Wednesday, June 25, 2008

VOTO DE QUALIDADE E… VETO

“Sou um simples africano que quis viver sua época e saldar sua dívida para com o seu povo.”

Amílcar L. Cabral

Vem-me sempre à memória esta famosa tirada de Cabral a propósito das desesperadas tentativas de Salazar e seus esbirros (o mais temido de entre eles tinha, por puro acaso, raízes fincadas no Mindelo) de apresentar Cabral, a Portugal, ao Mundo e às suas próprias gentes, como terrorista. Debalde. Cabral é hoje herói do seu povo e objecto de grandes manifestações de carinho e de reconhecimento um pouco por todo o mundo.
E vem-me igualmente à memória, sempre que resolvem colar-me o rótulo de inimigo de Sanvicente, esta outra pérola de Cabral, a propósito da luta que mantinha contra o colonialismo e o fascismo português (luta na qual tinha, aliás, fortes aliados portugueses): «O nosso inimigo não é o povo português. O nosso inimigo é, e sempre foi, o colonialismo português.»
Não tenham os meus inimigos pressa em afirmar que estou pretendendo colocar-me ao nível desse monstro sagrado da nossa história que é Amílcar Cabral. Falo dele com o orgulho que um africano deve ter de outro que viveu a sua época e nos legou muitos exemplos de vida.
A questão é que essa tentativa de me fazerem inimigo nº 1 de Sanvicente é falsa e esconde a verdadeira razão dos ataques que me são feitos. Eu não escondo, nunca escondi, que tenho aversão de morte a bastardinhos que se armam em quatrocentãos de sete costados (seja aqui, seja em São Paulo, ou n’importe où) e a colaboracionistas (e filhotes de colaboracionistas) que se escondem sob a roupagem de nacionalistas de gema (seja em Sanvicente, seja na Praia, na França das Grandes Guerras do sec. XX, ou n’importe où). Isso, na mesma medida do enorme apreço que nutro por aqueles que trabalham, que comem do suor do próprio rosto, que amargam, com toda a dignidade, para dar aos filhos a oportunidade de serem alguém na vida, sejam eles os homens que ganham a vida no mar em Sanvicente, os agricultores e industriais das Ribeiras de Santo Antão, os camponeses das Fajãs de São Nicolau, os self-made men das Achadas de Santiago, os resistentes das encostas do Fogo, os «sitiados» da Ilha Brava, ou os pioneiros, da nova vaga do desenvolvimento, das ilhas rasas (Sal, Boavista e Maio). Resumindo e concluindo, abomino os chico-espertos e aqueles que acham que o trabalho DANIFICA o homem e abraço com emoção aqueles (felizmente a maioria) que aprenderam com os antepassados que o trabalho DIGNIFICA o homem. Estejam eles em Cabo Verde ou na diáspora.
E porque cargas de água estaria engasgado com Sanvicente, uma ilha onde tenho bons amigos e onde sempre passo sábi sempre que por lá passo? Porque teria qualquer reserva em relação à uma ilha tão simpática? Sanvicente jamais será uma espinha atravessada na minha garganta. Das únicas vezes que penso em Sanvicente e fico com a garganta apertada (de emoção) é quando me lembro dos tempos em que, por lá, eram as coitadas das mulheres que faziam o trabalho pesado (karga na kais lêvan nhâ vida, canta o poeta pela voz do grande Bana), carregando sacos, caixas e baús, enquanto os marmanjos dormiam, faziam de cicerone aos turistas, aos marujos e aos tripulantes (que o turismo sexual não é de hoje) ou enganavam incautos num jogo de «purrinha» à esquina. A lembrança do Sanvicente daquêl tempo, essa sim, me aperta garganta. De emoção e tristeza.
Mas, curiosamente, os meus desafectos choram é por esse tempo que, FELIZMENTE, já não volta mais. Môndrôngo já bái, amedjer já libertá, independéncia já tchegá, Cabo Verde já tmá freio ná dente, AQUI D’EL REI! Mas, caramba, isso são razões para festejo. E, coitado de mim, que sempre pensei que era isso que festejávamos a cada 05 de Julho. 05 de Julho, nosso orgulho, como cantou o poeta. Mas parece que não é assim para todo o mundo. Não é assim, pelo menos, para aqueles que perderam privilégios. Mas, que diacho, que se descabelem esses, mas nosotros cantaremos, dançaremos e continuaremos prestando homenagem às mulheres e homens que participaram da gesta heróica que tornou isso possível.
Mas o melhor mesmo é que essa gente (falsos quatrocentãos, colaboracionistas e filhotes) ponha as barbas de molho. Que vêm aí tempos bem mais difíceis para eles.
Os marítimos de Sanvicente, os agricultores e industriais de Santo Antão, os camponeses de São Nicolau e os pioneiros da nova vaga desenvolvimentista do Sal e da Boavista, já não se revêem nesse estafado conceito de barlavento. Este é hoje um conceito que tem a ver apenas com os ventos dominantes e informação que só interessa aos navegantes. Pela pena de Antero Coelho aparecem agora a pretender direito a «voto de qualidade» (será de coeficiente 2.0?) como forma de anular a «superpopulação» de Santiago. Não faltava mais nada. Imagine-se só: «voto de qualidade» dependendo da direcção dos ventos dominantes.
E que dizer da novíssima estratégia de se fazer de Mindelo a capital do Noroeste. Santantonenses e sanicolaoenses, os amigos foram tidos e achados? Alguém quis saber o que vocês pensam disso? A resposta é, certamente, um redondo NÃO. É uma saída ditada pelo chico-espertismo de uma pequena elite sedeada em Mindelo, que quer, porque quer, ser capital e estar no centro de alguma coisa. Santo Antão e São Nicolau são arrastados sem que possam dizer de sua justiça. Mas não se amofinem: nem a classe trabalhadora que moureja em Sanvicente terá sido tida ou achada. É mais uma fuga em frente dos privilegiados de antanho.
Isso para não falar da famigerada tentativa de apartheid ou «desenvolvimento separado», falhada porque publicitada antes de tempo pelo deputado nacional António Jorge Delgado): SANTIAGO de um lado e as demais ilhas de outro.
É contra essa gente, é contra esses artífices, que me posiciono. Eles, sim, têm algo atravessado na garganta. Inicialmente pensava que era Santiago que lhes impedia de engolir normalmente. Mas não se trata de Santiago, mas o que ela (a ilha e suas gentes) representa e que, no fundo, constitui o espírito do novo Cabo Verde: NINGUÉM PRECISA (mais) DE TUTORES. E o jeito é os tutores profissionais (quatrocentãos fajutos, colaboracionistas e respectivos filhotes) procurarem outros afazeres. Aqui ou na diáspora.
Delgado (e o grupo de que foi porta-voz) não encontrou eco na pretensão de isolar Santiago; Toy Neves não conseguiu convencer ninguém de que eu seria um perigoso terrorista e incendiário; Antero Coelho, igual a si próprio, não terá convencido ninguém a segui-lo na luta pela adopção do «voto de qualidade» para determinados círculos eleitorais, nem, tampouco, que as pessoas que, na Praia, rezam pela própria cartilha vivam em jaulas, açaimadas, para evitar que ponham o dedo em feridas abertas. Foi um acto falho, bastante revelador do que lhe vai na alma, do desejo que lhe corrói a garganta e lhe aperta a voz: ver os seus «desafectos» enjaulados. Tivesse ele poderes! Mas não tem e não vai ter tão cedo. Que aqui em Santiago, queira-se ou não, temos, na prática, o poder de VETO. E não se tenham dúvidas de que poderá ser usado, em «caso de necessidade».
E já agora Coelho, como é que se designa o buraco onde se escondem os chico-espertos, quatrocentãos de araque e filhotes de colaboracionistas? O Google não me pôde ajudar. Tentei a busca por «jaula», mas afiançaram-me que seria um receptáculo demasiado nobre para tais espécimes. Vou experimentar por «covil». Se não for… logo se verá.

