarenta e quatro presidentes americanos prestaram até hoje o juramento presidencial. As suas palavras foram proferidas em tempos grandiosos de prosperidade e períodos tranquilos de paz. Contudo, houve também ocasiões em que o juramento foi prestado entre nuvens que se avolumavam e tempestades violentas. Nesses momentos, a América prosseguiu o seu caminho não apenas devido à capacidade e visão dos que ocuparam este alto cargo, mas porque nós, o povo, permanecemos fiéis aos ideais dos nossos antepassados e aos nossos documentos fundadores.
Assim foi. E assim será com esta geração de americanos. Que estamos a braços com uma crise já todos compreenderam. O nosso país está em guerra contra uma rede poderosa de violência e ódio. A nossa economia está enfraquecida, uma consequência da ganância e irresponsabilidade por parte de alguns, mas também da nossa incapacidade colectiva de fazer escolhas difíceis e preparar o país para uma nova era.
Perderam-se casas, extinguiram-se empregos, fecharam-se empresas. O nosso sistema de saúde é demasiado oneroso; as nossas escolas reprovam demasiado; e cada dia traz mais provas de que as formas como utilizamos a energia reforçam os nossos adversários e ameaçam o nosso planeta. São estes os indicadores da crise, objecto de dados e números estatísticos. Menos mensurável mas não menos profunda é a diminuição da confiança em todo o país - um receio perturbante de que o declínio da América é inevitável e de que a próxima geração tem de reduzir as suas ambições. Hoje digo-vos que os desafios que defrontamos são reais. São graves e são muitos. Não terão resposta fácil nem num curto espaço de tempo. Mas que todos fiquem sabendo: terão resposta.
Neste dia, reunimo-nos aqui porque escolhemos a esperança em vez do medo, a unidade de objectivos em vez do conflito e da discórdia. Neste dia, viemos proclamar o fim de querelas mesquinhas e falsas promessas, das recriminações e dos dogmas gastos que durante demasiado tempo sufocaram a nossa política.
Continuamos a ser uma nação jovem, mas nas palavras das Escrituras, chegou o momento de pôr de parte as infantilidades. Chegou o momento de reiterar a firmeza do nosso espírito; de escolher o melhor da nossa história; de levar por diante essa dádiva preciosa, essa ideia nobre passada de geração em geração: a promessa divina de que todos são iguais, todos são livres e todos merecem a oportunidade de lutar pela sua quota-parte de felicidade.
Ao reafirmar a grandeza da nossa nação, compreendemos que essa grandeza nunca é um dado adquirido. Tem de ser conquistada. A nossa jornada nunca foi feita por atalhos nem se contentou com pouco. Não foi um caminho trilhado por cobardes - por aqueles que preferem o lazer ao trabalho ou que procuram apenas os prazeres da riqueza e da fama. Foi antes trilhado por aqueles que aceitam os riscos, os executores, os que fazem - alguns célebres, mas na maior parte das vezes homens e mulheres que trabalharam na obscuridade - e que nos conduziram por um caminho longo e difícil até à prosperidade e à liberdade.
Por nós, embrulharam os seus poucos haveres e atravessaram os mares à procura de uma vida nova. Por nós, trabalharam duramente em oficinas e colonizaram o Oeste; sofreram chicotadas e lavraram a terra dura. Por nós lutaram e morreram, em lugares como Concord e Gettysburg; Normandia e Khe Sahn.
Vezes sem conta, estes homens e mulheres lutaram e sacrificaram-se, e trabalharam até que as mãos sangrassem para que nós pudéssemos ter uma vida melhor. Viram a América como sendo maior do que a soma das nossas ambições individuais; maior do que todas as diferenças de nascimento, riqueza ou facção.
É este caminho que prosseguimos hoje. Continuamos a ser a nação mais próspera e mais poderosa da Terra. Os nossos trabalhadores não são menos produtivos do que quando a crise começou. A nossa mente não é menos criativa, os nossos bens e serviços não são menos necessários do que eram na semana passada, no mês passado ou no ano passado. A nossa capacidade não foi diminuída. Mas o nosso tempo de imobilismo, de proteger interesses mesquinhos e de adiar decisões desagradáveis - esse tempo passou definitivamente. A partir de hoje, temos de nos levantar, sacudir a poeira e recomeçar a tarefa de refazer a América.
Porque para qualquer lado que olharmos, há trabalho que tem que ser feito. O estado da nossa economia exige acção, ousada e rápida, e nós agiremos - não apenas para criar novos empregos mas para lançar as novas fundações do crescimento. Construiremos as estradas e as pontes, as redes eléctricas e os circuitos digitais que alimentam o nosso comércio e que nos ligam uns aos outros. Devolveremos à ciência o lugar a que tem direito e utilizaremos com eficácia as maravilhas da tecnologia para aumentar a qualidade dos cuidados de saúde e reduzir os seus custos.
Aproveitaremos o sol, os ventos e a terra para alimentar os nossos carros e fazer funcionar as nossas fábricas. E transformaremos as nossas escolas e universidades para responderem às exigências de uma nova era. Tudo isto sabemos fazer. E tudo isto faremos.
Agora, há quem ponha em dúvida a escala das nossas ambições - quem insinue que o nosso sistema não pode permitir muitos e grandes planos. Têm a memória curta. Porque se esqueceram do que este país já realizou; do que homens e mulheres livres podem alcançar quando conjugam a imaginação e o objectivo comum, a necessidade e a coragem.
O que os descrentes não conseguem compreender é que o chão mudou debaixo dos seus pés - que os velhos argumentos políticos que nos consumiram durante tanto tempo já não se aplicam. A pergunta que hoje fazemos não é se o nosso governo é demasiado grande ou pequeno, mas se funciona - se ajuda as famílias a encontrar empregos e um salário decente, serviços que possam custear, uma reforma digna. Se a resposta for sim, tencionamos seguir em frente. Se a resposta for não, os programas serão terminados. E aqueles de nós que administram os dinheiros públicos serão responsabilizados - para gastarem com sensatez, reformarem velhos hábitos e gerirem os nossos interesses com transparência - porque só então poderemos restaurar a confiança indispensável entre um povo e o seu governo.
Também a pergunta que se coloca não é se o mercado é uma força do bem ou do mal. O seu poder para gerar riqueza e difundir a liberdade não tem paralelo, mas esta crise lembrou-nos que sem um olhar vigilante, o mercado pode descontrolar-se - e que um país não pode prosperar durante muito tempo quando favorece apenas os mais prósperos. O sucesso da nossa economia sempre dependeu não apenas do tamanho do nosso produto interno bruto, mas da abrangência da nossa prosperidade; da nossa capacidade para dar oportunidades a cada alma de boa vontade - não por caridade, mas porque é o caminho mais seguro para o nosso bem comum.
Quanto à nossa defesa comum, rejeitamos como uma falsidade a escolha entre a nossa segurança e os nossos ideais. Os nossos Pais Fundadores, confrontados com perigos que mal podemos imaginar, delinearam uma carta para assegurar o estado de direito e os direitos humanos, uma carta reclamada pelo sangue de gerações. Esses ideais continuam a iluminar o mundo e não desistiremos deles em nome da conveniência. E portanto, a todos os povos e governos que nos estão hoje a ver, desde as grandes capitais à pequena aldeia onde o meu pai nasceu: saibam que a América é amiga de todas as nações e de todos os homens, mulheres e crianças que procuram um futuro de paz e dignidade, e que estamos preparados para liderar uma vez mais.
Recordem que gerações anteriores defrontaram o fascismo e o comunismo não apenas com mísseis e tanques, mas com alianças resolutas e convicções duradouras. Compreenderam que o nosso poder não consegue por si só proteger-nos nem nos confere o direito de fazer o que nos agrada. Pelo contrário, perceberam que o nosso poder aumenta com o seu uso prudente; que a nossa segurança emana da justeza da nossa causa, da força do nosso exemplo, de qualidades como a humildade e a moderação.
Somos os guardiães desse legado. Guiados por estes princípios uma vez mais, podemos estar à altura dessas novas ameaças que exigem um esforço ainda maior - e mesmo maior cooperação e compreensão entre nações. Vamos começar a deixar responsavelmente o Iraque ao seu povo, e a planear uma paz bem merecida no Afeganistão. Com velhos amigos e antigos inimigos, trabalharemos sem descanso para diminuir a ameaça nuclear e repelir o espectro do aquecimento do planeta. Não pediremos desculpa pelo nosso modo de vida nem hesitaremos na sua defesa, e para aqueles que procuram impor os seus objectivos induzindo o terror e massacrando inocentes, dizemos-lhes que o nosso espírito é mais forte e não pode ser dominado; não nos podem vencer pelo cansaço e nós derrotá-los-emos.
Porque sabemos que o nosso património feito de muitos retalhos é uma força, não uma fraqueza. Somos uma nação de cristãos e muçulmanos, de judeus e hindus - e de não crentes. Somos formados por todas as línguas e culturas, atraídas de todos os cantos da Terra; e porque experimentámos o travo amargo da guerra civil e da segregação e emergimos desse escuro capítulo mais fortes e mais unidos, só podemos acreditar que os velhos ódios passarão um dia; que as linhas de divisão se dissolverão em breve; que à medida que o mundo se torna mais pequeno, a nossa humanidade comum se revelará; e que a América tem de desempenhar o seu papel de condutora para uma nova era de paz.
Ao mundo muçulmano, procuramos um novo caminho baseado no interesse mútuo e no respeito mútuo. Aos líderes por esse mundo fora que procuram semear o conflito ou lançar as culpas dos males da sua sociedade ao Ocidente: saibam que o vosso povo vos julgará por aquilo que conseguirem construir, não pelo que destruírem. Para aqueles que se agarram ao poder através da corrupção, da falsidade e do silenciamento da oposição, saibam que estão do lado errado da história; mas que nós vos estenderemos a mão se estiverem dispostos a abdicar.
Aos povos das nações pobres, prometemos trabalhar convosco para que as vossas terras floresçam e para que haja água potável; para dar de comer a corpos esfomeados e alimentar espíritos sedentos. E aos países que como o nosso gozam de uma relativa abundância, dizemos que já não podemos suportar a indiferença perante o sofrimento fora das nossas fronteiras; nem podemos consumir os recursos mundiais sem ter em conta o seu efeito. Porque o mundo mudou e nós temos de mudar com ele.
Ao olharmos o caminho que se estende diante de nós, recordamos com humilde gratidão esses bravos americanos que neste mesmo momento patrulham desertos remotos e montanhas distantes. Eles têm algo a dizer-nos hoje, tal como os heróis caídos que jazem em Arlington nos segredam através do tempo. Prestamos-lhes homenagem não apenas porque são os guardiães da nossa liberdade, mas porque encarnam o espírito do serviço; uma disposição para encontrar significado em algo maior do que eles próprios. E contudo, neste momento - um momento que definirá uma geração - é precisamente este espírito que deverá habitar cada um de nós.
Porque por muito que um governo possa e deva fazer, é afinal da fé e da determinação do povo americano que este país depende. É a generosidade de receber um estranho quando um dique rebenta, o altruísmo de trabalhadores que preferem reduzir o seu horário do que ver um colega perder o seu posto de trabalho, que nos conduzem nas horas mais sombrias. É a coragem do bombeiro ao abrir caminho por uma escada cheia de fumo, mas também a vontade de um pai para criar um filho, que finalmente decide o nosso destino.
Os nossos desafios podem ser novos. Os instrumentos de que dispomos para os enfrentar podem ser novos. Mas os valores dos quais depende o nosso sucesso - trabalho árduo e honestidade, coragem e justiça, tolerância e curiosidade, lealdade e patriotismo - são velhos. São verdadeiros. Foram a força tranquila do progresso através da nossa história. O que se exige é então um regresso a essas verdades. O que se exige de nós é uma nova era de responsabilidade - um reconhecimento, por parte de todos os americanos, que temos deveres com nós próprios, com o nosso país e com o mundo; deveres que não aceitamos relutantemente mas que cumprimos com alegria, firmes no conhecimento de que não há nada tão compensador para o espírito, tão definidor do nosso carácter, como nos entregarmos inteiramente a uma tarefa difícil.
É este o preço e a promessa da cidadania. É esta a fonte da nossa confiança - o conhecimento de que Deus nos chama para darmos forma a um destino incerto. Este é o significado da nossa liberdade e da nossa fé - a razão por que homens, mulheres e crianças de todas as raças e religiões se podem juntar nesta celebração em volta desta magnífica alameda, e por que um homem cujo pai há menos de 60 anos poderia não ter sido servido num restaurante local pode agora estar aqui diante de vós a prestar o juramento mais sagrado.
Portanto, marquemos este dia com a recordação do que somos e do longo caminho que percorremos. No ano do nascimento da América, no mês mais frio, um pequeno grupo de patriotas juntou-se à volta de fogueiras agonizantes nas margens de um rio gelado. A capital fora abandonada. O inimigo avançava. A neve estava tingida de sangue. Num momento em que o resultado da nossa revolução estava mais em dúvida, o pai da nossa pátria ordenou que estas palavras fossem lidas ao povo: "Que fique dito para o mundo futuro (...) que no Inverno mais profundo, quando nada senão a esperança e a virtude conseguiam sobreviver (...) que a cidade e o país, alarmados por um perigo comum, acorreram para o enfrentar".
América. Diante dos nossos perigos comuns, neste Inverno de provação, lembremo-nos destas palavras intemporais. Com esperança e virtude, vamos desafiar uma vez mais as correntes geladas e suportar as tempestades que vierem. Que possa ser dito pelos filhos dos nossos filhos que quando fomos postos à prova, nos recusámos a permitir que esta jornada terminasse, que não virámos as costas nem vacilámos; e com os olhos fixos no horizonte e com a graça de Deus, levámos por diante essa grande dádiva da liberdade e a entregámos em segurança às futuras gerações.
Thursday, January 22, 2009
Monday, January 12, 2009
MIDDLE EAST - OS BONS, OS MAUS E OS VILÕES
“O que é bom a gente divulga, o que é ruim a gente esconde.” Rubens Ricúpero
Esta inconfidência de Rubens Ricupero, homem forte da CNUCED, saiu-lhe quando era Ministro da Fazenda da República Federativa dos Estados Unidos do Brasil. Pensava estar falando off record, enquanto se aguardava sinal de satélite para uma entrevista com uma cadeia de televisão. Claro está que tal confissão lhe custou o cargo, muitos amargos de boca e alguns problemas de saúde. Prova de que há verdades e verdades e uma luzinha para ajudar a entender porque as verdades inconvenientes são caladas na boca. Porque em saindo… É por isso que se deve ter uma tal asserção sempre presente quando se consomem produtos dos mídia, mormente quando o assunto é o conflito do Oriente Médio, o tal que opõe árabes a judeus.