Friday, June 13, 2008

CHEEEEEGA!!!

“A política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes.”

Winston Churchill



CHEGA!
Chega de festejos. Chega de chorar sobre o leite derramado. Chega de massagens ao ego. Chega de auto-comiseração. Chega de farrompas. Chega de buscar cabelo em ovo.
Aos vencedores sugiro, ao jeito do tutor de Alexandre Magno, que vejam a sua sombra e que reparem que ela (a sombra) não é MAIOR do que era dantes. Aos vencidos faço sugestão parecida: que constatem que a sua sombra não é MENOR do que era dantes.
Acabou a ladainha de grupos vencedores e grupos vencidos. É chegada a hora de grupos que competem. E grupos que competem tendem a comportar-se de modo bem diverso: (i) são, geralmente, coesos (seus membros se unem, eliminando suas diferenças internas); (ii) mudam o clima de informal, casual e brincalhão para compenetrado em cumprir os objectivos; (iii) os seus membros estão predispostos a aceitar uma liderança autocrática (e, em reacção de complementaridade, os padrões de liderança deslizam, também, do democrático para o autocrático); (iv) são altamente estruturados e organizados; (v) e exigem mais lealdade dos seus membros (que, por seu lado, se disponibilizam, sem rebuço, para dar corpo a uma frente - sólida e unida qb - para enfrentar os adversários).
É que há aí à frente, esperando pela atenção de AMBOS (de TODOS), tanta coisa por equacionar e resolver. Ele é a Praia que não pode continuar adiada; são as eleições legislativas que aí vêm; é o presente clamando por transformações; é o futuro por construir; ele é um mundo de coisas que não acontecem de per si. A hora é, pois, de trabalho.

Trabalho para encontrar as soluções por que a Praia clama. A Praia tem solução, sim senhora, mas as soluções têm de ser construídas. Não são de geração expontânea: exigem planeamento, organização, direcção e controlo; exigem engajamento do poder local, do poder central, das forças vivas locais, de todos os praienses. Situação e oposição devem atirar para detrás das costas as questiúnculas e darem-se as mãos para viabilizar as soluções para que esta cidade cresça, se desenvolva e prodigalize progresso e bem-estar para residentes e visitantes.
Trabalho, também, para que o país continue a ser governado com ponderação. A situação que afine o seu programa de governação e refine a sua performace. A oposição que se prepare, se organize e se apresente como alternativa credível à governação. E que cada um faça o seu trabalho de casa, para que não nos venham chatear depois com lengalengas do tipo “fraude”, “compra de consciências”, “bocas-de-urna”, e «outras bocas». Que o povo vota sempre certo. Conscientemente ou porque «Deus escreve direito por linhas tortas», a história das eleições livres nesta República confirma a justeza das opções deste povo. O voto é a arma do povo e este tem-na usado com a perícia de um Billy «the Kid» ou dos irmãos James (Jesse and Frank).

É, pois, chegado o momento de pôr um ponto final nas lamúrias e nos festejos. É chegada a hora de se montar (ou remontar, conforme os casos) os melhores governos possíveis. Para a República e para a sua Capital. É chegado o momento de organizar os partidos e as associações cívicas para os desafios que nos esperam. Nem os partidos, nem as associações (cívicas, comunitárias, de classe, etc.) devem meter férias.
As organizações da sociedade civil para ajudarem os poderes a actualizarem o levantamento dos problemas que clamam por uma solução; para cooperarem na identificação das prioridades; para participarem das tomadas de decisão.
Os partidos para fazerem o seu papel de correia de transmissão entre as populações e os poderes: auscultando as populações, influenciando a governação e direccionando as decisões dos poderes por eles suportados. E, claro está, que se organizem, convenientemente, para os embates eleitorais que vêm aí; que se preparem para todas as eventualidades (1, x ou 2, que nem no Totobola); e, finalmente, que aprendam a respeitar as decisões do eleitorado (ELE sabe o que quer, para onde vai, e, principalmente, COM QUEM VAI).


Monday, June 9, 2008

JC, SUPERSTAR

“Toda a árvore que não der bons frutos será cortada e lançada ao fogo. Pelos seus frutos os conhecereis”

Mateus 7:19,20

Alguém comentava outro dia que o discurso de um dos intervenientes - na assembleia de militantes do PAI ocorrido no Palácio da AN, no passado dia 24 de Maio - parecia dar indicações de que aquele militante estaria na disposição de despoletar um Congresso extraordinário e, nele, desafiar a liderança de José Maria Neves. Lembro-me de ter retorquido na altura que, dos dirigentes de proa do PAI, Júlio Correia (JC) era o único que estaria em condições de questionar a liderança de JMN. E as razões são claríssimas: é o único dos grandes que ganhou na última jornada. Melhor: é o único que tem ganhado sempre. Mas não se tratava de JC.
JC fazia parte do losango do meio-campo que conduzia o jogo do PAI. Fazia a posição 6. JMN (posição 10) ocupava a outra ponta do eixo da diagonal perpendicular à linha que divide o campo. E Inocêncio (à direita) e Basílio (à esquerda) ocupavam os dois vértices dos extremos da diagonal horizontal à referida linha.
Com o tempo e com as peripécias do jogo, o losango distorceu-se e a sua configuração já mais parecia a do papagaio de papel com que a meninada brincava no meu tempo: o eixo horizontal aproximou-se da ponta ocupada por JMN, fazendo com que a ponta ocupada por JC ficasse bastante distante do resto do meio campo. Inocêncio e Basílio ficaram mais perto de JMN e mais próximos um do outro. O problema é que a transposição do losango para a «pipa» nunca é isenta de custos. Já vimos isso com Paulo Bento e Miguel Veloso: é quando o Miguelito recua tanto que mais parece um terceiro central. E, quando assim acontece, quase sempre o Sporting perde (porque se imobiliza um criativo que, para além de recuperar bolas, também participa na organização dos lances de ataque).
Quando topa que, com a nova disposição, o meio-campo, na prática, integrava apenas o triângulo superior do losango (a trindade Inocêncio, JMN e Basílio), JC deixa a linha média e busca novos ares.