Constata-se um esforço desmesurado para convencer os consumidores das notícias de que num dos lados estão os bons, os coitados, as vítimas e os senhores da razão (Israel); e que no outro estão os maus, os bandidos armados, gente sem entranhas, agentes de agressões gratuitas, sanha assassina, enfim, terroristas profissionais (Gaza e Cisjordânia).
A verdade verdadeira, porém, é que se está perante um conflito que, no essencial, tem as mesmas determinantes da maior parte dos conflitos armados de que se tem notícia: uma explosiva mistura de interesses ocultos, ambições desmedidas, egos inchados e intolerância em doses maciças.
Se a questão se pode resolver com o mútuo reconhecimento de um estado para os judeus (Israel) e outro para os árabes (a Palestina) e com a divisão de Jerusalém entre os dois lados (ou a outorga de um estatuto especial que a consagre como a Cidade Santa para judeus e árabes), porque é que falhou o processo de Oslo?
A questão sobrevive graças às organizações de intolerantes que, de forma quase ininterrupta, seguem controlando o poder (formal ou informalmente, de forma legítima ou não) em Israel e nos territórios da Cisjordânia e Gaza. São chacais da têmpera de Sharon e companhia e grupos terroristas da extracção do Hamas, Hezbollah e comandita que tudo fazem para perpetuar o conflito, obedecendo a lógicas espúrias e perseguindo objectivos inconfessáveis. O conflito do Médio Oriente vem a ser uma das maiores manifestações de desrespeito para com as populações de uma região de que se tem notícia.
O conflito perpétuo do Médio Oriente e a forma como é tratado nos mass média tendem a fazer com que as pessoas de outros quadrantes cheguem a perder de vista que nesses territórios há gente que não quer que o conflito continue; que nunca quis a guerra; que anela por uma paz duradoura; que poupa para a faculdade dos filhos; que se endivida para ter uma vida decente. Que há filhos que crescem sem pais; viúvas desamparadas; mães que enterram filhos ainda imberbes; famílias inteiras vivendo em permanente sobressalto; homens feitos que nunca viveram o ambiente de paz que, nós por cá, temos para dar e vender. Miúdos que deviam estar de mochila às costas a caminho da escola e que vivem de metralhadora a tiracolo; senhores de meia-idade que deviam estar a gozar a vida e a brincar com os netos, e que são obrigados a regressar às frentes de combate. Jovens que nunca chegam a sentir o prazer da paternidade e homens que nunca vão ter o inefável prazer de ser avô.
Em Israel, na Cisjordânia e em Gaza, mourejam pessoas como nós: pobres, ricos e remediados; analfabetos, alfabetizados, mestres e doutores; crianças, adolescentes, jovens e velhos; objectores de consciência; pediatras, obstetras, pedagogos, professores. Mas a manipulação mediática a que somos submetidos, em permanência, passa, subliminarmente, a ideia de que são territórios povoados unicamente por beligerantes intolerantes, políticos e religiosos.
É preciso deixar claro que o que se passa na região é a imposição de um estado de guerra permanente sobre populações que a mais não almejam senão a um tecto, um emprego, cuidados de saúde e escola para os seus rebentos. Como todos nós. Os civis israelitas e palestinianos vêm a ser, afinal, vítimas. São eles, em boa verdade, os ÚNICOS bons da saga.
E importa também não perder de vista quem são os responsáveis por um tal estado de coisas. Em Israel são políticos radicais que, em nome da pretensa defesa de populações civis, gastam fortunas, que o país não tem, para manterem a «sua» indústria, chegando a liquidar fisicamente quem ouse trilhar o caminho da paz (veja-se o caso de Itzak Rabin); nos territórios da Cisjordânia e Gaza são guerrilheiros radicais que, em nome da indefensável tese da «Palestina aos Palestinianos», concentram todo o seu potencial no aprendizado da fabricação de artefactos de destruição, chegando ao extremo de fabricar mártires pela via do aliciamento de crianças armadas de simples calhaus e que são levadas a defrontar um exército bem treinado e armado até aos dentes. Na verdade, são aventureiros e criminosos, de ambos os lados, que mantêm judeus e árabes, israelitas e palestinianos, em permanente alerta, levando-os a passar boa parte da sua vida escondidos em «bunckers» e a morrer sob escombros de tectos que lhes custaram o que tinham e o que não tinham.
A responsabilidade directa pelo actual estado de coisas deve ser assacada aos políticos israelitas, maximé aos da situação (que se viram confrontados com uma eleição legislativa em um momento em que as sondagens dão maioria à coligação da oposição) e que resolveram lançar uma pré-campanha eleitoral… bélica; e aos senhores de guerra do Hamas, eternamente insatisfeitos com o reconhecimento internacional do estado de Israel. De um lado uns políticos que querem conservar o poder a qualquer custo (não importando o rastro de caos e sofrimento que os seus generais deixam por onde passam); de outro, os terroristas, que, remando contra a maré e em nome de uma Palestina reunificada, bombardeiam cidades limítrofes, a esmo, dando flanco aos radicais israelitas e expondo a população de Gaza a retaliações dolorosíssimas. São estes aventureiros, de um lado e do outro, os MAUS da estória. Indubitavelmente.
E não há como parar esta orgia de explosivos, pólvora, sangue e dor? Claro que há. A base é o reconhecimento do Estado de Israel e do Estado da Palestina. Concomitantemente, deverá ser decidida a sorte de Jerusalém. Sendo considerada cidade-santa tanto pelos árabes como pelos judeus, manda o bom-senso que assim continue: cidade-santa para árabes e judeus, habitada por judeus e árabes, podendo, no limite, ser dividida em duas partes, uma sob a administração da Palestina e outra sob jurisdição de Israel. O reconhecimento internacional (mas, sobretudo, o reconhecimento MÚTUO) dos dois estados; um acordo de não ingerência nos assuntos internos do vizinho; um pacto de não-agressão entre os «novos» estados; uma política de boa vizinhança com todos os países limítrofes; e um plano internacional de apoio à reconstrução, gerido pelo Sistema das Nações Unidas, com financiamento dos Estados Unidos, União Europeia, Japão e quem mais puder, poderiam garantir a paz, a estabilidade e o desenvolvimento no Oriente Médio.
Mas, dirão: isso tudo foi discutido e acordado no processo de Oslo! Discutido, acordado e até se começou a implementar, digo eu. O que não se decidiu (e era imperativo que se decidisse) foi a neutralização dos beligerantes.
Não há Camp David, não há processo de Oslo, não há Begins nem Sadats, Itzaks Rabin, Shimons Perez nem Arafats, que cheguem, se não forem manietados os políticos voluntariosos radicais de Israel e extirpados os Hamas, Hezbollas e comanditas da «nova» Palestina. É preciso, em processo de urgência, neutralizar os políticos e militares judeus que perseguem (ainda que à socapa) o sonho de um Estado israelita livre da presença dos incómodos vizinhos árabes; é preciso, com a mesma urgência, erradicar os terroristas árabes que ainda sonham com uma Palestina reunificada sob a bandeira do Islão. O povo judeu e a Nação israelita precisam do território que ocupam (aliás, para onde iriam se escorraçados da região?); os árabes que integram a Nação que ocupa a faixa de Gaza e a Cisjordânia precisam daqueles territórios mais do que de pão para a boca (e não têm mais para onde ir). E TODOS precisam de PAZ e ESTABILIDADE para trabalharem, crescerem e se desenvolverem.
O único jeito para que isso aconteça, e de forma duradoira, passa pela neutralização permanente dos iníquos senhores de guerra de ambos os lados. E isso só poderá ser conseguido se os financiadores de ambos os lados fecharem as «torneiras» que alimentam os orçamentos de guerra de Israel e do Hamas e comandita. É fechar o financiamento directo às actuais lideranças e abrir os cordões da bolsa em favor do tal plano internacional gerido pelo Sistema das Nações Unidas e virado para o financiamento de programas e projectos de crescimento económico e de desenvolvimento da região.
Cerca de 90% do Orçamento de defesa (diria, melhor, da GUERRA) de Israel é financiado pelos Estados Unidos da América; desconheço a parte do orçamento de guerra do Hamas que é financiada pelos países árabes (e não só), mas não me espantaria nada se se viesse a saber que chega a 100%. Então, a bola (mais esta bola) está do lado de Mr. Barack Obama (Presidente dos Estados Unidos da América) e de Mrs. Hillary Clinton (Secretária de Estado e responsável pela política externa e diplomacia dos USA): cortem o financiamento directo a Israel e lancem uma ofensiva diplomática virada para bloquear o acesso dos grupos terroristas ao financiamento das suas acções de desestabilização. Just do it!
Os bons, os maus e os vilões da saga são de todos conhecidos, mas, infelizmente, as regras de conduta são ditadas pelo cinismo e pela indiferença da comunidade política internacional, sem dúvida a vilã da peça. Preocupa-se com a Humanidade, mas não está nem aí para o Homem que sofre; todo mundo sabe o que se passa mas ninguém age; assobiam e olham para os lados, como se não fosse nada com eles.
Se Mr. Obama conseguir inverter a situação vigente no Oriente Médio tornar-se-á, sem sombras para dúvidas, uma das mais importantes figuras da história universal. De todos os tempos Para competir com ele só, TALVEZ, Moisés. GO AHEAD, MR. OBAMA! YOU CAN!
Esta inconfidência de Rubens Ricupero, homem forte da CNUCED, saiu-lhe quando era Ministro da Fazenda da República Federativa dos Estados Unidos do Brasil. Pensava estar falando off record, enquanto se aguardava sinal de satélite para uma entrevista com uma cadeia de televisão. Claro está que tal confissão lhe custou o cargo, muitos amargos de boca e alguns problemas de saúde. Prova de que há verdades e verdades e uma luzinha para ajudar a entender porque as verdades inconvenientes são caladas na boca. Porque em saindo… É por isso que se deve ter uma tal asserção sempre presente quando se consomem produtos dos mídia, mormente quando o assunto é o conflito do Oriente Médio, o tal que opõe árabes a judeus.
Constata-se um esforço desmesurado para convencer os consumidores das notícias de que num dos lados estão os bons, os coitados, as vítimas e os senhores da razão (Israel); e que no outro estão os maus, os bandidos armados, gente sem entranhas, agentes de agressões gratuitas, sanha assassina, enfim, terroristas profissionais (Gaza e Cisjordânia).
A verdade verdadeira, porém, é que se está perante um conflito que, no essencial, tem as mesmas determinantes da maior parte dos conflitos armados de que se tem notícia: uma explosiva mistura de interesses ocultos, ambições desmedidas, egos inchados e intolerância em doses maciças.
Se a questão se pode resolver com o mútuo reconhecimento de um estado para os judeus (Israel) e outro para os árabes (a Palestina) e com a divisão de Jerusalém entre os dois lados (ou a outorga de um estatuto especial que a consagre como a Cidade Santa para judeus e árabes), porque é que falhou o processo de Oslo?
A questão sobrevive graças às organizações de intolerantes que, de forma quase ininterrupta, seguem controlando o poder (formal ou informalmente, de forma legítima ou não) em Israel e nos territórios da Cisjordânia e Gaza. São chacais da têmpera de Sharon e companhia e grupos terroristas da extracção do Hamas, Hezbollah e comandita que tudo fazem para perpetuar o conflito, obedecendo a lógicas espúrias e perseguindo objectivos inconfessáveis. O conflito do Médio Oriente vem a ser uma das maiores manifestações de desrespeito para com as populações de uma região de que se tem notícia.
O conflito perpétuo do Médio Oriente e a forma como é tratado nos mass média tendem a fazer com que as pessoas de outros quadrantes cheguem a perder de vista que nesses territórios há gente que não quer que o conflito continue; que nunca quis a guerra; que anela por uma paz duradoura; que poupa para a faculdade dos filhos; que se endivida para ter uma vida decente. Que há filhos que crescem sem pais; viúvas desamparadas; mães que enterram filhos ainda imberbes; famílias inteiras vivendo em permanente sobressalto; homens feitos que nunca viveram o ambiente de paz que, nós por cá, temos para dar e vender. Miúdos que deviam estar de mochila às costas a caminho da escola e que vivem de metralhadora a tiracolo; senhores de meia-idade que deviam estar a gozar a vida e a brincar com os netos, e que são obrigados a regressar às frentes de combate. Jovens que nunca chegam a sentir o prazer da paternidade e homens que nunca vão ter o inefável prazer de ser avô.
Em Israel, na Cisjordânia e em Gaza, mourejam pessoas como nós: pobres, ricos e remediados; analfabetos, alfabetizados, mestres e doutores; crianças, adolescentes, jovens e velhos; objectores de consciência; pediatras, obstetras, pedagogos, professores. Mas a manipulação mediática a que somos submetidos, em permanência, passa, subliminarmente, a ideia de que são territórios povoados unicamente por beligerantes intolerantes, políticos e religiosos.
É preciso deixar claro que o que se passa na região é a imposição de um estado de guerra permanente sobre populações que a mais não almejam senão a um tecto, um emprego, cuidados de saúde e escola para os seus rebentos. Como todos nós. Os civis israelitas e palestinianos vêm a ser, afinal, vítimas. São eles, em boa verdade, os ÚNICOS bons da saga.
E importa também não perder de vista quem são os responsáveis por um tal estado de coisas. Em Israel são políticos radicais que, em nome da pretensa defesa de populações civis, gastam fortunas, que o país não tem, para manterem a «sua» indústria, chegando a liquidar fisicamente quem ouse trilhar o caminho da paz (veja-se o caso de Itzak Rabin); nos territórios da Cisjordânia e Gaza são guerrilheiros radicais que, em nome da indefensável tese da «Palestina aos Palestinianos», concentram todo o seu potencial no aprendizado da fabricação de artefactos de destruição, chegando ao extremo de fabricar mártires pela via do aliciamento de crianças armadas de simples calhaus e que são levadas a defrontar um exército bem treinado e armado até aos dentes. Na verdade, são aventureiros e criminosos, de ambos os lados, que mantêm judeus e árabes, israelitas e palestinianos, em permanente alerta, levando-os a passar boa parte da sua vida escondidos em «bunckers» e a morrer sob escombros de tectos que lhes custaram o que tinham e o que não tinham.