Com a «trindade» do meio-campo tambarina claudicando diante de um adversário que, teoricamente, estaria ao seu alcance, seria de esperar que JC botasse pra quebrar. Mas JC é um gentleman e um militante (dirigente) responsável. Foi muito comedido. No entanto, ainda assim (e porque para bom entendedor meia palavra basta), falou e disse.
Agora que o jornal «A SEMANA» resolveu (em boa hora) preitear o vencedor, vamos então ler a entrevista a JC, conduzida por José Vicente Lopes (JVL).
Muito ao jeito tambarina, diz-nos JC, que:

1. Há gente com influência desproporcional no partido (gente que nunca ganhou umas autárquicas, mas que está sempre na mó de cima, controlando o dossier autárquico e «impondo» candidatos);
2. Há gente com peso excessivo na governação;
3. Há (no Governo) gente a quem tem faltado sensibilidade para execução do pensamento do PM;
4. Os dossiers Santa Catarina (de Santiago) e São Filipe (Fogo) foram mal geridos;
5. Há déficit de espaço para discussão aberta dos problemas do partido;
6. Há um Ministro (pelo menos) que desobedeceu ao PM, recusando-se a fazer campanha por ser desafecto do candidato que foi incumbido de ajudar;
7. A liderança do Sector Autónomo da Praia é fraca e tem responsabilidades nos resultados da eleição de 18 de Maio;
8. Se está fazendo asneiras na aerogare de São Filipe (e que elas jogam e jogarão contra o partido);
9. A condução desastrosa do dossier TACV terá dado alguma contribuição para a derrota de Felisberto Vieira;
10. JMN precisa estar melhor apoiado na organização do partido.

Parece não haver dúvidas de que JC quer uma nova «trindade» a governar o PAI e o país. E parece natural que ele seja um dos membros da «trindade», conquanto, justiça lhe seja feita, ele assim não se tenha posicionado em momento algum da entrevista.
É natural porque, antes de mais, ele é dos poucos (quase o único) a quem não se pode debitar a derrota do PAI nesta ronda; depois porque, afinal, ele é JC (e caramba! quem melhor habilitado do que um JC para escorraçar os vendilhões do templo e para, em momento pós ressurreição, se apresentar sentado à direita do PAI?!).
O entrevistador, JVL, quis que JC desse o nome aos bois.
Mas precisava? Quem nunca ganhou uma eleição autárquica, mas que está sempre controlando o processo autárquico no PAI? Quem não tem tido a necessária sensibilidade para dar execução ao pensamento do PM? Quem responde politicamente pelas aerogares? Quem assumiu o controlo do dossier privatização dos TACV? Os pontos 1, 2, 3, 8 e 9, deste apontamento, apontam claramente para Manuel Inocêncio Sousa. Um alvo a ser reclassificado, no dizer de JC.
Os pontos 4 (dossiers Santa Catarina e São Filipe), 5 (déficit de democracia interna) e 10 (JMN mal secundado), interpelam claramente o triunvirato (Inocêncio/JMN/Basílio) que dirigiu o processo eleitoral, sendo certo que JC fez questão de sublinhar as EXCELSAS qualidades de JMN e de Basílio.
O ponto 6 questiona, inequivocamente, a permanência de Lívio Lopes no Governo e na cúpula do PAI. É voz corrente no país que Lopes se teria recusado a fazer campanha por Ungeno (contra quem já se posicionara em anteriores eleições autárquicas). Coerência por coerência, JC respeita a liberdade de escolha de Lopes mas é peremptório quanto à sua saída do Governo: ou SAI ou é SAÍDO.
O ponto 7 tem a ver com a prestação de José Maria de Pina. Nestas autárquicas e não só. JC afirma claramente que o PAI merece outra (mais forte) liderança na Praia, onde, diz ele, o partido é muito forte.
Diante disso, com ou sem Congresso, JMN, Primeiro-ministro e Presidente do PAI, vai ter que explicar muito bem porque carrega Inocêncio às costas. JC não é o primeiro dirigente tambarina a contestá-lo: os autarcas João Baptista Pereira e Felisberto Vieira (ambos, à moda tambarina, que é como quem diz, mais em compreensão do que em extensão), em momentos diferentes, apontaram o dedo ao Lorde das Infra-estruturas. JC espera ainda posicionamentos inequívocos de JMN em relação a Lívio Lopes e a José Maria de Pina (e seus pares do SUP do PAI).
E os conselheiros do PAI vão ser chamados para descodificar o que JC chama de DIVERSIFICAÇÃO DA LIDERANÇA, e implementá-la a tempo de terem a organização necessária e suficiente para dar corpo à estratégia a seguir até ao Congresso.

Thursday, May 29, 2008

GESTÃO DE SEQUELAS

“A liderança é uma escolha construída de dentro para fora, baseada no carácter. Os grandes líderes libertam o talento colectivo e a paixão das pessoas, orientando-as para os objectivos certos.”

Stephen R. Covey

Os confrontos - sejam eles desportivos, políticos, comerciais, bélicos, ou de que espécie forem – raramente deixam tudo como estava. Na prática, o resultado nunca é um «match nulo»; o empate é apenas aparente. Na realidade, há sempre vencedores e vencidos. Daí que resulta haver sempre sequelas que clamam por uma administração inteligente.