A responsabilidade directa pelo actual estado de coisas deve ser assacada aos políticos israelitas, maximé aos da situação (que se viram confrontados com uma eleição legislativa em um momento em que as sondagens dão maioria à coligação da oposição) e que resolveram lançar uma pré-campanha eleitoral… bélica; e aos senhores de guerra do Hamas, eternamente insatisfeitos com o reconhecimento internacional do estado de Israel. De um lado uns políticos que querem conservar o poder a qualquer custo (não importando o rastro de caos e sofrimento que os seus generais deixam por onde passam); de outro, os terroristas, que, remando contra a maré e em nome de uma Palestina reunificada, bombardeiam cidades limítrofes, a esmo, dando flanco aos radicais israelitas e expondo a população de Gaza a retaliações dolorosíssimas. São estes aventureiros, de um lado e do outro, os MAUS da estória. Indubitavelmente.
E não há como parar esta orgia de explosivos, pólvora, sangue e dor? Claro que há. A base é o reconhecimento do Estado de Israel e do Estado da Palestina. Concomitantemente, deverá ser decidida a sorte de Jerusalém. Sendo considerada cidade-santa tanto pelos árabes como pelos judeus, manda o bom-senso que assim continue: cidade-santa para árabes e judeus, habitada por judeus e árabes, podendo, no limite, ser dividida em duas partes, uma sob a administração da Palestina e outra sob jurisdição de Israel. O reconhecimento internacional (mas, sobretudo, o reconhecimento MÚTUO) dos dois estados; um acordo de não ingerência nos assuntos internos do vizinho; um pacto de não-agressão entre os «novos» estados; uma política de boa vizinhança com todos os países limítrofes; e um plano internacional de apoio à reconstrução, gerido pelo Sistema das Nações Unidas, com financiamento dos Estados Unidos, União Europeia, Japão e quem mais puder, poderiam garantir a paz, a estabilidade e o desenvolvimento no Oriente Médio.
Mas, dirão: isso tudo foi discutido e acordado no processo de Oslo! Discutido, acordado e até se começou a implementar, digo eu. O que não se decidiu (e era imperativo que se decidisse) foi a neutralização dos beligerantes.
Não há Camp David, não há processo de Oslo, não há Begins nem Sadats, Itzaks Rabin, Shimons Perez nem Arafats, que cheguem, se não forem manietados os políticos voluntariosos radicais de Israel e extirpados os Hamas, Hezbollas e comanditas da «nova» Palestina. É preciso, em processo de urgência, neutralizar os políticos e militares judeus que perseguem (ainda que à socapa) o sonho de um Estado israelita livre da presença dos incómodos vizinhos árabes; é preciso, com a mesma urgência, erradicar os terroristas árabes que ainda sonham com uma Palestina reunificada sob a bandeira do Islão. O povo judeu e a Nação israelita precisam do território que ocupam (aliás, para onde iriam se escorraçados da região?); os árabes que integram a Nação que ocupa a faixa de Gaza e a Cisjordânia precisam daqueles territórios mais do que de pão para a boca (e não têm mais para onde ir). E TODOS precisam de PAZ e ESTABILIDADE para trabalharem, crescerem e se desenvolverem.
O único jeito para que isso aconteça, e de forma duradoira, passa pela neutralização permanente dos iníquos senhores de guerra de ambos os lados. E isso só poderá ser conseguido se os financiadores de ambos os lados fecharem as «torneiras» que alimentam os orçamentos de guerra de Israel e do Hamas e comandita. É fechar o financiamento directo às actuais lideranças e abrir os cordões da bolsa em favor do tal plano internacional gerido pelo Sistema das Nações Unidas e virado para o financiamento de programas e projectos de crescimento económico e de desenvolvimento da região.
Cerca de 90% do Orçamento de defesa (diria, melhor, da GUERRA) de Israel é financiado pelos Estados Unidos da América; desconheço a parte do orçamento de guerra do Hamas que é financiada pelos países árabes (e não só), mas não me espantaria nada se se viesse a saber que chega a 100%. Então, a bola (mais esta bola) está do lado de Mr. Barack Obama (Presidente dos Estados Unidos da América) e de Mrs. Hillary Clinton (Secretária de Estado e responsável pela política externa e diplomacia dos USA): cortem o financiamento directo a Israel e lancem uma ofensiva diplomática virada para bloquear o acesso dos grupos terroristas ao financiamento das suas acções de desestabilização. Just do it!
Os bons, os maus e os vilões da saga são de todos conhecidos, mas, infelizmente, as regras de conduta são ditadas pelo cinismo e pela indiferença da comunidade política internacional, sem dúvida a vilã da peça. Preocupa-se com a Humanidade, mas não está nem aí para o Homem que sofre; todo mundo sabe o que se passa mas ninguém age; assobiam e olham para os lados, como se não fosse nada com eles.
Se Mr. Obama conseguir inverter a situação vigente no Oriente Médio tornar-se-á, sem sombras para dúvidas, uma das mais importantes figuras da história universal. De todos os tempos Para competir com ele só, TALVEZ, Moisés. GO AHEAD, MR. OBAMA! YOU CAN!
Friday, December 26, 2008
OS LIMONZINHOS DO ULISSES
“Somos o que repetidamente fazemos. A excelência, portanto, não é um feito, mas um hábito.” Aristóteles
No princípio da década de 90 do século passado, a cidade de São Paulo vivia um verdadeiro caos no trânsito urbano. A situação não tinha tanto a ver com a circulação rodoviária, mas, e principalmente, com a questão do estacionamento. Todo mundo estacionava onde lhe dava na veneta.
Corriam o risco de apanhar uma pesada coima por estacionamento irregular? Corriam, claro. Mas qual o grau de probabilidade de um condutor, em 11 milhões, ser "caçado" em infracção ao Código de Estrada? Os condutores apostavam nesse endiabrado jogo de probabilidades e acabavam quase sempre ganhando.
Para ultrapassar o caos, as autoridades lançaram mão da sua criatividade e inventaram os MARRONZINHOS. Os MARRONZINHOS vêm a ser um grupo de jovens recrutados e treinados pela Companhia de Engenharia do Trânsito (CET) da Prefeitura Municipal de São Paulo para auxiliarem a polícia no controlo do trânsito em São Paulo, especialmente nos estacionamentos. Treinaram-nos, vestiram-nos com calções e jaleco em marron e camisetas em amarelo-torrado e lançaram-nos nas ruas da maior cidade da América Latina e uma das maiores metrópoles do Mundo.
Deu logo certo? Certamente que não. Foi difícil para os condutores entenderem que deviam respeito a esses jovens; foi complicado para os policiais militares aceitarem a ajuda desses «meninos»; a opinião pública dividiu-se diante da nova realidade surgida com os MARRONZINHOS (que é como ficaram a ser conhecidos, em razão do modelito em marron que envergavam). Mas, volvidos mesmo de duas décadas sobre a "aterragem" dos marronzinhos em São Paulo, se a situação do trânsito (e dos estacionamentos) não é ainda nenhuma BRASTEMP, ela está, sem dúvida, de longe, muito melhor do que antes. Pode-se falar, com propriedade, de um ANTES e de um DEPOIS dos MARRONZINHOS. Eles contam! Eles interferiram com a balbúrdia! Hoje a brigada de trânsito da polícia militar de São Paulo não se imagina a controlar o tráfego na cidade sem eles. Em Sampa, o pessoal teve imaginação, ousou e fez acontecer.
E por aqui, porque não lançar também mão da imaginação (e alguma inteligência, claro) para resolver algumas questões que afectam a vida dos munícipes da Praia? E tudo leva a crer que Câmara Municipal da Praia está tentando algo parecido.
Ulisses, e equipa, inundaram as ruas do Plateau com uns limonzinhos, na esperança de resolver a velha questão da ausência da autoridade municipal nas ruas e logradouros públicos da cidade e numa tentativa de botar alguma ordem no «galinheiro».
Será que vai dar certo? Vai-se conseguir vincar a presença da autoridade municipal? Vai-se conseguir vencer a ameaça de caos urbano que pende sobre as nossas cabeças, qual espada de Dâmocles? Estarão os limonzinhos destinados a conseguir o sucesso que os marronzinhos alcançaram em São Paulo? Uma boa resposta, uma resposta politicamente correcta, seria do tipo «só o tempo o dirá». Mas não é o caso.
Entre os limonzinhos do Ulisses a gente vê fulanos já com cabelos brancos e pouca disposição para a cobertura do território municipal; indivíduos cheirando a álcool barato; rapazes e raparigas com postura equívoca, fruto de outros carnavais. E já deu para ver limonzinhos namorando vendedoras ambulantes; moedas mudando de mão; colega pedigalizando (de pé-di-galo, mesmo) colega; ajuntamento de limonzinhos nas sombras poucas do Plateau (que vêm a ser as das copas das árvores que crescem atrás da antiga casinha mortuária do Hospital Central e junto ao quiosque do Pó-di-bandêra e as dos botecos do Platô). Outro dia assisti, atónito (depois furioso) um limonzinho prevenindo uma piquena (vendedora ambulante) contra um colega que estaria dobrando a esquina em direcção a eles, referenciando-o como «o Ragalado». E o aviso saiu entremeado de beijinhos na face, no pescoço e nas orelhas da «querida».
Haverá gente bem no grupo recrutado por Correia e Silva e Barbosa Amado? Certamente. E muitos. O dito «Ragalado», por exemplo, é, com certeza, um bom fiscal. E quantos «ragalados» haverá?
O processo de recrutamento e selecção pode ser posto em causa? Não. O cabo-verdiano tem dons histriónicos que enganam qualquer um. E quando a necessidade de emprego aperta, a capacidade de representar atinge o clímax. E qualquer um pode ser enganado.
Como aperfeiçoar o processo de recrutamento e selecção? Como garantir um proceder ético por parte dos limonzinhos? Como melhorar a performance da classe? O que fazer para dignificar a categoria? O que fazer para que os limonzinhos possam contribuir efectivamente para a resolução da questão da ausência da autoridade municipal nas ruas e logradouros públicos da cidade e para botar alguma ordem no território municipal?
Antes de mais, é preciso redefinir o universo de recrutamento dos fiscais, elevando um pouco a fasquia. Chamando a concurso cidadãos habilitados com, pelo menos, o Curso Geral dos liceus, e dando preferência àqueles que tenham maiores habilitações, maior juventude, registo criminal limpo, cadastro policial impoluto e recomendação de anterior empregador, antigo professor ou último comandante.
A selecção deve ser confiada a especialistas. Testes psicotécnicos, entrevistas e dinâmicas de grupo estarão indicados para o despiste dos elementos perniciosos e para garantir a contratação dos melhores (entenda-se com melhor potencial).
A integração e/ou treinamento inicial são indispensáveis. Diria mesmo que constituem a base para a constituição de um bom corpo de fiscais. Treinamento para dar ferramentas para um bom desempenho; manualização dos procedimentos para evitar arbitrariedades, improvisações legais ou o laisser faire. Integração para reconhecimento do território, identificação dos potenciais prevaricadores e para moldar o espírito de corpo. Integração também para apontar os heróis da organização (exemplos a serem seguidos, alguém com quem se pode aprender alguma coisa) e os vilões (maus exemplos, indivíduos de quem se deve manter distância).
A definição de um período probatório com o escopo de afinar a selecção é uma necessidade incontornável. No termo do período, devem ser confirmados, na organização, aqueles cujo potencial desabrochou em desempenho esperado; e dispensam-se os problemáticos e/ou ineptos.
É fundamental o estabelecimento de um plano de carreiras e de um sistema remuneratório equilibrado. E a cobertura por um sistema de previdência social (a inscrição no INPS estaria de bom tamanho, dando alguma tranquilidade em relação às situações de doença, incapacidade e velhice, influiria grandemente na motivação e no comprometimento do agente com a sua missão). Devem constituir-se em estratégias de desenvolvimento profissional dos fiscais, de sua motivação e, sejamos francos, de dignidade para a classe.
A montagem de um mecanismo de avaliação de desempenho e de uma estratégia de fixação dos melhores é uma estratégia que não deve ser descurada. A ideia é ter instalado a capacidade de identificar os problemas de desempenho que podem ser superados pela via da formação e ter a necessária clareza para identificar os excelentes (agentes com desempenho de qualidade, alta motivação e alta capacidade técnica), que devem ser mantidos na organização a qualquer custo; e os pesos mortos/casos perdidos (agentes com mau desempenho, baixa motivação e baixa capacidade técnica) que devem ser desligados da organização.
Só assim teremos os limonzinhos do Ulisses tinindo. A modos de podermos delimitar claramente o ANTES dos limonzinhos e o DEPOIS. Para que eles contem (que nem ‘Ntoni Denti di Ôro)! Para que interfiram com a balbúrdia que frutifica no espaço urbano!
Um bom corpo de fiscais e uma inteligente parceria com a Polícia Nacional podem contribuir decisivamente para a resolução dos principais problemas de ordem e de autoridade no território do município da Capital. De sorte que a ordem municipal fique salvaguardada, caso a Polícia Municipal tarde (ou não venha).
Usemos a imaginação para resolver problemas que só parecem insolúveis diante do nosso pessimismo militante, fruto da nossa preguiça mental.
Praia tem solução, sim senhora, mas, que diabo!, as soluções não têm de ser, todas elas, lineares e ortodoxas.
No princípio da década de 90 do século passado, a cidade de São Paulo vivia um verdadeiro caos no trânsito urbano. A situação não tinha tanto a ver com a circulação rodoviária, mas, e principalmente, com a questão do estacionamento. Todo mundo estacionava onde lhe dava na veneta.
Corriam o risco de apanhar uma pesada coima por estacionamento irregular? Corriam, claro. Mas qual o grau de probabilidade de um condutor, em 11 milhões, ser "caçado" em infracção ao Código de Estrada? Os condutores apostavam nesse endiabrado jogo de probabilidades e acabavam quase sempre ganhando.
Para ultrapassar o caos, as autoridades lançaram mão da sua criatividade e inventaram os MARRONZINHOS. Os MARRONZINHOS vêm a ser um grupo de jovens recrutados e treinados pela Companhia de Engenharia do Trânsito (CET) da Prefeitura Municipal de São Paulo para auxiliarem a polícia no controlo do trânsito em São Paulo, especialmente nos estacionamentos. Treinaram-nos, vestiram-nos com calções e jaleco em marron e camisetas em amarelo-torrado e lançaram-nos nas ruas da maior cidade da América Latina e uma das maiores metrópoles do Mundo.