O que acontece com o grupo vencedor*?
O grupo vencedor tanto pode (1) reter a sua coesão e até tornar-se mais coeso; como (2) distender-se, libertando-se das tensões e perdendo o espírito de luta, tornando-se complacente, casual e brincalhão (estado de euforia); como (3) pode inclinar-se para uma maior cooperação intragrupal, preocupando-se com as necessidades dos membros, com pouca ou nenhuma disposição para o trabalho e para a realização de tarefas; como pode ainda (4) tornar-se complacente, se se convencer que a vitória só veio confirmar o estereótipo positivo que tinha de si mesmo e o estereótipo negativo do grupo adversário (aqui, restam poucas condições para uma reavaliação das operações do grupo, a fim de melhorá-las).
Da forma como tais estados de espírito forem geridos dependem o sucesso ou o insucesso nos embates subsequentes. E é aí que entra o líder e a equipa dirigente do grupo.
Em uma situação em que o grupo tenda a manter e a reforçar a sua coesão interna, caberá ao líder administrar incentivos necessários para evitar qualquer quebra no grupo, vacinando-o contra eventual desagregação derivada da tensão necessária para manter o todo coeso. Ao estado de euforia, do «ufa! Ganhámos, somos o máximo», com forte tendência para prolongar os festejos indefinidamente, em prejuízo do trabalho necessário, o líder tem de responder com um balde água fria, para esfriar os ânimos, e um veemente apelo ao trabalho. E ele tem de dar o exemplo. Não só controlando a própria euforia, como, também, organizando grupos de trabalho para a condução das coisas e para a preparação para os novos embates. Caberá também às lideranças do grupo intervir forte, e em tempo oportuno, para pôr um termo às sessões conjuntas para lamber as feridas da «batalha» ganha. Terminou uma «batalha», mas a luta continua. É preciso curar as feridas sim, mas muito mais ingente é o retorno ao trabalho, cada um buscando dar conta das tarefas que lhe estão confiadas. O mais complicado mesmo para as lideranças é dar conta da mais terrível das sequelas: «NÓS SOMOS OS MOCINHOS DA FITA, ELES SÃO OS BERAS E VAMOS GANHAR POR TODOS OS SÉCULOS SECULORUM, AMÉN! Sombra e água fresca, que somos os senhores do tempo». A história recente do país teve um episódio destes: os vencedores de um pleito acamparam à sombra da bananeira, aguardando o apito final do árbitro para levantarem as Taças nas competições seguintes. Quando viram as taças nas mãos dos BERAS de ontem gritaram «AQUI D’EL REI, QUE HÁ FRAUDE!» Já era «too late», como diz o mercano. E a culpa é, necessariamente, da liderança que embarcou nos mesmos devaneios e não teve engenho, nem arte, para entender e fazer os seus entenderem que «uma coisa» é uma coisa e «outra coisa» é outra coisa.

E o que acontece com o grupo vencido*?
O grupo perdedor tanto pode (1) negar ou distorcer a realidade da derrota, mormente se a vitória do adversário tenha sido por pequena margem e num jogo muito disputado; como, (2) em caso de aceitação da derrota, se desunir, trazendo à tona conflitos mal resolvidos, ocorrendo, não raras vezes, brigas, tudo isso num esforço para encontrar as causas da derrota. Pode também dar-se o caso de (3) os vencidos ficarem mais tensos, prontos para trabalharem para a desforra e desesperados para encontrar alguém ou alguma coisa para cima de quem atirar as culpas pelo desaire; como acontecer o grupo tender (4) para pequena ou nula cooperação intragrupal, pouco se preocupando com as necessidades dos membros, mas muito envolvido com a recuperação através de um esforço, por vezes, sobre-humano; como (5) pode, ainda, dar-se o caso de os vencidos apostarem em conhecerem-se melhor, enquanto grupo, forçando uma reavaliação das percepções, já que o estereótipo positivo de si próprio e o estereótipo negativo do adversário foram perturbados pela derrota (como consequência, pode acontecer o grupo perdedor se reorganizar e se tornar mais coeso e eficiente, desde que aceite a derrota com naturalidade).
Como no caso do grupo vencedor, aqui também é preciso saber gerir as sequelas. Dependendo da forma como a gestão se faça, tanto pode acontecer o desaparecimento, puro e simples, do grupo derrotado, como é possível que o grupo se mobilize e venha a conseguir uma retumbante vitória no pleito seguinte.
Negar ou distorcer a realidade da derrota é comportamento infantil que o líder precisa combater. Desde logo, dando o exemplo; depois, demonstrando que uma derrota não é o fim do Mundo; e, principalmente, demonstrar (como um bom General o faria) que perder uma «batalha» não significa que se tenha perdido a «guerra». Barafustarem-se uns contra os outros, buscando cabelo em ovo ou discutindo o sexo dos anjos, não se chega a lugar nenhum. Compete ao líder convocar o fórum apropriado para dirimir as diferenças, para resolução definitiva dos tais casos não resolvidos ou mal resolvidos, e para que se esclareça, de uma vez por todas, quem é quem e porquê. O líder que queira tirar o grupo do «buraco» não pode permitir que as pessoas ocupem posições no grupo em nome de códigos ou de acordos secretos: os homens do topo têm de ser aqueles que trazem mais valias para o grupo, que sejam líderes na respectiva «ribeira» ou sejam ganhadores; quem não traga vantagens para o grupo, ou perca sistematicamente os desafios que lhe são confiados, deve ir para a base. Competirá, ainda, à liderança (entendida aqui como a equipa responsável pela gestão do grupo) gerir as coisas de modo a tirar partido da vontade do grupo em trabalhar para a desforra; a reforçar a cooperação intragrupal; a apoiar os membros na sua introspecção e subsequente revisão de estereótipo; e, principalmente, a ajudar o grupo a aceitar a derrota com naturalidade (e como consequência da desatenção aos sinais da sociedade e de erros de avaliação). E, já agora, TAMBÉM, que não é nada do outro mundo cumprimentar o grupo vencedor, por este ter tido a perspicácia de captar os sinais dos tempos e das gentes.



* pesquisa FUNDAP

Wednesday, May 28, 2008

TESTEMUNHO: PRAIA DI NHA MENINEZA

[Comunicação apresentada no passado dia 15 de Maio, no ISE (Instituto Superior de Educação) por ocasião de uma cerimónia de homenagem à Praia e integrada nas comemorações do 150º aniversário da elevação da VILA DA PRAIA DE SANTA MARIA DA VITÓRIA à categoria de CIDADE)

1. MINHA LEMBRANÇA MAIS ANTIGA DA PRAIA (QUE ERA O QUE É HOJE O PLATEAU) É A DE UMA VISITA QUE FIZ COM MINHA MÃE ÀS OBRAS DAS RESIDÊNCIAS PARA CHEFES DE SERVIÇO QUE ESTAVAM SENDO CONSTRUÍDAS NA ACHADA MONTE AGARRO (AO NORTE DA IGREJA DOS NAZARENOS*). NESSE MESMO DIA, COMPRÁMOS, NO «DEPÓSITO DE GÉNEROS*», UM PAR DE SANDÁLIAS COM SOLAS DE TOUCINHO (REFERENCIADA ASSIM TALVEZ PELO ASPECTO DE TOUCINHO AMARELADO QUE TINHA). ERA A NOVIDADE DO MOMENTO.