Deu logo certo? Certamente que não. Foi difícil para os condutores entenderem que deviam respeito a esses jovens; foi complicado para os policiais militares aceitarem a ajuda desses «meninos»; a opinião pública dividiu-se diante da nova realidade surgida com os MARRONZINHOS (que é como ficaram a ser conhecidos, em razão do modelito em marron que envergavam). Mas, volvidos mesmo de duas décadas sobre a "aterragem" dos marronzinhos em São Paulo, se a situação do trânsito (e dos estacionamentos) não é ainda nenhuma BRASTEMP, ela está, sem dúvida, de longe, muito melhor do que antes. Pode-se falar, com propriedade, de um ANTES e de um DEPOIS dos MARRONZINHOS. Eles contam! Eles interferiram com a balbúrdia! Hoje a brigada de trânsito da polícia militar de São Paulo não se imagina a controlar o tráfego na cidade sem eles. Em Sampa, o pessoal teve imaginação, ousou e fez acontecer.
E por aqui, porque não lançar também mão da imaginação (e alguma inteligência, claro) para resolver algumas questões que afectam a vida dos munícipes da Praia? E tudo leva a crer que Câmara Municipal da Praia está tentando algo parecido.
Ulisses, e equipa, inundaram as ruas do Plateau com uns limonzinhos, na esperança de resolver a velha questão da ausência da autoridade municipal nas ruas e logradouros públicos da cidade e numa tentativa de botar alguma ordem no «galinheiro».
Será que vai dar certo? Vai-se conseguir vincar a presença da autoridade municipal? Vai-se conseguir vencer a ameaça de caos urbano que pende sobre as nossas cabeças, qual espada de Dâmocles? Estarão os limonzinhos destinados a conseguir o sucesso que os marronzinhos alcançaram em São Paulo? Uma boa resposta, uma resposta politicamente correcta, seria do tipo «só o tempo o dirá». Mas não é o caso.
Entre os limonzinhos do Ulisses a gente vê fulanos já com cabelos brancos e pouca disposição para a cobertura do território municipal; indivíduos cheirando a álcool barato; rapazes e raparigas com postura equívoca, fruto de outros carnavais. E já deu para ver limonzinhos namorando vendedoras ambulantes; moedas mudando de mão; colega pedigalizando (de pé-di-galo, mesmo) colega; ajuntamento de limonzinhos nas sombras poucas do Plateau (que vêm a ser as das copas das árvores que crescem atrás da antiga casinha mortuária do Hospital Central e junto ao quiosque do Pó-di-bandêra e as dos botecos do Platô). Outro dia assisti, atónito (depois furioso) um limonzinho prevenindo uma piquena (vendedora ambulante) contra um colega que estaria dobrando a esquina em direcção a eles, referenciando-o como «o Ragalado». E o aviso saiu entremeado de beijinhos na face, no pescoço e nas orelhas da «querida».
Haverá gente bem no grupo recrutado por Correia e Silva e Barbosa Amado? Certamente. E muitos. O dito «Ragalado», por exemplo, é, com certeza, um bom fiscal. E quantos «ragalados» haverá?
O processo de recrutamento e selecção pode ser posto em causa? Não. O cabo-verdiano tem dons histriónicos que enganam qualquer um. E quando a necessidade de emprego aperta, a capacidade de representar atinge o clímax. E qualquer um pode ser enganado.
Como aperfeiçoar o processo de recrutamento e selecção? Como garantir um proceder ético por parte dos limonzinhos? Como melhorar a performance da classe? O que fazer para dignificar a categoria? O que fazer para que os limonzinhos possam contribuir efectivamente para a resolução da questão da ausência da autoridade municipal nas ruas e logradouros públicos da cidade e para botar alguma ordem no território municipal?
Antes de mais, é preciso redefinir o universo de recrutamento dos fiscais, elevando um pouco a fasquia. Chamando a concurso cidadãos habilitados com, pelo menos, o Curso Geral dos liceus, e dando preferência àqueles que tenham maiores habilitações, maior juventude, registo criminal limpo, cadastro policial impoluto e recomendação de anterior empregador, antigo professor ou último comandante.
A selecção deve ser confiada a especialistas. Testes psicotécnicos, entrevistas e dinâmicas de grupo estarão indicados para o despiste dos elementos perniciosos e para garantir a contratação dos melhores (entenda-se com melhor potencial).
A integração e/ou treinamento inicial são indispensáveis. Diria mesmo que constituem a base para a constituição de um bom corpo de fiscais. Treinamento para dar ferramentas para um bom desempenho; manualização dos procedimentos para evitar arbitrariedades, improvisações legais ou o laisser faire. Integração para reconhecimento do território, identificação dos potenciais prevaricadores e para moldar o espírito de corpo. Integração também para apontar os heróis da organização (exemplos a serem seguidos, alguém com quem se pode aprender alguma coisa) e os vilões (maus exemplos, indivíduos de quem se deve manter distância).
A definição de um período probatório com o escopo de afinar a selecção é uma necessidade incontornável. No termo do período, devem ser confirmados, na organização, aqueles cujo potencial desabrochou em desempenho esperado; e dispensam-se os problemáticos e/ou ineptos.
É fundamental o estabelecimento de um plano de carreiras e de um sistema remuneratório equilibrado. E a cobertura por um sistema de previdência social (a inscrição no INPS estaria de bom tamanho, dando alguma tranquilidade em relação às situações de doença, incapacidade e velhice, influiria grandemente na motivação e no comprometimento do agente com a sua missão). Devem constituir-se em estratégias de desenvolvimento profissional dos fiscais, de sua motivação e, sejamos francos, de dignidade para a classe.
A montagem de um mecanismo de avaliação de desempenho e de uma estratégia de fixação dos melhores é uma estratégia que não deve ser descurada. A ideia é ter instalado a capacidade de identificar os problemas de desempenho que podem ser superados pela via da formação e ter a necessária clareza para identificar os excelentes (agentes com desempenho de qualidade, alta motivação e alta capacidade técnica), que devem ser mantidos na organização a qualquer custo; e os pesos mortos/casos perdidos (agentes com mau desempenho, baixa motivação e baixa capacidade técnica) que devem ser desligados da organização.
Só assim teremos os limonzinhos do Ulisses tinindo. A modos de podermos delimitar claramente o ANTES dos limonzinhos e o DEPOIS. Para que eles contem (que nem ‘Ntoni Denti di Ôro)! Para que interfiram com a balbúrdia que frutifica no espaço urbano!
Um bom corpo de fiscais e uma inteligente parceria com a Polícia Nacional podem contribuir decisivamente para a resolução dos principais problemas de ordem e de autoridade no território do município da Capital. De sorte que a ordem municipal fique salvaguardada, caso a Polícia Municipal tarde (ou não venha).
Usemos a imaginação para resolver problemas que só parecem insolúveis diante do nosso pessimismo militante, fruto da nossa preguiça mental.
Praia tem solução, sim senhora, mas, que diabo!, as soluções não têm de ser, todas elas, lineares e ortodoxas.
Sunday, December 21, 2008
DO OSCAR AO TABAQUÊRO
“Não existe um homem totalmente inútil; em último caso, serve como mau exemplo.”
Wilson Sanches
Do óscar ao tabaquêro, ou de OBAMA a mugabe, vai todo um mundo. Um mundo que é olimpicamente ignorado. Porquê? Porque o Homem, desde o princípio dos tempos, aclamou o superlativo e abominou (e, não raras vezes, vomitou) o morno. Quente ou gelado; excelente ou péssimo; divina ou puta; Deus ou diabo; céu ou inferno. Extremos.
Salvas honrosas excepções, o que se vê são esforços para identificar «os mais» em cada ano, em cada sector de actividade, em cada século ou milénio. Felizmente, as excepções vão fazendo escola. Hollywood já «distingue» também as patacoadas que por lá se produzem: há o óscar para os melhores e uma nova estatueta para os beras; os tablóides distinguem os melhores em cada ano, mas começaram já a apontar o dedo aos lofas.
Actividades que movimentam multidões apenas distinguem os superlativos positivos: o futebol dá botas e bolas de ouro e prata aos Ronaldos, Eusébio e Pelé, mas não aponta o dedo àqueles que Paulo Bento acusa de não darem o seu melhor; as disciplinas olímpicas dão medalhas de ouro, prata e bronze aos maiores, mas não apõem rótulos visíveis aos que praticam o dopping; a política, que mexe com a vida de milhões de seres humanos, só destaca os melhores, deixando na penumbra os sacripantas que atrapalham a vida dos cidadãos, das nações e do mundo.
É imperativo que identifiquemos e glorifiquemos os nossos heróis, alcandorando-os à posição de paradigmas para a juventude, e não só; mas é também fundamental que, simultaneamente, referenciemos e rotulemos os nossos vilões, deixando claro que são MAUS EXEMPLOS, exemplos a não serem seguidos.
Felizmente que, amiúde, vêm surgindo pessoas criativas que vão dando pistas de como enfrentar a questão, sugerindo saídas para a exposição pública dos vilões. Correu mundo a sapatada que o jovem jornalista iraquiano Muntazer al-Zaidi desferiu contra o Presidente cessante dos Estados Unidos da América; antes, tinha sido a tirada do Rei Juan Carlos, mandando Hugo Chavéz calar a boca (porque não te calas?), a circular de boca em boca por esse mundo globalizado afora; mas o pioneirismo mesmo, esse pertence, pelo menos chez nous, ao meu dilecto amigo Claudino Semedo.
Claudino sugeriu à Câmara Municipal da Praia, através as estruturas da PRÓ-PRAIA, que, a par das medalhas, distinguindo os melhores praienses (entendido aqui como todos os residentes na área metropolitana da Capital) em cada sector de actividade, fosse também instituída a entrega de TABAQUÊROS aos praienses (na mesma acepção da anotação anterior) que por atitudes, posturas e procedimentos (políticos, profissionais ou outros) prejudicarem seus concidadãos ou a qualidade de vida na Capital. As medalhas e os TABAQUÊROS seriam entregues na mesma sessão solene e o facto de num ano se ter recebido um TABAQUÊRO não seria impeditivo de, no ano subsequente, se poder receber uma medalha, à condição de a merecer. E vice-versa: nada impede que um tabaquêrado de um ano seja um medalhado no ano seguinte.
Em 2008, a personalidade do ano, no segmento Mundo, parece que não suscita muitas dúvidas: é BARACK OBAMA. John McCain é, no meu entender e pela lição de democracia que deu quando os resultados foram conhecidos, um digníssimo merecedor da medalha de prata. No Continente a medalha de ouro vai para quem? Nelson Mandela, Julius Nyerere, Kwame N’Krumah, Muhamar Kadhafi, Mia Couto ou outro? No país? Carlos Veiga, D. Arlindo Furtado, Nelson Évora ou a CASA DO CIDADÃO e o NOSi (pelo passo de gigante dado em direcção ao e-governement)? Na Região (Santiago, of course)? Ulisses Correia e Silva e Jacinto Santos, Francisco Tavares e Fernando Tavares (TOCO) ou Orlando Sanches e Orlando Dias? Na Capital? Jacinto Santos (pelo papel na consecução da alternância política na autarquia da Capital), CALÚ & ÂNGELA (pelo empreendedorismo), Ulisses Correia e Silva (pelo esforço de reorganização da Cidade) ou a Moura Company (pela renovação da frota de transportes públicos urbanos de passageiros)? Os citados ou outros, a verdade é que a posição onde hoje nos encontramos é o resultado do esforço de muita gente: políticos, empreendedores, religiosos, cidadãos anónimos. Um pequeno momento de reflexão para buscar identificar «os mais» do ano não há-de ficar mal a ninguém. E aqui fica o repto.
Na pista de Semedo, a par das distinções positivas (p.e. personalidade do ano no Mundo, no Continente, no País, na Região e na Capital) vamos tentar provocar as pessoas levando-as, desta feita, a tentar identificar as pessoas merecedoras de um TABAQUÊRO (para cancã, obviamente)? Legítimo jacarandá, claro.
O TABAQUÊRO para canastrão do ano, a nível mundial, deve ir para robert mugabe, o homem que revelou ao Mundo o ataque químico de que os zimbabueanos foram vítimas (por parte do Governo de Gordon Brown) e que os cientistas confundiram com CÓLERA. Disputam o TABAQUÊRO com mugabe, os senhores de guerra da Somália e do Sudão.
A nível do Continente, e infelizmente, os candidatos são os mesmos. Triste sina a nossa ou somos demasiado duros connosco mesmo? É que os «nomeados» para o TABAQUÊRO de pior do Mundo são todos africanos.
No país, para quem vai o TABAQUÊRO? Um político? Qual? António Monteiro/Mário Moniz, das UCIDes (pela ameaça de cisma em um partido tão pequeno)? Ou Jorge Santos/José Maria Neves (pela crispação política que se vive no país)? Fernando Elísio Freire/Rui Semedo (pelas vezes que se deixaram ultrapassar em dossiers que, aparentemente, conduziam com maestria)?
Na Região (entenda-se a região de Santiago), quem será o digno merecedor do TABAQUÊRO? Políticos? Pedro Alexandre e António Costa Lima? João Baptista Freire e o Comité de Sector de Santa Catarina do PAI? O Sector Urbano do PAI na Capital? Empresários? Os proprietários (e condutores) dos HIACES que não respeitam os passageiros que transportam, ultrapassando a lotação imposta às respectivas viaturas? Aos transportadores de escombros e inertes que estragam as estradas da ilha com os detritos com que vão assinalando o seu percurso, ao mesmo tempo que seguem instalando armadilhas mortais para quem percorra o mesmo caminho, depois deles? Os responsáveis pelo desporto que insistem em privilegiar clubes do Sul, em detrimento dos do Norte, perpetuando o atraso de Santiago Norte? Os responsáveis políticos que mandaram destroçar o pequeno exército de extensionistas rurais, sem dúvida os principais artífices do relativo sucesso dos agricultores de Santiago? Por estes lados há tantos candidatos ao TABAQUÊRO que talvez seja o caso de se distribuírem TABAQUÊROS para todos os que forem sendo nomeados (e mais alguns, à cautela).
Na Capital? Na Capital o TABAQUÊRO vai, ex-aequo:
- Para os Deputados eleitos para o Círculo eleitoral da Praia, por não terem sabido (ou querido) cumprir a Constituição e dotar a Capital do Estatuto administrativo especial, preconizado na Carta Magna;
- Para a Câmara Municipal da Praia, pela pobreza que foi (ou não foi) a decoração da Cidade para a quadra festiva (do Natal e do Final do Ano);
- A Alta Administração das forças de ordem pelo recuo perante as hordas de pequenos traficantes, thugs e triple X (os operacionais são aqui poupados, por razões mais do que óbvias).
Para terminar esta incursão, só resta recomendar uma medalha especial para o Claudino, pela ideia genial; um TABAQUÊRO… para os mariolas que provocaram a CRISE que assola o planeta; e, last but not least, registar os meus sinceros votos de FESTAS FELIZES para todo o Mundo (Cristãos e não Cristãos), com PAZ, AMOR E SAÚDE. De montão.
Salvas honrosas excepções, o que se vê são esforços para identificar «os mais» em cada ano, em cada sector de actividade, em cada século ou milénio. Felizmente, as excepções vão fazendo escola. Hollywood já «distingue» também as patacoadas que por lá se produzem: há o óscar para os melhores e uma nova estatueta para os beras; os tablóides distinguem os melhores em cada ano, mas começaram já a apontar o dedo aos lofas.
Actividades que movimentam multidões apenas distinguem os superlativos positivos: o futebol dá botas e bolas de ouro e prata aos Ronaldos, Eusébio e Pelé, mas não aponta o dedo àqueles que Paulo Bento acusa de não darem o seu melhor; as disciplinas olímpicas dão medalhas de ouro, prata e bronze aos maiores, mas não apõem rótulos visíveis aos que praticam o dopping; a política, que mexe com a vida de milhões de seres humanos, só destaca os melhores, deixando na penumbra os sacripantas que atrapalham a vida dos cidadãos, das nações e do mundo.
É imperativo que identifiquemos e glorifiquemos os nossos heróis, alcandorando-os à posição de paradigmas para a juventude, e não só; mas é também fundamental que, simultaneamente, referenciemos e rotulemos os nossos vilões, deixando claro que são MAUS EXEMPLOS, exemplos a não serem seguidos.
Felizmente que, amiúde, vêm surgindo pessoas criativas que vão dando pistas de como enfrentar a questão, sugerindo saídas para a exposição pública dos vilões. Correu mundo a sapatada que o jovem jornalista iraquiano Muntazer al-Zaidi desferiu contra o Presidente cessante dos Estados Unidos da América; antes, tinha sido a tirada do Rei Juan Carlos, mandando Hugo Chavéz calar a boca (porque não te calas?), a circular de boca em boca por esse mundo globalizado afora; mas o pioneirismo mesmo, esse pertence, pelo menos chez nous, ao meu dilecto amigo Claudino Semedo.
Claudino sugeriu à Câmara Municipal da Praia, através as estruturas da PRÓ-PRAIA, que, a par das medalhas, distinguindo os melhores praienses (entendido aqui como todos os residentes na área metropolitana da Capital) em cada sector de actividade, fosse também instituída a entrega de TABAQUÊROS aos praienses (na mesma acepção da anotação anterior) que por atitudes, posturas e procedimentos (políticos, profissionais ou outros) prejudicarem seus concidadãos ou a qualidade de vida na Capital. As medalhas e os TABAQUÊROS seriam entregues na mesma sessão solene e o facto de num ano se ter recebido um TABAQUÊRO não seria impeditivo de, no ano subsequente, se poder receber uma medalha, à condição de a merecer. E vice-versa: nada impede que um tabaquêrado de um ano seja um medalhado no ano seguinte.
Em 2008, a personalidade do ano, no segmento Mundo, parece que não suscita muitas dúvidas: é BARACK OBAMA. John McCain é, no meu entender e pela lição de democracia que deu quando os resultados foram conhecidos, um digníssimo merecedor da medalha de prata. No Continente a medalha de ouro vai para quem? Nelson Mandela, Julius Nyerere, Kwame N’Krumah, Muhamar Kadhafi, Mia Couto ou outro? No país? Carlos Veiga, D. Arlindo Furtado, Nelson Évora ou a CASA DO CIDADÃO e o NOSi (pelo passo de gigante dado em direcção ao e-governement)? Na Região (Santiago, of course)? Ulisses Correia e Silva e Jacinto Santos, Francisco Tavares e Fernando Tavares (TOCO) ou Orlando Sanches e Orlando Dias? Na Capital? Jacinto Santos (pelo papel na consecução da alternância política na autarquia da Capital), CALÚ & ÂNGELA (pelo empreendedorismo), Ulisses Correia e Silva (pelo esforço de reorganização da Cidade) ou a Moura Company (pela renovação da frota de transportes públicos urbanos de passageiros)? Os citados ou outros, a verdade é que a posição onde hoje nos encontramos é o resultado do esforço de muita gente: políticos, empreendedores, religiosos, cidadãos anónimos. Um pequeno momento de reflexão para buscar identificar «os mais» do ano não há-de ficar mal a ninguém. E aqui fica o repto.
Na pista de Semedo, a par das distinções positivas (p.e. personalidade do ano no Mundo, no Continente, no País, na Região e na Capital) vamos tentar provocar as pessoas levando-as, desta feita, a tentar identificar as pessoas merecedoras de um TABAQUÊRO (para cancã, obviamente)? Legítimo jacarandá, claro.
O TABAQUÊRO para canastrão do ano, a nível mundial, deve ir para robert mugabe, o homem que revelou ao Mundo o ataque químico de que os zimbabueanos foram vítimas (por parte do Governo de Gordon Brown) e que os cientistas confundiram com CÓLERA. Disputam o TABAQUÊRO com mugabe, os senhores de guerra da Somália e do Sudão.
A nível do Continente, e infelizmente, os candidatos são os mesmos. Triste sina a nossa ou somos demasiado duros connosco mesmo? É que os «nomeados» para o TABAQUÊRO de pior do Mundo são todos africanos.
No país, para quem vai o TABAQUÊRO? Um político? Qual? António Monteiro/Mário Moniz, das UCIDes (pela ameaça de cisma em um partido tão pequeno)? Ou Jorge Santos/José Maria Neves (pela crispação política que se vive no país)? Fernando Elísio Freire/Rui Semedo (pelas vezes que se deixaram ultrapassar em dossiers que, aparentemente, conduziam com maestria)?
Na Região (entenda-se a região de Santiago), quem será o digno merecedor do TABAQUÊRO? Políticos? Pedro Alexandre e António Costa Lima? João Baptista Freire e o Comité de Sector de Santa Catarina do PAI? O Sector Urbano do PAI na Capital? Empresários? Os proprietários (e condutores) dos HIACES que não respeitam os passageiros que transportam, ultrapassando a lotação imposta às respectivas viaturas? Aos transportadores de escombros e inertes que estragam as estradas da ilha com os detritos com que vão assinalando o seu percurso, ao mesmo tempo que seguem instalando armadilhas mortais para quem percorra o mesmo caminho, depois deles? Os responsáveis pelo desporto que insistem em privilegiar clubes do Sul, em detrimento dos do Norte, perpetuando o atraso de Santiago Norte? Os responsáveis políticos que mandaram destroçar o pequeno exército de extensionistas rurais, sem dúvida os principais artífices do relativo sucesso dos agricultores de Santiago? Por estes lados há tantos candidatos ao TABAQUÊRO que talvez seja o caso de se distribuírem TABAQUÊROS para todos os que forem sendo nomeados (e mais alguns, à cautela).
Na Capital? Na Capital o TABAQUÊRO vai, ex-aequo:
- Para os Deputados eleitos para o Círculo eleitoral da Praia, por não terem sabido (ou querido) cumprir a Constituição e dotar a Capital do Estatuto administrativo especial, preconizado na Carta Magna;
- Para a Câmara Municipal da Praia, pela pobreza que foi (ou não foi) a decoração da Cidade para a quadra festiva (do Natal e do Final do Ano);
- A Alta Administração das forças de ordem pelo recuo perante as hordas de pequenos traficantes, thugs e triple X (os operacionais são aqui poupados, por razões mais do que óbvias).
Para terminar esta incursão, só resta recomendar uma medalha especial para o Claudino, pela ideia genial; um TABAQUÊRO… para os mariolas que provocaram a CRISE que assola o planeta; e, last but not least, registar os meus sinceros votos de FESTAS FELIZES para todo o Mundo (Cristãos e não Cristãos), com PAZ, AMOR E SAÚDE. De montão.
Monday, December 15, 2008
TO SANTA CLAUS
“As religiões são fundadas no medo de muitos e na esperteza de poucos.”
Stendhal
Velho amigo e fantástico Senhor,
Serve esta para pedir a sua intercessão para que uns compatriotas meus, muito especiais, possam ter um Feliz Natal e um Ano Novo durante o qual possam ver os seus sonhos mais secretos se realizarem.
Há-de se lembrar que eu nunca fui de lhe pedir nada. Correcção: pedi até ao momento em que reparei que o senhor levava os melhores brinquedos aos miúdos cujos pais podiam comprar os melhores brinquedos. Criança ainda pude entender que um velhote tão simpático não podia ser cultor de uma tão estulta preporância (de prepotência + arrogância, mesmo), ser um reles cavador de fosso entre ricos e pobres. Um absurdo, isso. Quem daria guloseimas admiráveis, brinquedos de sonho e jogos fantásticos, para miúdos cujos pais tinham grande poder de compra; brinquedinhos baratos, queques simples e muita imaginação, para aqueles cujos pais tinham pouco; e nada, fome e frio, para as desgraçadas crianças filhas de pais desgraçados, sem salário, sem emprego, sem sorte, nem solidariedade? Quem? A conclusão lógica, que entrava pelos olhos adentro, era que o senhor trabalhava para uma empresa do ramo de entregas. E como tal, entregava as encomendas nos endereços certos. Vez por outra poderia calhar uma entrega por engano, mas como quando emergi neste vale de lágrimas já o amigo tinha barbas brancas, o mais certo seria não lhe perdoarem erros de principiante.
Ficamos, pois, em que nunca me deu mais, nem melhor, do que o senhor Ludgero, meu pai, dona Lídia, minha mãe, dona Sílvia, minha madrinha, tio Avelino, meu padrinho, ou nhâ Mariazinha minha avó, lhe incumbiram de me entregar. Eu nunca esperei mais do que isso; o amigo me entregava exactamente isso. Por isso, sempre estivemos quites.
Mais tarde, passei a contratar os seus magníficos serviços. Durante anos, sempre pelo Natal, utilizei os serviços da sua empresa de entregas para depositar brinquedos, jogos e guloseimas na chaminé de dona Paula e nas meias do Kwami, da Aïcha, do Tony e, ultimamente, nas da Paulinha.
Há-de estar a perguntar o porquê de tantos rodeios. É que quero, agora, homem feito, fazer-lhe um pedido. Repare bem: fazer-lhe um pedido e não encomendar-lhe um serviço. Posso pedir?
Cá vai, velho amigo e fantástico senhor. Quero que coloque nas chaminés e nas meias de uns conhecidos meus uma prenda sui generis. Já ouviu falar do processo de revisão da Constituição política da República de Cabo Verde? Não diga que não. Espreitei o seu canhenho e vi lá anotados pedidos de muitos conhecidos meus. Do Nhelas Bacelar, do Nhoné da Silva, e de muitos mais. Pois é. Então? Gravador preparado?
Vou querer para o Nhelas, para o Nhoné, e para o resto da malta, que a Constituição política da República de Cabo Verde apareça revista nos moldes seguintes, conforme os artigos abaixo:
1. Artigo 10º: que a Capital da República passe a ser a Cidade do Mindelo, na ilha de Sanvicente e que, em decorrência da nova função, passe a ter um estatuto político-administrativo especial, nos termos da lei;
2. Artigo 42º: que se possa invadir o domicílio de qualquer cidadão, a qualquer hora da noite ou do dia, sem mandato judicial. Excepção feita aos políticos profissionais, familiares e amásias; empresários que financiem os partidos; e traficantes;
3. Artigo 43º: fica permitido aos superiores hierárquicos, de qualquer nível, invadir as caixas de correio electrónico de seus subordinados, sempre que suspeitem que este não os tenha em grande conta;
4. Artigo 54º: que o direito de participação na vida política fique reservada apenas às cabo-verdianas e aos cabo-verdianos que tenham problemas das vias respiratórias superiores (p.e. resfriados permanentes, sinusites e rinites crónicas) e tenham estômago muito forte;
5. Artigo 78º: todos têm direito à cultura, mas uns têm mais direitos do que outros; para garantir a diferença entre os iguais e os mais iguais, incumbe ao Estado reforçar as assimetrias e promover a desigualdade entre as parcelas tradicionalmente mais cultas e as culturas emergentes, mormente as de cunho africano;
6. Artigo 114º: o número de deputados por colégio eleitoral continua a ser proporcional ao número de eleitores inscritos, mas nenhum círculo ou ilha pode ter mais mandatos do que o círculo especial que engloba a nova capital da República;
7. Artigo 118º: são órgãos de soberania o Presidente da República, o Senado, a Câmara dos Deputados, o Governo e os Tribunais; no Senado todas as ilhas serão representadas por 2 senadores, à excepção da ilha que alberga a nova Capital, a qual, como compensação pela capitalidade, elege 4 Senadores;
8. Artigo 124º: sempre que for eleito para Presidente da República um cidadão que não tenha domicílio eleitoral ou não tenha nascido na ilha que alberga a nova Capital, o próximo Presidente terá de ser, obrigatoriamente, um cidadão com domicílio ou umbigo registados na ilha que alberga a nova Capital;
9. Artigo 139º: os cidadãos cabo-verdianos são representados pelas assembleias das duas Câmaras parlamentares, as quais se organizam verticalmente;
10. Artigo 140º: o Senado tem um total de 20 Senadores e a Câmara de Deputados um máximo de 52, sendo que a emigração elegerá sempre 6 deputados;
11. Artigo 227º: as autarquias locais são as regiões político-administrativas e os municípios, podendo a lei estabelecer outras categorias de grau inferior ao município;
12. Artigo 258º: não podem ser objecto de revisão, de entre outras normas, as que determinam a localização da Capital da República e o seu estatuto político especial; a composição do Senado; a regionalização política; e as demais que, na Constituição revista, outorguem prerrogativas e regalias especiais para a região política especial da Capital e para a ilha que a alberga.