2. EXISTINDO UMA ÚNICA ESCOLA PRIMÁRIA (A ESCOLA Nº1 – DR. ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR*), MENININHO, TINHA QUE FAZER O TRAJECTO VILA NOVA/PRAIA ÀS 07 DA MANHÃ E O CAMINHO INVERSO AO MEIO-DIA. NÃO HAVIA TRANSPORTE COLECTIVO. OS MAIS ÁGEIS PENDURAVAM-SE NO CAMIÃO DA SERBAM, CONDUZIDO POR LUIZINHO LUBRANO E CHEGAVAM MAIS CEDO. NO DIA EM QUE, VENCIDOS OS LEGÍTIMOS RECEIOS, ME DECIDI A TAMBÉM VIAJAR DEPENDURADO, UM COLEGUINHA CAIU DO CARRO DE NHÔ JACINTO DA CALHETA DE SÃO MIGUEL. A QUEDA APARATOSA CONVENCEU-ME QUE O MEU MÉTODO AINDA QUE MAIS LENTO, ERA, SEGURAMENTE, MAIS SEGURO.

3. À FRENTE DA ESCOLA GRANDE ACABARA DE SER INAUGURADO UM CINE-TEATRO (DIZEM QUE TENHO BOA MEMÓRIA, MAS NÃO CONSIGO ME LEMBRAR DO CINEMA SENDO CONSTRUÍDO). DONA LOURDES MIRANDA*, MINHA QUERIDA PROFESSORA, CONDUZIU-NOS AO NOVEL RECINTO PARA VERMOS A FITA «JOSELITO CORAÇÃO DE OIRO», UM TREMENDO SUCESSO DO CINEMA ESPANHOL. DAS ESTREIAS NO CINE-TEATRO DA PRAIA (EXPLORADO AO TEMPO POR JOHN MELLO, UM DOS DINAMIZADORES DA ASSOCIAÇÃO ACADÉMICA DA PRAIA, CLUB DE QUE VIRIA, MAIS TARDE, A SER PRESIDENTE) PERMANECEM FRESCAS AS LEMBRANÇAS DA TOCA «MANCA» E DA MÃE (QUE VENDIAM MANCARRA, PASTÉIS FRITOS NA HORA, AÇUCRINHA DE COCO E DE MANCARRA), DE NHA CHUMPINHA* (MANCARRA, DROPS, TOFFÉE, BATATA ASSADA* NO FORNO), ETC.

4. DESSE TEMPO FICA UMA ENORME ADMIRAÇÃO PELOS PROFISSIONAIS DA LIMPEZA URBANA: APESAR DAS GRANDES QUANTIDADES DE CASCAS DE MANCARRA QUE SE DEITAVAM FORA NAS SESSÕES (ANTES, DURANTE, NO INTERVALO E DEPOIS), DAS CASCAS DE BATATA-DOCE ASSADA, PAPÉIS DOS DROPS E TOFFÉES, ÀS SETE DA MANHÃ (QUANDO CHEGAVA PARA AS AULAS) ENCONTRAVA AS RUAS INVARIAVELMETE LIMPINHAS. O TRABALHO ERA FEITO COM MUITA DISCRIÇÃO (E EM SILÊNCIO*) ENTRE O FINAL DA SOIRÉE E OS PRIMEIROS ALVORES DO DIA. MINHA HOMENAGEM SINCERA AOS ALMEIDAS DE ENTÃO, QUE DERAM O MELHOR DE SI PELA CIDADE QUE LHES PAGAVA O SALÁRIO.

5. POSSO ESTAR PARECENDO SAUDOSISTA, MAS, EM BOA VERDADE, SÓ TENHO BOAS RECORDAÇÕES DESTA CIDADE. DA SUA BELEZA, DA SUA SOLIDARIEDADE, DA ORDEM QUE ENTÃO IMPERAVA.
6. O QUE A GENTE CHAMAVA DE EXCESSO DOS POLICIAIS AFINAL NÃO TINHA NADA DEMAIS, DIANTE DO LAISSEZ FAIRE, LAISSEZ PASSER QUE HOJE SE INSTALOU. CONTESTÁVAMOS A POLÍCIA POR NÃO NOS DEIXAR EM PAZ PARA JOGAR À BOLA NOS LARGOS DA CIDADE, POR NÃO DOS DEIXAR ENCOSTAR AOS VEÍCULOS ESTACIONADOS, POR NÃO NOS DEIXAR SENTAR SOBRE O ENCOSTO DOS BANCOS DA PRAÇA. ORA, FAZ LÁ SENTIDO DEIXAR MIÚDOS JOGAR À BOLA NA RUA, CORRENDO RISCOS SÉRIOS E INCOMODANDO OS TRANSEUNTES? OUTRO DIA UMA MOÇA VESTIDA DE CALÇAS JEANS ENCOSTOU-SE AO MEU CARRO, MAIS O NAMORADO, FAZENDO NÃO SEI LÁ O QUÊ, E, NO DIA SEGUINTE, TIVE QUE LEVAR O CARRO A UM PINTOR PARA ME ELIMINAR UM RISCO NA CHAPA, PRODUZIDA PELOS BOTÕES METÁLICOS DOS BOLSOS TRASEIROS DO JEANS. SENTAR SOBRE O ENCOSTO DOS BANCOS DA PRAÇA, ONDE JÁ SE VIU? OU OS BANCOS ESTÃO LIVRES E NÃO SE PERCEBE BEM PORQUE NÃO SENTAR NO ASSENTO, OU OS BANCOS ESTÃO OCUPADOS E NÃO É CORRECTO SENTAR-SE, LITERALMENTE, EM CIMA DO CONCIDADÃO.

7. MAS DOS AGENTES DA ORDEM NÃO SE TINHAM APENAS QUEIXAS. SUSPEITÁVAMOS QUE ELES NOS DAVAM UMAS COLHERZINHAS DE CHÁ DE VEZ EM QUANDO. O GURDA «QUARENTA» PRATICAMENTE QUE SE FAZIA ANUNCIAR ANTES DE DESEMBOCAR NO LARGO ONDE A GENTE TINHA MONTADO UM TORNEIO DE «QUEM PERDE SAI*». CONQUANTO A GENTE NÃO ABUSASSE (RESPEITÁVAMOS O PESSOAL DA PSP*): COLOCÁVAMOS SEMPRE UM OLHEIRO, QUAL PORTALÓ, QUE TINHA A INCUMBÊNCIA DE, EM CÓDIGO, NOS AVISAR DA APROXIMAÇÃO DO AGENTE DE GIRO. O GRITO «A LA PIRLI IRLI IRLI IRLÁ», REPETIDO, PELO MENOS, POR DUAS VEZES, ASSINALAVA A APROXIMAÇÃO DO GUARDA DA PSP.

8. E A ORDEM QUE O CASIMIRO «PRAIA NOVA*» MANTINHA NO PARQUE INFANTIL? E O JOSÉ DE NHÂ JOAQUINA NA PRACINHA DA ESCOLA GRANDE? QUANDO ESTAVA DE RESSACA, JOSÉ ENCOSTAVA-SE AO MURO DA CENTRAL ELÉCTRICA (QUE FICAVA LÁ ONDE É HOJE A REITORIA DA UNICV) E TIRAVA UMA SONECA; QUANDO, POR QUALQUER RAZÃO ACORDAVA (NUNCA COMPREENDI COMO É QUE O HOMEM CONSEGUIA DORMIR COM O BARULHO DOS MOTORES) VINHA SOBRE NÓS, DE VARA DE MARMELEIRO EM RISTE, COMO QUE QUERENDO JUSTIFICAR O SALÁRIO. QUANDO ESTAVA SÓBRIO ERA UM CONSELHEIRO IMPAGÁVEL PARA A MENINADA.

9. QUANDO CHOVIA, AS PESSOAS DOS POVOADOS QUE FICAM A NORTE DE ONDE HOJE SE ENCONTRA A VELHA PONTE DA VILA NOVA E DE TODA A RIBEIRA QUE VEM DA TRINDADE, QUE ESTIVESSEM RETIDAS NA MARGEM DIREITA DA RIBEIRA, AÍ FICAVAM ATÉ QUE AS CHEIAS PERMITISSEM. QUEM ESTIVESSE NA MARGEM ESQUERDA FICAVA ILHADA, E QUEM POR AÍ ESTIVESSE SEM MANTIMENTOS DE RESERVA FICAVA SEM PODER SE ABASTECER. COMO SE RESOLVIAM AS COISAS QUANDO ACONTECIA AS CHEIAS NÃO PERMITIREM A PASSAGEM? (E OLHE LÁ QUE JÁ HOUVE CASOS EM QUE A SITUAÇÃO SE MANTEVE POR TRÊS DIAS E MAIS). COMO SE RESOLVIAM AS COISAS? FUNCIONAVA A SOLIDARIEDADE DE QUEM ESTIVESSE EM CONDIÇÕES DE AJUDAR. LEMBRO-ME DA MINHA TIA (NHÂ FILÓ DE NHÔ ANTONINHO LUBRANO), NININHA DE CAETANO MACEDO, NHÂ MARIA DE NHÔ LUCIANO BRAZÃO, NHÂ ANINHA (MÃE DO ESTEBINHO) NA ACHADINHA, E OUTRAS PESSOAS, DANDO GUARIDA E RESTAURAÇÃO ÀS PESSOAS IMPEDIDAS DE CHEGAREM À CASA; LEMBRO-ME DA MINHA AVÓ (NHÂ MARIAZINHA), DO MANAIA*, DA FONGA, PERMUTANDO OU CEDENDO O QUE FALTAVA AO VIZINHO APANHADO DESPREVENIDO. PORQUE, EM O TEMPO SE ARMANDO, ERA HORA DE REFORÇAR A DESPENSA.

10. E A CIDADE ERA LINDA E LIMPA E ORDEIRA E SEGURA. DIZIA O MANAIA (QUE DEUS O TENHA) QUE NO TEMPO DO SENHOR SALAZAR, UM GOVERNADOR E MEIA DÚZIA DE CHEFES DE SERVIÇOS GOVERNAVAM O PAÍS TODO; E QUE HOJE, COM PRESIDENTES, MINISTROS, PRIMEIRO-MINISTRO, DIRECTORES-GERAIS, ETC., NEM SE CONSEGUE FAZER RESPEITAR A PROPRIEDADE ALHEIA; E EXPLICAVA QUE TUDO ISSO SE DEVIA À FALTA DE AUTORIDADE E DAVA UM EXEMPLO: O SABINO ELECTRICISTA COMPRARA UMA MOTO QUE, NO ENTENDER DO ADMINISTRADOR DO CONCELHO, ERA DEMASIADO PESADA PARA O FRANZINO SABINO; DECIDIU ENTÃO O ADMINISTRADOR RETIRAR-LHE HABILITAÇÃO PARA CONDUZIR TÃO PESADA MOTO. NINGUÉM CONTESTOU. ATÉ FELICITARAM O ADMINISTRADOR QUANDO SOUBERAM QUE (NA ILHA DO FOGO, PARA ONDE A MOTO FORA VENDIDA) O VENTO RETIRARA O NOVO DONO DE CIMA DA MOTO, PROVOCANDO-LHE UMA QUEDA QUE POR POUCO NÃO O MATAVA.

11. TEM UM AMIGO MEU (POR SINAL BEM MAIS NOVO DO QUE EU) QUE ME CONTESTA SEMPRE QUE CONTO A ESTORINHA DO MANAIA. REFUTA ELE, INVARIAVELMENTE: «TAMBÉM, PUDERA! A PRAIA ERA APENAS O PLATEAU.» E EU RETRUCO: «TUDO BEM. MAS QUE EU SAIBA, O PLATEAU NÃO AUMENTOU NEM UM CENTÍMETRO». O PLATEAU QUE NHÔ MANEL GARCIA E COMPANHIA LIMPAVAM E QUE NHÔ MANELINHO* FISCALIZAVA (DO ALTO DO SEU CAVALO) MANTEVE AS MESMAS DIMENSÕES. PORQUE, CARGAS DE ÁGUA, DEIXOU DE SER O BRINQUINHO QUE ERA DANTES? JÁ OUVIRAM FALAR DA «REVISTA»? AS CASAS (DO PLATEAU E DOS SUBÚRBIOS) ESTAVAM SUJEITAS A REVISTAS PERIÓDICAS PARA SE AVALIAR DO GRAU DE HIGIENE E LIMPEZA DOS SEUS OCUPANTES. ANUNCIADA A REVISTA, TODO O MUNDO SE ESMERAVA PARA ESPERAR A VISITA DE NHÔ MANELINHO. O INTERIOR E OS ARREDORES DOS POTES, A COZINHA, OS COPOS, AS CANECAS E AS LOUÇAS, TINHAM DE ESTAR TININDO PARA PODEREM SER APROVADOS NA INSPECÇÃO DE NHÔ MANELINHO. NEM OS FONTENÁRIOS ESCAPAVAM AO CONTROLO DO GRANDE E RESPEITÁVEL FISCAL, QUAL ASAE DOS TEMPOS DE ANTANHO. ERA BONITO DE SE VER.