Só mais um pedido, meu velho: não quero que nem o Nhelas, nem o Nhoné, nem nenhum dos rapazes saibam que as prendas foram a meu pedido. De tão insistentes que têm sido, pelas cedências que têm feito, à cata de uma tal recompensa, receberiam as prendas - agora dadas de mão beijada - com alguma desconfiança. Sejamos francos Pai Natal: com muita desconfiança, mesmo. É que quando a esmola é muita o santo desconfia. Mas acredite, senhor. É de coração.
Ficaria por aqui, velho amigo e fantástico senhor, não fosse poder parecer deselegante mandar tantas prendas a uns simples conhecidos e não dar nenhum cavaco aos meus presidentes, senhores João José Almeida Gomes, Presidente da PRÓ-PRAIA e José Ulisses Correia e Silva, Presidente da Câmara Municipal da Praia. Para eles, entregue, por favor, cópias da lista das prendas enviadas ao Nhelas Bacelar e companhia limitada. Quem sabe, um dia me perdoem tamanha prodigalidade.
Seu admirador, SEMPRE,
Antoninho
Serve esta para pedir a sua intercessão para que uns compatriotas meus, muito especiais, possam ter um Feliz Natal e um Ano Novo durante o qual possam ver os seus sonhos mais secretos se realizarem.
Há-de se lembrar que eu nunca fui de lhe pedir nada. Correcção: pedi até ao momento em que reparei que o senhor levava os melhores brinquedos aos miúdos cujos pais podiam comprar os melhores brinquedos. Criança ainda pude entender que um velhote tão simpático não podia ser cultor de uma tão estulta preporância (de prepotência + arrogância, mesmo), ser um reles cavador de fosso entre ricos e pobres. Um absurdo, isso. Quem daria guloseimas admiráveis, brinquedos de sonho e jogos fantásticos, para miúdos cujos pais tinham grande poder de compra; brinquedinhos baratos, queques simples e muita imaginação, para aqueles cujos pais tinham pouco; e nada, fome e frio, para as desgraçadas crianças filhas de pais desgraçados, sem salário, sem emprego, sem sorte, nem solidariedade? Quem? A conclusão lógica, que entrava pelos olhos adentro, era que o senhor trabalhava para uma empresa do ramo de entregas. E como tal, entregava as encomendas nos endereços certos. Vez por outra poderia calhar uma entrega por engano, mas como quando emergi neste vale de lágrimas já o amigo tinha barbas brancas, o mais certo seria não lhe perdoarem erros de principiante.
Ficamos, pois, em que nunca me deu mais, nem melhor, do que o senhor Ludgero, meu pai, dona Lídia, minha mãe, dona Sílvia, minha madrinha, tio Avelino, meu padrinho, ou nhâ Mariazinha minha avó, lhe incumbiram de me entregar. Eu nunca esperei mais do que isso; o amigo me entregava exactamente isso. Por isso, sempre estivemos quites.
Mais tarde, passei a contratar os seus magníficos serviços. Durante anos, sempre pelo Natal, utilizei os serviços da sua empresa de entregas para depositar brinquedos, jogos e guloseimas na chaminé de dona Paula e nas meias do Kwami, da Aïcha, do Tony e, ultimamente, nas da Paulinha.
Há-de estar a perguntar o porquê de tantos rodeios. É que quero, agora, homem feito, fazer-lhe um pedido. Repare bem: fazer-lhe um pedido e não encomendar-lhe um serviço. Posso pedir?
Cá vai, velho amigo e fantástico senhor. Quero que coloque nas chaminés e nas meias de uns conhecidos meus uma prenda sui generis. Já ouviu falar do processo de revisão da Constituição política da República de Cabo Verde? Não diga que não. Espreitei o seu canhenho e vi lá anotados pedidos de muitos conhecidos meus. Do Nhelas Bacelar, do Nhoné da Silva, e de muitos mais. Pois é. Então? Gravador preparado?
Vou querer para o Nhelas, para o Nhoné, e para o resto da malta, que a Constituição política da República de Cabo Verde apareça revista nos moldes seguintes, conforme os artigos abaixo:
1. Artigo 10º: que a Capital da República passe a ser a Cidade do Mindelo, na ilha de Sanvicente e que, em decorrência da nova função, passe a ter um estatuto político-administrativo especial, nos termos da lei;
2. Artigo 42º: que se possa invadir o domicílio de qualquer cidadão, a qualquer hora da noite ou do dia, sem mandato judicial. Excepção feita aos políticos profissionais, familiares e amásias; empresários que financiem os partidos; e traficantes;
3. Artigo 43º: fica permitido aos superiores hierárquicos, de qualquer nível, invadir as caixas de correio electrónico de seus subordinados, sempre que suspeitem que este não os tenha em grande conta;
4. Artigo 54º: que o direito de participação na vida política fique reservada apenas às cabo-verdianas e aos cabo-verdianos que tenham problemas das vias respiratórias superiores (p.e. resfriados permanentes, sinusites e rinites crónicas) e tenham estômago muito forte;
5. Artigo 78º: todos têm direito à cultura, mas uns têm mais direitos do que outros; para garantir a diferença entre os iguais e os mais iguais, incumbe ao Estado reforçar as assimetrias e promover a desigualdade entre as parcelas tradicionalmente mais cultas e as culturas emergentes, mormente as de cunho africano;
6. Artigo 114º: o número de deputados por colégio eleitoral continua a ser proporcional ao número de eleitores inscritos, mas nenhum círculo ou ilha pode ter mais mandatos do que o círculo especial que engloba a nova capital da República;
7. Artigo 118º: são órgãos de soberania o Presidente da República, o Senado, a Câmara dos Deputados, o Governo e os Tribunais; no Senado todas as ilhas serão representadas por 2 senadores, à excepção da ilha que alberga a nova Capital, a qual, como compensação pela capitalidade, elege 4 Senadores;
8. Artigo 124º: sempre que for eleito para Presidente da República um cidadão que não tenha domicílio eleitoral ou não tenha nascido na ilha que alberga a nova Capital, o próximo Presidente terá de ser, obrigatoriamente, um cidadão com domicílio ou umbigo registados na ilha que alberga a nova Capital;
9. Artigo 139º: os cidadãos cabo-verdianos são representados pelas assembleias das duas Câmaras parlamentares, as quais se organizam verticalmente;
10. Artigo 140º: o Senado tem um total de 20 Senadores e a Câmara de Deputados um máximo de 52, sendo que a emigração elegerá sempre 6 deputados;
11. Artigo 227º: as autarquias locais são as regiões político-administrativas e os municípios, podendo a lei estabelecer outras categorias de grau inferior ao município;
12. Artigo 258º: não podem ser objecto de revisão, de entre outras normas, as que determinam a localização da Capital da República e o seu estatuto político especial; a composição do Senado; a regionalização política; e as demais que, na Constituição revista, outorguem prerrogativas e regalias especiais para a região política especial da Capital e para a ilha que a alberga.
Só mais um pedido, meu velho: não quero que nem o Nhelas, nem o Nhoné, nem nenhum dos rapazes saibam que as prendas foram a meu pedido. De tão insistentes que têm sido, pelas cedências que têm feito, à cata de uma tal recompensa, receberiam as prendas - agora dadas de mão beijada - com alguma desconfiança. Sejamos francos Pai Natal: com muita desconfiança, mesmo. É que quando a esmola é muita o santo desconfia. Mas acredite, senhor. É de coração.
Ficaria por aqui, velho amigo e fantástico senhor, não fosse poder parecer deselegante mandar tantas prendas a uns simples conhecidos e não dar nenhum cavaco aos meus presidentes, senhores João José Almeida Gomes, Presidente da PRÓ-PRAIA e José Ulisses Correia e Silva, Presidente da Câmara Municipal da Praia. Para eles, entregue, por favor, cópias da lista das prendas enviadas ao Nhelas Bacelar e companhia limitada. Quem sabe, um dia me perdoem tamanha prodigalidade.
Seu admirador, SEMPRE,
Antoninho
Wednesday, December 3, 2008
DELFINATO: PROBLEMA OU SOLUÇÃO?
“Ralham-te? - Não te zangues, como te aconselha a tua soberba. - Pensa: que caridade têm para comigo! Quanto não, ter-se-iam calado!”
Pensava eu que essa de delfinatos já era. Primo, porque delfim não rima com democracia. Secundo, porque com o espírito de competição que se instalou nas democracias que conhecemos não é compatível com a existência de «dinastias», nem mesmo encapotadas. Terço, porque a questão da sucessão é um assunto sério que exige planeamento, forte investimento na incubadora de lideranças e criação de espaço para debate de ideias, não podendo, por isso mesmo, ser ditada por nenhum tipo de apadrinhamento ou por mera afinidade entre o substituído e o substituto.
Cá entre nós, sempre pensei que, caído o regime de partido-estado, não mais haveria espaço para a prática do delfinato. «Quem quer uste, que lhe custe», diz o vulgo. «Quem tem unhas é que toca guitarra», diria o portuguesinho.
Mas, logo, no primeiro Congresso após a derrota de 13/01/91, Aristides Raimundo Lima acederia ao posto de Secretário-Geral do PAI, pelas mãos de Pedro Pires. Tido como o delfim deste último, cedo surgiram algumas dúvidas sobre a capacidade de Lima para combater o movimento rabentola, detentor de um discurso virulento e que decidira pela eliminação ternurenta do que chamavam o «partido velho». Até Pires teve dúvidas. Aliás, que casta de padrinho lançaria o afilhado assim às feras?! Assim, faz de Lima Secretário-Geral do partido, mas, à cautela, institui o cargo de Presidente de honra que reserva para si próprio. O delfim estava protegido.
Mas Lima não resiste à investida ventoinha. Pires é obrigado a voltar à ribalta. Estatutariamente, o chefe do partido deixa de ser o SG e passa a designar-se Presidente. Desaparece o posto honorífico, que fora desenhado à imagem e semelhança de Pedro Pires.
Mas Pires tem uma grande surpresa. Ele, que colocara um seu delfim na chefia política do partido, vê-se a braços com um problema completamente novo no PAI: é desafiado por um miúdo oriundo das fileiras da JAAC-CV e dos bancos da Escola de Administração da Fundação Getúlio Vargas, de seu nome José Maria Pereira Neves. A surpresa é tanta, e tão ameaçadora do status quo, que Pires não enfrenta José Maria sozinho. Rodeia-se de três Vice-Presidentes (uma curiosa combinação intergeracional, com Silvino Manuel da Luz, um peso pesado da velha guarda, e os jovens activistas Felisberto Alves Vieira e Manuel Pinto Frederico). Neves não se acobarda e diz, para quem quis ouvir, que respeitava Pires e o seu percurso político, mas que o velho Comandante era chão que já dera uvas, bananeira que já dera cacho. Que não tinha mais nada a dar para Cabo Verde. Era um apelo forte para um voto de confiança na sua juventude.
José Maria perde o pleito, mas ganha a pole position para os embates do futuro. Soube logo que tinha posto em causa não só o delfinato de Pires, como a própria velha guarda do seu partido, composta, na sua maioria por combatentes das frentes da Guiné.
Não estranhou nada que, em 2000, em um Congresso que o próprio Neves achava desnecessário, este se tenha elegido Presidente do PAI. Foi um golpe decisivo no sistema de delfinato. Pires deixa Felisberto (seu delfim e seu Vice-presidente) à sua sorte. Diz quem sabe (parece ser mais uma lenda urbana, mas, who knows?!) que, interpelado porque não aparecia a apoiar a lista F, liderada por um seu delfim e recheado de piristas, Pires teria respondido desta forma enigmática: Não é Primeiro-ministro quem quer. Para bom entendedor…
Mas estranhou que um jacobino como Veiga não tivesse aprendido a lição do seu adversário de estimação. Nesse mesmo ano, na altura em deixava a liderança do partido e do Governo para embarcar na aventura presidencial, não hesitou e fez-se substituir por um seu delfim, de seu nome, António Gualberto do Rosário. O delfim viria a falhar em toda a linha. O preterido Jacinto Santos não tem a fleuma de José Maria Neves. Bate com a porta e vai fundar um novo partido. E, desde então, o partido não se encontra. Alinha sucessivas vitórias nas eleições locais, mas falha o alvo quando a questão é ganhar uma maioria, um Governo ou um Presidente. Por essas bandas creio que o delfinato já era. Foi de muito triste memória.
Contava que, agora, quando a disputa por lugares elegíveis, por cargos de destaque e por outras prebendas, se tornou tão acirrada; após as experiências (nada agradáveis, por sinal) do PAI e do MpD, num passado recentíssimo, acreditava piamente que delfins, nunca mais. Ledo engano.
E isso, confesso, me deixa confuso. Se os dois maiores (para não dizer os únicos) partidos do cenário nacional tiveram “viagens” desagradáveis de cada vez que ensaiaram a substituição do líder pelo seu delfim, porque cargas de água um deles parece estar agora decidido a repetir a dose?
Porque se Manuel Inocêncio Sousa diz que só sai do Governo quando lhe aprouver (confesso que não ouvi directamente da boca dele, mas li e foi-me contado por gente acima de qualquer suspeita), isso só pode significar que tem garantias do Primeiro-ministro, a outra pessoa que poderia fazê-lo sair. É que ele é peremptório: DAQUI NÃO SAIO, DAQUI NINGUEM ME TIRA. E isso soa a discurso de delfim. Delfim velho, discurso inoportuno, mas, quand même, discurso dinástico. Se não, o que mais justificaria a atitude de Inocêncio Sousa? O que lhe daria tamanhas garantias?
Declaração tão musculada quanto a de Inocêncio, só ouvira ainda de Paulo Portas, Presidente do CDS/PP e Ministro de Estado e da Defesa do Governo de José Manuel Durão Barroso (coligação PPD/PSD – CDS/PP). Em plena crise da Universidade MODERNA, quando todo o mundo pedia a sua cabeça, porque envolvido até às orelhas no escândalo, eis que Portas, do alto dos 9% do CDS/PP (ou seriam 6?), declara: EU SÓ SAIO DO GOVERNO QUANDO QUISER. Mas Portas estava fazendo, claramente, uma manifestação de força. Chantageava Barroso, descaradamente: SE ME AFASTARES DO GOVERO, RETIRO O CDS DA COLIGAÇÃO E FICAS SEM MAIORIA PARA GOVERNAR. O QUE DECIDES? É PEGAR OU LARGAR.
Terá Inocêncio cacife para desafiar José Maria Neves, de forma tão ostensiva? Pode fazer cair o Governo de JMN? Ou tem a maçonaria do seu lado e JMN conta com o seu apadrinhamento para entrar também? Pessoalmente, estou em crer que a atitude, a postura e o comportamento de Inocêncio são de alguém que se sabe garantido ao mais alto nível. E uma tal garantia só pode vir de José Maria Neves.