12. NÃO PRETENDO ME ALONGAR MAIS NESTAS MEMÓRIAS. MAS ANTES DE TERMINAR GOSTARIA DE VOS CONTAR UMA QUE A GENTE APRONTAVA COM O SANKUDJA.
O SANKUDJA ERA PORTEIRO DO CINEMA. CUIDAVA DA ENTRADA PARA A «GERAL» (QUE, MUITO MAIS TARDE, VIRIA A SER TRANSFORMADA NA 3ª PLATEIA). RAPAZ DE QUASE DOIS METROS E PESANDO À VOLTA DE UM QUINTAL, ERA, PELOS ARGUMENTOS DO SEU FÍSICO (AINDA POR CIMA ERA BOXEUR), UM PORTEIRO DE RESPEITO. E TINHA NORMAS RÍGIDAS. QUEM ENTRA NA «GERAL» SÓ SAI NO FINAL DA SESSÃO. QUEM SAÍSSE ANTES, SÓ VOLTAVA A ENTRAR COM NOVO BILHETE. MAS SANKUDJA ARRANJOU UM ADVERSÁRIO À SUA ALTURA, DE SEU NOME MÁRIO DE ANDRADE. MÁRIO TINHA À VOLTA DE 1 METRO E CINQUENTA DE ALTURA E PESARIA À VOLTA DE 50 QUILOS (SE TANTO). RESOLVEU QUE IRIA TIRAR PARTIDO DAS RÍGIDAS NORMAS DE SANKUDJA. SE BEM O PENSOU, MELHOR O FEZ. POSICIONOU-SE À FRENTE DO PORTEIRO, COM UM PÉ DENTRO DA SALA E O OUTRO FORA, E QUESTIONOU SANKUDJA: «‘N PODI BA BÉBI ÁGUA LÂ NA KASA DONA TITINA*?» AO QUE SANKUDJA REORQUIU: «NHU BA XINTA ANTES DI NHU LÊBA UN TAPONA». E O MÁRIO ENTROU E ASSISTIU O FILME… SEM COMPRAR O COMPETENTE BILHETE. E SEMPRE QUE LHE DAVA NA TELHA DESAFIAR O SANKUDJA, LÁ APARECIA O MÁRIO* (TAMBÉM CONHECIDO POR COCOROTA E PEPINO) A FAZER A PERGUNTA SACRAMENTAL: «‘N PODI BA BÉBI ÁGUA LÂ NA KASA DONA TITINA?»
BEM… AS COISAS VIRIAM A ACABAR MAL PORQUE, ENTRETANTO, O MÁRIO DIVULGOU A TÁCTICA, DE TAL FORMA QUE UM DIA O SANKUDJA TINHA A «GERAL» PRATICAMENTE CHEIA, SEM RASGAR UM ÚNICO BILHETE. COM O SEU VOZEIRÃO DE GIGANTE, E DE DEDO EM RISTE, LIBEROU GERAL: «TUDO HOMI PA BAI BEBI ÁGUA LÁ NA KASA DONA TITINA. JÁ!» E, CLARO, NINGUÉM SE ATREVEU A DISCUTIR A ORDEM DADA. ALIÁS, QUEM OUSARIA CONTESTAR UMA DECISÃO DO SANKUDJA?

É DESTA PRAIA QUE ME LEMBRO COM SAUDADES. E É POR UMA PRAIA QUE POSSA DEIXAR TÃO INEFÁVEIS MARCAS, TAMBÉM NOS MEUS NETOS, QUE SIGO MOBILIZANDO COMPANHEIROS PARA UMA LUTA QUE DEVERIA SER DE TODOS, MAS QUE, INFELIZMENTE, NEM TODO MUNDO ABRAÇA.

QUE JAMAIS FALTE O BOM HUMOR AOS PRAIENSES! A MODOS DE NÃO PERDEREM A CAPACIDADE DE SE RIREM DE SI PRÓPRIOS, SENDO O CASO.

Monday, May 26, 2008

PRÉ-TESTE À NOVA CÂMARA

(Este texto fora publicado em 06 de Outubro de 2006 e os desafios que contém foram endereçados ao colectivo camarário, então em funções, a título de PROVA DE RECURSO. Convido os leitores a uma nova leitura,desta feita, para se aferir da razoabilidade ou não dos desafios, do nível de atendimento das referidas demandas e se não seria um bom desafio a lançar à actual equipa camarária, a título de, digamos, uma avaliação ex-ante. Uma boa leitura)
A CAPITAL

PROVA DE RECURSO: DE OUTUBRO DE 2006 A MARÇO DE 2008
“O homem superior é persistente no caminho certo e não apenas persistente.”