Mas mesmo sendo esse o caso, Inocêncio está equivocado. Não sai quando quer. É que o protector pode deixar cair o protegido (o delfim, o afilhado) num estalar de dedos. Like that. É o delfim que depende do padrinho e não o contrário. Talvez lhe valesse de algo investigar para ficar a saber como é que Zé Maria ultrapassou Filú sem que Pires mexesse um dedo; como Filú ficou chateado si quando ouviu, pela comunicação social, que o padrinho, contra todos os sinais (não teriam sido, antes, garantias?) que lhe dera, iria bisar na corrida presidencial (2006).
Agora, por exemplo, bastaria que Neves revisse os resultados conseguidos pelos delfins cá de casa, reavaliasse as garantias dadas a Inocêncio e se decidisse pelo encerramento, com chave de oiro, da era dos delfinatos, deixando cair o «seu» delfim. Para que aprenda a não desconversar.
Josemaría Escrivá
Pensava eu que essa de delfinatos já era. Primo, porque delfim não rima com democracia. Secundo, porque com o espírito de competição que se instalou nas democracias que conhecemos não é compatível com a existência de «dinastias», nem mesmo encapotadas. Terço, porque a questão da sucessão é um assunto sério que exige planeamento, forte investimento na incubadora de lideranças e criação de espaço para debate de ideias, não podendo, por isso mesmo, ser ditada por nenhum tipo de apadrinhamento ou por mera afinidade entre o substituído e o substituto.
Cá entre nós, sempre pensei que, caído o regime de partido-estado, não mais haveria espaço para a prática do delfinato. «Quem quer uste, que lhe custe», diz o vulgo. «Quem tem unhas é que toca guitarra», diria o portuguesinho.
Mas, logo, no primeiro Congresso após a derrota de 13/01/91, Aristides Raimundo Lima acederia ao posto de Secretário-Geral do PAI, pelas mãos de Pedro Pires. Tido como o delfim deste último, cedo surgiram algumas dúvidas sobre a capacidade de Lima para combater o movimento rabentola, detentor de um discurso virulento e que decidira pela eliminação ternurenta do que chamavam o «partido velho». Até Pires teve dúvidas. Aliás, que casta de padrinho lançaria o afilhado assim às feras?! Assim, faz de Lima Secretário-Geral do partido, mas, à cautela, institui o cargo de Presidente de honra que reserva para si próprio. O delfim estava protegido.
Mas Lima não resiste à investida ventoinha. Pires é obrigado a voltar à ribalta. Estatutariamente, o chefe do partido deixa de ser o SG e passa a designar-se Presidente. Desaparece o posto honorífico, que fora desenhado à imagem e semelhança de Pedro Pires.
Mas Pires tem uma grande surpresa. Ele, que colocara um seu delfim na chefia política do partido, vê-se a braços com um problema completamente novo no PAI: é desafiado por um miúdo oriundo das fileiras da JAAC-CV e dos bancos da Escola de Administração da Fundação Getúlio Vargas, de seu nome José Maria Pereira Neves. A surpresa é tanta, e tão ameaçadora do status quo, que Pires não enfrenta José Maria sozinho. Rodeia-se de três Vice-Presidentes (uma curiosa combinação intergeracional, com Silvino Manuel da Luz, um peso pesado da velha guarda, e os jovens activistas Felisberto Alves Vieira e Manuel Pinto Frederico). Neves não se acobarda e diz, para quem quis ouvir, que respeitava Pires e o seu percurso político, mas que o velho Comandante era chão que já dera uvas, bananeira que já dera cacho. Que não tinha mais nada a dar para Cabo Verde. Era um apelo forte para um voto de confiança na sua juventude.
José Maria perde o pleito, mas ganha a pole position para os embates do futuro. Soube logo que tinha posto em causa não só o delfinato de Pires, como a própria velha guarda do seu partido, composta, na sua maioria por combatentes das frentes da Guiné.
Não estranhou nada que, em 2000, em um Congresso que o próprio Neves achava desnecessário, este se tenha elegido Presidente do PAI. Foi um golpe decisivo no sistema de delfinato. Pires deixa Felisberto (seu delfim e seu Vice-presidente) à sua sorte. Diz quem sabe (parece ser mais uma lenda urbana, mas, who knows?!) que, interpelado porque não aparecia a apoiar a lista F, liderada por um seu delfim e recheado de piristas, Pires teria respondido desta forma enigmática: Não é Primeiro-ministro quem quer. Para bom entendedor…
Mas estranhou que um jacobino como Veiga não tivesse aprendido a lição do seu adversário de estimação. Nesse mesmo ano, na altura em deixava a liderança do partido e do Governo para embarcar na aventura presidencial, não hesitou e fez-se substituir por um seu delfim, de seu nome, António Gualberto do Rosário. O delfim viria a falhar em toda a linha. O preterido Jacinto Santos não tem a fleuma de José Maria Neves. Bate com a porta e vai fundar um novo partido. E, desde então, o partido não se encontra. Alinha sucessivas vitórias nas eleições locais, mas falha o alvo quando a questão é ganhar uma maioria, um Governo ou um Presidente. Por essas bandas creio que o delfinato já era. Foi de muito triste memória.
Contava que, agora, quando a disputa por lugares elegíveis, por cargos de destaque e por outras prebendas, se tornou tão acirrada; após as experiências (nada agradáveis, por sinal) do PAI e do MpD, num passado recentíssimo, acreditava piamente que delfins, nunca mais. Ledo engano.
E isso, confesso, me deixa confuso. Se os dois maiores (para não dizer os únicos) partidos do cenário nacional tiveram “viagens” desagradáveis de cada vez que ensaiaram a substituição do líder pelo seu delfim, porque cargas de água um deles parece estar agora decidido a repetir a dose?
Porque se Manuel Inocêncio Sousa diz que só sai do Governo quando lhe aprouver (confesso que não ouvi directamente da boca dele, mas li e foi-me contado por gente acima de qualquer suspeita), isso só pode significar que tem garantias do Primeiro-ministro, a outra pessoa que poderia fazê-lo sair. É que ele é peremptório: DAQUI NÃO SAIO, DAQUI NINGUEM ME TIRA. E isso soa a discurso de delfim. Delfim velho, discurso inoportuno, mas, quand même, discurso dinástico. Se não, o que mais justificaria a atitude de Inocêncio Sousa? O que lhe daria tamanhas garantias?
Declaração tão musculada quanto a de Inocêncio, só ouvira ainda de Paulo Portas, Presidente do CDS/PP e Ministro de Estado e da Defesa do Governo de José Manuel Durão Barroso (coligação PPD/PSD – CDS/PP). Em plena crise da Universidade MODERNA, quando todo o mundo pedia a sua cabeça, porque envolvido até às orelhas no escândalo, eis que Portas, do alto dos 9% do CDS/PP (ou seriam 6?), declara: EU SÓ SAIO DO GOVERNO QUANDO QUISER. Mas Portas estava fazendo, claramente, uma manifestação de força. Chantageava Barroso, descaradamente: SE ME AFASTARES DO GOVERO, RETIRO O CDS DA COLIGAÇÃO E FICAS SEM MAIORIA PARA GOVERNAR. O QUE DECIDES? É PEGAR OU LARGAR.
Terá Inocêncio cacife para desafiar José Maria Neves, de forma tão ostensiva? Pode fazer cair o Governo de JMN? Ou tem a maçonaria do seu lado e JMN conta com o seu apadrinhamento para entrar também? Pessoalmente, estou em crer que a atitude, a postura e o comportamento de Inocêncio são de alguém que se sabe garantido ao mais alto nível. E uma tal garantia só pode vir de José Maria Neves.
Mas mesmo sendo esse o caso, Inocêncio está equivocado. Não sai quando quer. É que o protector pode deixar cair o protegido (o delfim, o afilhado) num estalar de dedos. Like that. É o delfim que depende do padrinho e não o contrário. Talvez lhe valesse de algo investigar para ficar a saber como é que Zé Maria ultrapassou Filú sem que Pires mexesse um dedo; como Filú ficou chateado si quando ouviu, pela comunicação social, que o padrinho, contra todos os sinais (não teriam sido, antes, garantias?) que lhe dera, iria bisar na corrida presidencial (2006).
Agora, por exemplo, bastaria que Neves revisse os resultados conseguidos pelos delfins cá de casa, reavaliasse as garantias dadas a Inocêncio e se decidisse pelo encerramento, com chave de oiro, da era dos delfinatos, deixando cair o «seu» delfim. Para que aprenda a não desconversar.
Monday, December 1, 2008
ANTROPOFÁGICO
“Hay que enduricir, pero… sin perder la ternura jamás.”
Ernesto «CHE» Guevara
Ernesto «CHE» Guevara
O processo de substituição de líderes partidários em Cabo Verde oferece-se como um campo fértil para investigadores. E aqui deixo o desafio para a classe mais que fundamental para o desenvolvimento de qualquer país.
No momento, temos, num horizonte temporal relativamente curto, a questão da substituição de José Maria Neves, no PAI, e de Carlos Veiga no MpD. De Carlos Veiga, sim senhora. Que, se Pedro Pires conseguiu um sucessor à altura, o mesmo não se poderá dizer em relação a Veiga. E porquê? Antes de mais, devida à antropofagia do sistema MpD para com os seus números 2 naturais.
Pouco tempo depois da instalação, em 91, do Governo do MpD, Jorge Carlos Fonseca, recém regressado do Oriente, aparece claramente como o segundo homem do partido, mercê do seu perfil sociográfico e da vitória que foi ter conseguido a eleição de Cabo Verde como membro do Conselho de Segurança da ONU. Meses depois, e após declinar um “convite” para deixar a pasta dos Negócios Estrangeiros e assumir o posto de Secretário-Geral do partido, é afastado do Governo… e do partido.
Após a saída de Fonseca, é Eurico Monteiro que desponta, destacadamente, como o número 2 de Veiga. Acossado pelo sector menos atreito à disciplina no seio do MpD, envereda-se por uma contestação extemporânea à liderança de Veiga e acaba determinando o seu afastamento do Governo… e do partido, protagonizando o primeiro cisma do MpD.
Depois da saída de Monteiro (e de sua turma) emergem no MpD alguns novos notáveis: Agostinho Lopes e Simão Monteiro (agraciados pelos serviços prestados no processo antropofágico em relação a Monteiro) e Mário Silva. Mas quem é, de facto, o número 2 do partido é Jacinto Santos. Santos lidera o processo de afastamento de Monteiro e de cassação dos mandatos dos deputados que, alegadamente, alinhavam com Monteiro. Mas o que, verdadeiramente, catapulta Jacinto Santos é a renovação do seu mandato à frente da Câmara da Praia e o seu papel na renovação da maioria qualificada do MpD (superior à de 91) nas legislativas de 17/12/95. Mas cedo é tragado (e depois expelido) pelo sistema. Depois de se ter posicionado expressamente para substituir Veiga, é duramente criticado por este no encontro de São Jorginho (ele era um dos gafanhotos a quem Veiga prometeu cortar o esporão). Acaba deixando o partido, protagonizando o segundo cisma do MpD.
Depois da memorável reunião de São Jorginho não restou qualquer dúvida, para quem acompanhava as coisas com alguma atenção, que Veiga decidira que seria Gualberto a substitui-lo. No partido e no Governo. O novo número 2 (indigitado) protagoniza uma luta desigual com Jacinto Santos (o apoio de Veiga é determinante) e acaba substituindo o «padrinho» na Presidência do MpD e na Chefia do Governo. Só que foi Sol de pouca dura. Aparece envolvido no esquisito processo de substituição de Veiga na Chefia do Governo, para depois falhar nas Legislativas de 14/01/2001. Mas, pecado dos pecados, foi a “devolução” precipitada do poder, fazendo com que fosse um Governo (de transição) do PAI a conduzir o processo eleitoral para a Presidência da República. Os rabentolas não lhe perdoam a gaffe que consideram ter ditado a sorte de Veiga naquela que foi a mais contestada de todas as eleições que tiveram lugar em Cabo Verde. No final, comeu o pão que o diabo amassou, vendo-se na situação de tomar conhecimento oficioso de reuniões do partido, de que era ainda Presidente, para as quais não era convidado. Na sequência, é obrigado a deixar a liderança do partido. É mais um nº 2 que é moído na voragem rabentola. O seu consulado, enquanto nº 1, foi tão efémero que nem deu tempo para se ver afirmar um “imediato”.
A era pós-Veiga é menos turbulenta, mas nem por isso pacífica. A grande novidade são as vice-presidências, claro sinal de lideranças fragilizadas (inauguradas com Pedro Pires, quando desafiado por José Maria Neves). Já não haveria lugar para o recurso a listas, por ordem alfabética, para órgãos executivos nacionais (ensaiado por Veiga para colocar Jacinto - um J - depois de António Gualberto – um A). A era dos vice-presidentes trouxe uma certa protecção aos números 2. Não surgindo naturalmente, pela via da notoriedade que ganham na sociedade, mercê do seu desempenho superior, já não constituem ameaça ao poder do líder. E isso muda tudo no sistema MpD. Já não são os líderes que se desfazem do seu número 2, mas são estes que empurram o nº 1 em direcção à porta da rua (serventia da sede).
Agostinho, que chega a nº1 sem nunca ter sido, verdadeiramente, nº 2, vê-se desafiado pelo seu Vice Ulisses Correia e Silva, num processo que só não culmina com a derrota daquele porque surge um elemento estranho no processo (de seu nome Jorge Maurício Santos, que fora militante, deixara de ser, e voltava então com laivos de sebastianismo) que levou a que Gualberto do Rosário se intrometesse, ditando a vitória de Agostinho, e demonstrando que não era, ainda, carta fora do baralho que é o sistema MpD. Mas a intervenção de Gualberto só adia o inevitável. Tendo Agostinho optado por chamar JMN para um suicida um-contra-um nas eleições legislativas de 2006, nada nem ninguém poderia mantê-lo à frente do partido. É empurrado porta fora por Jorge Santos que, entretanto, se posicionara como seu sucessor natural. Mais do que natural.