Confúcio

O ponto da situação da Capital do país, feito agora, no calor dos problemas de fornecimento de energia que ainda se vivem, do pó finíssimo (resíduo dos lamaçais das últimas chuvas) que invade casas, estabelecimentos e viaturas, das estradas transformadas em leitos de enxurradas, da precária situação sanitária, da ameaça de retorno de endemias que se acreditavam erradicadas, da ocupação abusiva dos passeios das ruas do centro histórico, da fuga ao legítimo exercício da autoridade, do insatisfatório upgrade da Praça Alexandre de Albuquerque, da redução do popular Cruzeiro em risível Crucifixo, do adiamento sine die do Estatuto Administrativo Especial para a Capital, do déficit de iluminação pública, dos problemas com o abastecimento de água, das torrentes de águas negras e outros resíduos drenados a céu aberto, do sentimento de insegurança instalado, da iminência de uma catástrofe na Ladeira Sampadjudo, na falência do tráfego rodoviário na zona sul da Capital, mostra um quadro negro, revelador de fragilidades várias que foram sendo escamoteadas por discursos optimistas, frutos de excessiva actividade onírica dos responsáveis locais, por alguma negligência de alguns sectores do poder central e por atitudes clubistas de uma boa parte da população residente.
A primeira ideia que nos vem à mente, diante de um tal quadro, é que muita gente falhou. A tentação em assacar culpas exclusivamente ao executivo municipal é enorme. Mas, em boa verdade, há mais culpados. Nós, cidadãos desta urbe, temos a nossa quota-parte de responsabilidades. Pecámos por acções e por omissões. O próprio Governo do país terá falhado algures, entre a saúde, as obras públicas, a segurança e a ordem públicas. Se não, como poderia a Capital política do país chegar ao ponto a que chegou?
Mas a hora não é de identificar e julgar os culpados. Como diria o grande Cabral, a hora é de ACÇÃO e não de palavras. Mas acção virada para a busca de soluções efectivas para os problemas identificados e não de mera verborreia para fazer o ninho atrás de orelhas incautas. Que isso pode iludir uns tantos, por uns tempos; mas vem uma chuvinha qualquer e a careca fica a descoberto. Aliás, já dizia Winston Churchill: ninguém consegue enganar todo o mundo durante todo o tempo. Um dia a casa vem abaixo. Mais tarde ou mais cedo.
Apesar da minha convicção de que o executivo municipal saído das eleições de Março de 2004 falhou, estaria disposto a dar a mão à palmatória se, entre Outubro de 2006 e Março de 2008, se conseguisse encontrar soluções para um conjunto de problemas que vêm degradando a qualidade de vida na Cidade da Praia. Afinal, tem um mandato de 04 anos e, conquanto não devesse cabular nos primeiros anos do mandato, nada impede que chegue à média mínima para obter a aprovação final, aplicando-se devidamente nos últimos dezoito meses. Será capaz de remover os factores que restringem a qualidade de vida do praiense? Cá vão alguns desafios:
1. DEVOLUÇÃO DAS ENXURRADAS AO LEITO DAS RIBEIRAS (em parceria com o Governo)
Não adianta agir na Vila Nova, em Lém Cachorro, no Paiol Velho, Lém Ferreira, Achadinha, Fazenda, Várzea ou Chã-de-Areia, sem que antes sejam feitas intervenções no sentido da colecta e encaminhamento das águas pluviais dos planaltos da Achada de São Filipe, Ponta d’Água, Achadinha Pires, Achada Grande, Eugénio Lima, Monte ou Achada de Santo António. A solução poderá ter um custo alto, mas valeria a pena ao se considerar a relação custo/benefício. E, em termos de definição do que deve ser feito, não exige nenhuma intervenção do outro mundo. Basta “construir” colectores que recolham as águas pluviais dos planaltos que enformam a cidade e as conduzam ao leito das ribeiras, sem passar pelo interior das residências ou pelas vias de circulação rodoviária. E, claro, a operacionalização da ideia, já com barbas, de construir a barragem de São Pedro/Bom Coio (na ribeira da Trindade) e da reconstrução da efêmera barragem de São Filipe (na ribeira do mesmo nome).
2. RESULTADOS NA RESOLUÇÃO QUESTÃO DO SANEAMENTO DO MEIO E DA SAÚDE PÚBLICA
Recolha e tratamento dos resíduos sólidos, regular limpeza dos logradouros municipais, deslocalização do mercado do Plateau e agilização dos mercados dos bairros, eliminação da torrente de águas negras da Ribeira de Lém Ferreira e da fossa da encosta do Hospital Agostinho Neto, intervenção na lixeira de «Baxo Ponta Belém», de modo a transformar a cidade num espaço ambientalmente saudável. Mas terão que ser os cidadãos a fazer a constatação e passar o competente «certificado» à Câmara. Que um discurso do Presidente anunciando a solução dos problemas já não convenceria ninguém. Medida complementar seria a obrigação de todos os estabelecimentos abertos ao público, comerciais ou não, disponibilizarem instalações sanitárias para os seus clientes e utentes. Sendo anuais as licenças dos estabelecimentos comerciais, poderá a CMP condicionar a renovação das mesmas a prévia prova de existência de WC para uso das pessoas que demandam os estabelecimentos.
3. RETORNO À NORMALIDADE NO CENTRO HISTÓRICO DA CIDADE (em parceria com as forças da ordem)
Deslocalização do mercado (insiste-se neste ponto por ser crucial para a solução de um conjunto de constrangimentos que afectam a cidade) e remoção de quantos expõem e vendem mercadorias nas ruas travessas e passeios para os mercados dos bairros. Uma ocupação dos espaços deixados livres, por algum tempo e por agentes da autoridade, pode se tornar necessário. A transformação do mercado em espaço para exposição e venda de artesanato, flores, plantas ornamentais e «gifts» e opção por que a rua central do Plateau e algumas de suas travessas sejam reservadas à circulação pedonal, contribuiria grandemente para que o Plateau cumpra da melhor forma o seu papel de centro histórico.
4. EXERCÍCIO DESCOMPLEXADO DA AUTORIDADE
Já estando demasiado estafada a desculpa de que a população não colabora, o jeito vai ser mesmo aplicar os rigores da lei a quem «não colaborar» - velho eufemismo para rotular a incapacidade da autoridade municipal em fazer valer as posturas. Não sendo, de todo, uma terra sem lei, não pode ser assacada qualquer responsabilidade à população que só «não colabora» face à garantia de impunidade que lhe é transmitida pela inércia das autoridades.
5. UPGRADE CONSENSUAL DA PRAÇA ALEXANDRE DE ALBUQUERQUE
A Praça Alexandre de Albuquerque não tem de ser simplesmente o que a edilidade quer. Há necessidade de se conseguir amplo consenso junto da população e, principalmente, dos nossos anciãos. O ex-libris da cidade não pode ser a tradução do desejo de uma maioria circunstancial, mas antes do sentir da população da cidade e, sobretudo, dos anciãos que não se cansam de suspirar “Ah, Praça Grande, quem te viu e quem te vê!”. Vamos começar já?
6. REORDENAMENTO DO TRÁFEGO URBANO DE VIATURAS (em parceria com a Moura Company e/ou outros privados)
Que a intercomunicabilidade dos bairros deixa muito a desejar é uma espécie de verdade de la palisse. As últimas derrocadas provocadas pelas chuvas do início de Setembro pôs a nú mais esta fragilidade, insistentemente escamoteada durante muito tempo. É preciso, em processo de urgência, intervir para a transformação de tal realidade. A construção de terminais rodoviários interurbanos de passageiros, a norte da cidade (lá onde a circular se cruza com a via que liga a Praia ao interior de Santiago) e a sudoeste (por alturas da Caiada), como forma de obstar a entrada nos circuitos de circulação interna dos HIACES e demais transportes interurbanos de passageiros e aliviar a pressão sobre os referidos circuitos é outra medida que se impõe. A reativacção dos semáforos e a revisão dos demais sinais verticais e a reavaliação da localização de algumas passadeiras, são outras medidas inadiáveis, caso se pretenda, verdadeiramente, reordenar o tráfego urbano.
7. RESOLUÇÃO DO PROBLEMA DE ILUMINAÇÃO PÚBLICA
Sem comentários. A qualidade de vida e a segurança das pessoas e bens exigem a resolução imediata do problema. Mesmo que se tenha que optar por contratos particulares e ter um contador de electricidade em cada esquina. Os moradores de cada rua liquidariam as facturas junto do fornecedor do serviço e, depois, fariam jogo de contas com a CMP. Para grandes males...
8. DESCENTRALIZAÇÃO DA ACÇÃO MUNICIPAL, NO SENTIDO DAS PROPOSTAS DO EAEC, COM RECURSO A PROFISSIONAIS SELECCIONADOS PELO MÉRITO PESSOAL
A melhoria da performance da gestão da Cidade da Praia pode ter que passar pela descentralização da gestão. E nada impede que, enquanto não se aprova o Estatuto Administrativo Especial para a Capital, se comece a implementar, em regime experimental, a descentralização do poder municipal nos termos propostos no projecto do referido estatuto: divisão da cidade em cinco (ou sete) grandes circunscrições infra-municipais, colocando à frente de cada uma um administrador de circunscrição, seleccionado por meio de concurso público. Critério: mérito (traduzido em competência técnica e conhecimento e vivência das realidades da circunscrição).

Disse que o executivo municipal praiense falhou? Pois daria o dito por não dito, e estenderia a mão à palmatória, caso esta vereação resolvesse os problemas elencados acima, na parcela de mandato que ainda lhe resta. Seria a sua PROVA DE RECURSO.

ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS

Oração de São Francisco de Assis



Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois, é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.