No momento, o sistema MpD parece estar a braços com um Presidente que, em vez de se cobrir com as vestes de estadista (candidato a Primeiro-ministro obriga), insiste em reforçar a sua vertente de activista político. Ninguém pode, honestamente, pôr em dúvida a capacidade de JS para agitar as águas, animar a malta, sacudir o partido. Mas, no momento, do que o MpD precisa é de um estadista, uma alternativa credível a JMN e um sucessor para o grande Carlos Veiga. E JS não está conseguindo entrar no papel. E o curioso disto tudo é que quem põe JS em causa não é qualquer número 2 (formal ou natural), mas as suas próprias acções e opções, fazendo o MpD averbar desaires na frente parlamentar, em situações que, à partida, lhe seriam favoráveis. Um partido de oposição, com os pergaminhos, o percurso, a ideologia e o programa do MpD, não pode ter outro resultado que não seja a vitória em ocasiões como o debate do estado da nação, a reforma da Justiça ou uma sessão de interpelações várias ao Governo em dossiers super sensíveis para este. É inaceitável. E JS acaba de registar um hat trick de gols contra. Paulo Bento e Soares Franco já devem andar de olho no homem.
O que vai acontecer agora? Não tendo JS um destacado nº2 para sacrificar, nem para ser empurrado por, a sua sorte (e do MpD) obriga a que o partido se volte para dentro e procure identificar um candidato a Primeiro-Ministro que seja capaz de, a um tempo, mexer com as bases, unir o partido e passar a imagem de estadista com potencialidades para enfrentar (e derrotar) JMN, atrair os indispensáveis votos de não-militantes e, sobretudo, de representar condignamente o país na arena internacional. Quem é esse homem?
No momento, não vislumbro, assim de repente, ninguém que se encaixe no perfil a ponto de se olhar para ele, apontar o dedo e bradar: ECCE HOMO! O que não quer dizer que não ele não existe. Se se vasculhar bem o baú… quem sabe? Ulisses Correia e Silva, Mário Silva, Fernando Elísio Freire, Eurico Monteiro, José Luís Livramento, Isaura Gomes e muitos mais estarão no bendito baú.
Ulisses pode mexer com as bases, pode unir o partido e passa a imagem de estadista com potencialidades para enfrentar JMN, atrair os votos de não-militantes e de representar condignamente o país na arena internacional. Mas tem um compromisso com a Praia que, a princípio, não deve romper para se candidatar à liderança do MpD e a Primeiro-ministro. De todo o modo, se o fizesse - cedendo a insistentes pedidos da Nação – não estaria fazendo nada que ainda não tivesse sido feito. Veja-se o caso de José Maria Neves em 2000/2001.
Mário Silva não se decide. Mas pode muito bem ter chegado a sua hora. Contra ele milita, porém, o facto de não ter grandes ligações com as bases rabentolas e de não poder contar com o apoio dos generais oriundos do finado PCD e liderados pelo Marechal Eurico Monteiro.
Fernando Freire, o jovem líder parlamentar, é outro fulano muito bem posicionado. Poderá jogar contra ele o que tem de melhor (a sua juventude) e o laço de parentesco que mantém com JS: não poderá desafiá-lo sem consequências, sem contar que alguns sectores poderão ver na sua candidatura (injustamente, diga-se em abono da verdade) um expediente de Santos para permanecer na esfera do poder ventoinha.
Eurico Correia Monteiro é um candidato natural à sucessão de Santos, pelo menos, na situação complicada em que o partido se encontra. Contudo, dificilmente se poderá livrar do rótulo de «filho pródigo». E há gente no MpD que, tal qual o irmão mais velho do pródigo do evangelho, não aceitará confiar o destino do partido a um arrependido.
José Luís Livramento enfrenta os mesmos problemas que Eurico. E mais alguns: os da falange PCD, do MpD, não lhe vão facilitar a vida. Antes pelo contrário.
Isaura Gomes. Isaura, Presidente da Câmara Municipal de São Vicente? OK. Isaura, Primeiro-ministro?! Si… se puéde. Pero… À partida, uma mulher candidata ao cargo mais importante do ranking nacional de cargos, poderia ser uma opção inteligente. Mas conseguiria Isaura mobilizar os necessários apoios? Conseguiria encaixar-se no perfil traçado para o sucessor de Santos? Aos rabentolas de responder e de agir em conformidade.
Da antropofagia dos fortes e populares números 2 dos bons velhos tempos de Veiga, à penúria de homens fortes do MpD dos dias de hoje, vão apenas 8 anos, mais coisa, menos coisa. Dá para inquietar e torna-se forçoso registar esta questão: que futuro para uma organização tão importante para o regime democrático instalado nas ilhas?
Mas… talvez esteja a ser precipitado e não haja problema nenhum para ser resolvido. De todo o modo, e em havendo, sempre haveria uma solução, digamos, perfeita: CHAMAR O VEIGA!
No momento, temos, num horizonte temporal relativamente curto, a questão da substituição de José Maria Neves, no PAI, e de Carlos Veiga no MpD. De Carlos Veiga, sim senhora. Que, se Pedro Pires conseguiu um sucessor à altura, o mesmo não se poderá dizer em relação a Veiga. E porquê? Antes de mais, devida à antropofagia do sistema MpD para com os seus números 2 naturais.
Pouco tempo depois da instalação, em 91, do Governo do MpD, Jorge Carlos Fonseca, recém regressado do Oriente, aparece claramente como o segundo homem do partido, mercê do seu perfil sociográfico e da vitória que foi ter conseguido a eleição de Cabo Verde como membro do Conselho de Segurança da ONU. Meses depois, e após declinar um “convite” para deixar a pasta dos Negócios Estrangeiros e assumir o posto de Secretário-Geral do partido, é afastado do Governo… e do partido.
Após a saída de Fonseca, é Eurico Monteiro que desponta, destacadamente, como o número 2 de Veiga. Acossado pelo sector menos atreito à disciplina no seio do MpD, envereda-se por uma contestação extemporânea à liderança de Veiga e acaba determinando o seu afastamento do Governo… e do partido, protagonizando o primeiro cisma do MpD.
Depois da saída de Monteiro (e de sua turma) emergem no MpD alguns novos notáveis: Agostinho Lopes e Simão Monteiro (agraciados pelos serviços prestados no processo antropofágico em relação a Monteiro) e Mário Silva. Mas quem é, de facto, o número 2 do partido é Jacinto Santos. Santos lidera o processo de afastamento de Monteiro e de cassação dos mandatos dos deputados que, alegadamente, alinhavam com Monteiro. Mas o que, verdadeiramente, catapulta Jacinto Santos é a renovação do seu mandato à frente da Câmara da Praia e o seu papel na renovação da maioria qualificada do MpD (superior à de 91) nas legislativas de 17/12/95. Mas cedo é tragado (e depois expelido) pelo sistema. Depois de se ter posicionado expressamente para substituir Veiga, é duramente criticado por este no encontro de São Jorginho (ele era um dos gafanhotos a quem Veiga prometeu cortar o esporão). Acaba deixando o partido, protagonizando o segundo cisma do MpD.
Depois da memorável reunião de São Jorginho não restou qualquer dúvida, para quem acompanhava as coisas com alguma atenção, que Veiga decidira que seria Gualberto a substitui-lo. No partido e no Governo. O novo número 2 (indigitado) protagoniza uma luta desigual com Jacinto Santos (o apoio de Veiga é determinante) e acaba substituindo o «padrinho» na Presidência do MpD e na Chefia do Governo. Só que foi Sol de pouca dura. Aparece envolvido no esquisito processo de substituição de Veiga na Chefia do Governo, para depois falhar nas Legislativas de 14/01/2001. Mas, pecado dos pecados, foi a “devolução” precipitada do poder, fazendo com que fosse um Governo (de transição) do PAI a conduzir o processo eleitoral para a Presidência da República. Os rabentolas não lhe perdoam a gaffe que consideram ter ditado a sorte de Veiga naquela que foi a mais contestada de todas as eleições que tiveram lugar em Cabo Verde. No final, comeu o pão que o diabo amassou, vendo-se na situação de tomar conhecimento oficioso de reuniões do partido, de que era ainda Presidente, para as quais não era convidado. Na sequência, é obrigado a deixar a liderança do partido. É mais um nº 2 que é moído na voragem rabentola. O seu consulado, enquanto nº 1, foi tão efémero que nem deu tempo para se ver afirmar um “imediato”.
A era pós-Veiga é menos turbulenta, mas nem por isso pacífica. A grande novidade são as vice-presidências, claro sinal de lideranças fragilizadas (inauguradas com Pedro Pires, quando desafiado por José Maria Neves). Já não haveria lugar para o recurso a listas, por ordem alfabética, para órgãos executivos nacionais (ensaiado por Veiga para colocar Jacinto - um J - depois de António Gualberto – um A). A era dos vice-presidentes trouxe uma certa protecção aos números 2. Não surgindo naturalmente, pela via da notoriedade que ganham na sociedade, mercê do seu desempenho superior, já não constituem ameaça ao poder do líder. E isso muda tudo no sistema MpD. Já não são os líderes que se desfazem do seu número 2, mas são estes que empurram o nº 1 em direcção à porta da rua (serventia da sede).
Agostinho, que chega a nº1 sem nunca ter sido, verdadeiramente, nº 2, vê-se desafiado pelo seu Vice Ulisses Correia e Silva, num processo que só não culmina com a derrota daquele porque surge um elemento estranho no processo (de seu nome Jorge Maurício Santos, que fora militante, deixara de ser, e voltava então com laivos de sebastianismo) que levou a que Gualberto do Rosário se intrometesse, ditando a vitória de Agostinho, e demonstrando que não era, ainda, carta fora do baralho que é o sistema MpD. Mas a intervenção de Gualberto só adia o inevitável. Tendo Agostinho optado por chamar JMN para um suicida um-contra-um nas eleições legislativas de 2006, nada nem ninguém poderia mantê-lo à frente do partido. É empurrado porta fora por Jorge Santos que, entretanto, se posicionara como seu sucessor natural. Mais do que natural.
No momento, o sistema MpD parece estar a braços com um Presidente que, em vez de se cobrir com as vestes de estadista (candidato a Primeiro-ministro obriga), insiste em reforçar a sua vertente de activista político. Ninguém pode, honestamente, pôr em dúvida a capacidade de JS para agitar as águas, animar a malta, sacudir o partido. Mas, no momento, do que o MpD precisa é de um estadista, uma alternativa credível a JMN e um sucessor para o grande Carlos Veiga. E JS não está conseguindo entrar no papel. E o curioso disto tudo é que quem põe JS em causa não é qualquer número 2 (formal ou natural), mas as suas próprias acções e opções, fazendo o MpD averbar desaires na frente parlamentar, em situações que, à partida, lhe seriam favoráveis. Um partido de oposição, com os pergaminhos, o percurso, a ideologia e o programa do MpD, não pode ter outro resultado que não seja a vitória em ocasiões como o debate do estado da nação, a reforma da Justiça ou uma sessão de interpelações várias ao Governo em dossiers super sensíveis para este. É inaceitável. E JS acaba de registar um hat trick de gols contra. Paulo Bento e Soares Franco já devem andar de olho no homem.
O que vai acontecer agora? Não tendo JS um destacado nº2 para sacrificar, nem para ser empurrado por, a sua sorte (e do MpD) obriga a que o partido se volte para dentro e procure identificar um candidato a Primeiro-Ministro que seja capaz de, a um tempo, mexer com as bases, unir o partido e passar a imagem de estadista com potencialidades para enfrentar (e derrotar) JMN, atrair os indispensáveis votos de não-militantes e, sobretudo, de representar condignamente o país na arena internacional. Quem é esse homem?
No momento, não vislumbro, assim de repente, ninguém que se encaixe no perfil a ponto de se olhar para ele, apontar o dedo e bradar: ECCE HOMO! O que não quer dizer que não ele não existe. Se se vasculhar bem o baú… quem sabe? Ulisses Correia e Silva, Mário Silva, Fernando Elísio Freire, Eurico Monteiro, José Luís Livramento, Isaura Gomes e muitos mais estarão no bendito baú.
Ulisses pode mexer com as bases, pode unir o partido e passa a imagem de estadista com potencialidades para enfrentar JMN, atrair os votos de não-militantes e de representar condignamente o país na arena internacional. Mas tem um compromisso com a Praia que, a princípio, não deve romper para se candidatar à liderança do MpD e a Primeiro-ministro. De todo o modo, se o fizesse - cedendo a insistentes pedidos da Nação – não estaria fazendo nada que ainda não tivesse sido feito. Veja-se o caso de José Maria Neves em 2000/2001.
Mário Silva não se decide. Mas pode muito bem ter chegado a sua hora. Contra ele milita, porém, o facto de não ter grandes ligações com as bases rabentolas e de não poder contar com o apoio dos generais oriundos do finado PCD e liderados pelo Marechal Eurico Monteiro.
Fernando Freire, o jovem líder parlamentar, é outro fulano muito bem posicionado. Poderá jogar contra ele o que tem de melhor (a sua juventude) e o laço de parentesco que mantém com JS: não poderá desafiá-lo sem consequências, sem contar que alguns sectores poderão ver na sua candidatura (injustamente, diga-se em abono da verdade) um expediente de Santos para permanecer na esfera do poder ventoinha.
Eurico Correia Monteiro é um candidato natural à sucessão de Santos, pelo menos, na situação complicada em que o partido se encontra. Contudo, dificilmente se poderá livrar do rótulo de «filho pródigo». E há gente no MpD que, tal qual o irmão mais velho do pródigo do evangelho, não aceitará confiar o destino do partido a um arrependido.
José Luís Livramento enfrenta os mesmos problemas que Eurico. E mais alguns: os da falange PCD, do MpD, não lhe vão facilitar a vida. Antes pelo contrário.
Isaura Gomes. Isaura, Presidente da Câmara Municipal de São Vicente? OK. Isaura, Primeiro-ministro?! Si… se puéde. Pero… À partida, uma mulher candidata ao cargo mais importante do ranking nacional de cargos, poderia ser uma opção inteligente. Mas conseguiria Isaura mobilizar os necessários apoios? Conseguiria encaixar-se no perfil traçado para o sucessor de Santos? Aos rabentolas de responder e de agir em conformidade.
Da antropofagia dos fortes e populares números 2 dos bons velhos tempos de Veiga, à penúria de homens fortes do MpD dos dias de hoje, vão apenas 8 anos, mais coisa, menos coisa. Dá para inquietar e torna-se forçoso registar esta questão: que futuro para uma organização tão importante para o regime democrático instalado nas ilhas?
Mas… talvez esteja a ser precipitado e não haja problema nenhum para ser resolvido. De todo o modo, e em havendo, sempre haveria uma solução, digamos, perfeita: CHAMAR O VEIGA!
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